agricultura

Estudo identifica metais tóxicos em bananas de Linhares e aponta risco para crianças

11 dez 2025 - 16:50

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Pesquisa da USP e Ufes detectou níveis de chumbo e cádmio acima do permitido pela FAO em cultivos no estuário do Rio Doce. Contaminação é reflexo do rompimento da barragem de Fundão
Estudo identifica metais tóxicos em bananas de Linhares e aponta risco para crianças. Foto: Pexels

Pesquisadores brasileiros identificaram que bananas cultivadas em solos do estuário do Rio Doce, em Linhares, no Norte do ES, estão contaminadas com elementos potencialmente tóxicos (EPTs), especificamente chumbo e cádmio. Os níveis encontrados superam o recomendado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), configurando um risco potencial à saúde, sobretudo de crianças. A presença desses metais é associada aos rejeitos da barragem de Fundão, localizada em Mariana (MG), que atinge a região capixaba desde o rompimento em novembro de 2015.

O levantamento foi liderado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha. Os resultados foram publicados no início de outubro na revista científica Environmental Geochemistry and Health.

O objetivo central do trabalho foi avaliar os riscos do consumo de banana, mandioca e cacau plantados na região para a saúde humana. As investigações apontaram que as concentrações de cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo ocorrem devido à associação com o óxido de ferro, principal constituinte do rejeito de mineração.

“O teor dos óxidos de ferro no solo, que são os principais constituintes do rejeito, está correlacionado ao teor deles na planta. Estudamos a passagem de constituintes do rejeito do solo para a água e da água para a planta, incluindo suas folhas e frutos”, explica a primeira autora do estudo, engenheira agrônoma Amanda Duim Ferreira, em entrevista à Agência Fapesp.

Metodologia da análise
Para verificar a transferência dos elementos tóxicos para os frutos, a equipe realizou a coleta de solo e bananas na região de Regência, em Linhares. As amostras foram lavadas, secas e tiveram a biomassa medida. Posteriormente, raízes, caules, folhas e frutos (sem casca) foram triturados separadamente.

Amanda descreve o processo laboratorial: “Só então analisamos todas as partes para saber o que havia em cada uma. Dissolvemos o ‘pó de planta’, transformando-o em solução com o uso de vários ácidos, e determinamos a concentração na solução”. O cálculo permitiu obter a concentração dos elementos em miligramas por quilo de biomassa seca.

As coletas analisadas foram realizadas em agosto de 2021, integrando um monitoramento iniciado em 2015, logo após a chegada da lama ao Espírito Santo.

Riscos à saúde infantil e adulta
Após a detecção de EPTs acima do limite em partes comestíveis, os pesquisadores estimaram o risco do consumo para adultos e crianças com 6 anos ou menos. Os cálculos indicaram que, embora o consumo da maioria dos alimentos não represente risco significativo, as bananas cultivadas na área contêm concentrações de chumbo e cádmio perigosas para o público infantil.

Especialistas alertam que a exposição ao chumbo, mesmo em doses baixas, pode acarretar problemas neurológicos irreversíveis em crianças, incluindo diminuição de QI, déficit de atenção e distúrbios de comportamento. Para os adultos, o risco calculado ficou abaixo de 1, indicando menor impacto imediato. Contudo, o consumo a longo prazo pode aumentar a probabilidade de condições graves.

“Com o passar do tempo de exposição, considerando a expectativa de vida do Brasil, de mais ou menos 75 anos, pode surgir o risco carcinogênico, uma vez que existe a possibilidade de ocorrerem danos diretos e indiretos ao DNA. Tudo depende da capacidade do organismo humano de absorver e metabolizar esses elementos que estão disponíveis no ambiente”, afirma Tamires Cherubin, coautora do trabalho.

Acúmulo de rejeitos e falta de remediação
O estudo aponta que, dez anos após o desastre ambiental, os impactos continuam avançando sobre o estuário. Segundo Amanda Duim, “a cada estação de cheia, mais rejeito chega ao estuário”. As camadas depositadas nas margens do rio, que nos primeiros anos variavam entre 5 e 10 centímetros, hoje chegam a ultrapassar 50 centímetros de acúmulo.

A pesquisadora destaca a ausência de ações efetivas de remediação para reduzir os metais acumulados. Uma alternativa analisada pela equipe é a fitorremediação, utilizando plantas nativas para absorver os contaminantes. A taboa, espécie comum em brejos capixabas, demonstrou eficiência na acumulação de níquel, cromo, chumbo e cobre na raiz. “A solução está na natureza”, pontua Amanda.

O cenário observado envolve cultivos de subsistência conduzidos por pescadores e moradores tradicionais, com eventual venda de excedentes. Diante dos resultados, a pesquisadora reforça a necessidade de intervenção oficial. “Não é não dar a banana para a criança, é o poder público começar a monitorar os solos dessas regiões”, conclui.

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Atualizado: 11/12/2025 17:45

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