A Polícia Civil prendeu em flagrante um homem e uma mulher, ambos de 43 anos, suspeitos de chefiar um esquema de fraude em cartões de benefícios que movimentava cerca de R$ 1 milhão por mês no Espírito Santo. A prisão ocorreu na última quinta-feira (26), em um condomínio de luxo no bairro Feu Rosa, na Serra, durante a Operação “Onerado”, cujos detalhes foram divulgados nesta terça-feira (3). Os investigados utilizavam máquinas registradas em nome de “laranjas” para converter o saldo de tíquetes-alimentação em dinheiro, cobrando taxas de 20% a 40% dos usuários que procuravam o serviço.
Como funcionava a fraude
O grupo criminoso mantinha uma loja física no bairro Goiabeiras, em Vitória, para onde os donos dos cartões se dirigiam com o objetivo de vender o saldo do vale-alimentação. No local, os investigados verificavam o saldo disponível e simulavam compras em máquinas de cartão registradas em CNPJs de terceiros.
Após a transação, o casal repassava o valor ao usuário por meio de Pix ou dinheiro em espécie, retendo a porcentagem referente à taxa cobrada. Os valores retidos pelo esquema também eram repassados a terceiros, incluindo empresas fora do estado, fomentando uma vida de luxo para os suspeitos.
“Eles retinham o cartão da pessoa. Automaticamente, eles utilizavam máquinas de empresas simuladas e já devolviam, na hora, a partir do saldo verificado, o valor com desconto de 30% ou 40% para a pessoa, que levava o dinheiro em espécie ou pix”, explicou o delegado adjunto da Divisão de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado (Diccor), Vinicius Landeira.
Origem da investigação
A apuração teve início após uma empresa da Grande Vitória denunciar uma ex-funcionária de 38 anos, que atuava no setor financeiro. A mulher era a responsável por recarregar os cartões de benefícios dos trabalhadores da companhia.
Aproveitando-se do acesso ao sistema, a ex-funcionária passou a realizar repasses irregulares para o próprio tíquete. Em seguida, ela se dirigia à loja do casal para converter o saldo em dinheiro. O desvio ocorreu ao longo de 16 meses, gerando um prejuízo de aproximadamente R$ 200 mil à empresa.
“Encarregada de recarregar os cartões do benefício dos funcionários dessa empresa, ela passou a colocar valores exorbitantes no próprio cartão e procurou esse grupo para repassar o valor”, detalhou o delegado. A mulher não foi presa e é investigada pelo crime de furto. Dois funcionários que trabalhavam para o casal também estão sob investigação.
Apreensões e histórico
Durante a ação policial, foram apreendidos 1.892 cartões de benefícios em nome de terceiros, quatro máquinas de cartão, quatro aparelhos celulares, cheques, notas promissórias, documentos contábeis e veículos de luxo.
A polícia estima que, apenas nos cartões recolhidos, haja cerca de R$ 300 mil em benefícios que ainda poderiam ser sacados.
“O próprio preso disse que nesses cartões havia um valor de R$ 300 mil de saldo. Eles assumiram, mas para eles não cometeram nenhum tipo de crime. Nós pesquisamos a vida pregressa e o homem tem histórico de agiotagem com violência”, afirmou Landeira, acrescentando que o suspeito confessou atuar dessa forma há pelo menos 20 anos.
O casal, apontado como integrante do alto escalão financeiro do grupo, foi autuado por receptação qualificada, lavagem de dinheiro e crime contra a economia popular. A Polícia Civil continua a análise do material apreendido para identificar outros envolvidos e calcular o prejuízo total.
Venda de benefício é crime
A polícia alerta que a comercialização do vale-alimentação é uma prática ilegal. O trabalhador que vende o benefício pode ser demitido por justa causa pelo empregador e responder criminalmente por estelionato.
“A partir do momento que você leva seu cartão de benefício pessoal, dado por sua empresa, e você aceita ter esse deságio de 30% a 40%, você pode estar colaborando com uma organização criminosa”, concluiu o delegado.


















