geral

Trânsito mata mais que o crime no Espírito Santo e abril bate recorde de vítimas

04 maio 2026 - 10:30

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

Share
Com mais de 300 fatalidades no primeiro quadrimestre, letalidade nas vias é impulsionada por imprudência e excesso de velocidade. No interior, Linhares lidera ranking de mortalidade com 22 mortes registradas
Mortes no trânsito superam homicídios no Espírito Santo e mobilizam poder público no Maio Amarelo. Foto: Reprodução/DER-ES

Entre janeiro e abril deste ano, as rodovias e ruas do Espírito Santo registraram mais vítimas fatais do que a criminalidade, consolidando uma mudança estatística iniciada nos últimos anos. Com mais de 300 mortes no trânsito contabilizadas no primeiro quadrimestre, o cenário é marcado pela alta concentração de ocorrências no interior do estado e pela incidência de colisões. Diante do impacto na saúde pública e na economia, municípios e órgãos de trânsito intensificam as operações de fiscalização e as campanhas de conscientização por meio do movimento global Maio Amarelo.

A inversão da violência
Os indicadores evidenciam que as vias capixabas têm sido mais letais que os crimes contra a vida. Segundo dados do Observatório da Segurança Pública, o primeiro quadrimestre acumulou 314 fatalidades no trânsito, número 26% superior ao total de homicídios (249) no mesmo período. O órgão aponta que apenas no último mês foram 94 mortes nas estradas, configurando o abril com maior mortalidade desde 2017, enquanto os assassinatos somaram 43 ocorrências.

Os dados do Observatório do Trânsito (Detran/ES) para o mesmo período de 2026 também atestam a gravidade, contabilizando 313 mortes entre janeiro e abril, uma média de quase três vidas perdidas por dia, com 39 óbitos apontados pelo órgão no mês de abril.

Esta tendência de sobreposição das mortes no trânsito em relação aos homicídios começou em 2024, ano encerrado com 986 vítimas de acidentes contra 856 assassinatos. A disparidade aumentou em 2025, com bases de dados indicando a ocorrência de 1.015 mortes nas vias frente a 761 homicídios. Em um recorte específico do último ano, levantamentos registram 962 mortos em um total de 14,5 mil sinistros no estado.

Radiografia dos acidentes
A maior parte das vítimas morre no próprio local do acidente, sem tempo hábil para socorro. O perfil predominante atinge dois extremos etários: jovens adultos de 30 a 39 anos e idosos de 60 a 69 anos.

A dinâmica dos acidentes revela que 41,49% das mortes (182 óbitos) foram causadas por colisões, envolvendo batidas entre veículos ou contra objetos fixos. O atropelamento figura como a terceira maior causa de letalidade no estado este ano, com 37 vítimas fatais. O período noturno concentra a maioria das ocorrências (48,09%), com picos aos domingos (20,06%) e sábados (17,20%).

Do total de registros de janeiro a abril, 57,32% dos acidentes ocorreram em vias municipais e estaduais, sendo as rodovias sob gestão do Estado as de maior volume de casos. A Região Norte lidera o ranking, seguida pelas regiões Noroeste e Metropolitana. Das onze cidades capixabas que registraram mais de dez mortes, seis estão localizadas no interior:

  • Linhares: 22 mortes
  • Colatina: 20 mortes
  • Cachoeiro de Itapemirim: 17 mortes
  • São Mateus: 15 mortes (sendo 9 apenas no mês de abril)
  • Aracruz: 14 mortes
  • Conceição da Barra: 12 mortes

Imprudência e o fator humano
As autoridades de trânsito associam a rotina de acidentes à combinação de imprudência, alta velocidade e ultrapassagens em locais proibidos. Durante o feriado prolongado do dia 1º de maio, a fiscalização da Polícia Rodoviária Federal (PRF) autuou 495 condutores por excesso de velocidade. Os registros identificaram veículos a mais de 134 km/h, incluindo um flagrante a 166 km/h. Na mesma operação, 155 motoristas foram penalizados por ultrapassagens proibidas.

Para o advogado e especialista em Direito de Trânsito, Fábio Marçal, sem mudanças efetivas as mortes continuarão. Ele aponta a necessidade de avaliar a estrutura viária, especialmente no interior. “As vias estão em condições adequadas, existem pontos críticos que precisam de intervenção, falta fiscalização, é necessário ampliar o uso de radares para coibir imprudências?”, questiona.

O especialista também critica as recentes flexibilizações normativas. “O recado que o governo federal deu com a mudança para tirar a carteira de habilitação foi muito irresponsável. E com isso mais pessoas podem perder suas vidas por falta de habilidades e de noções do contexto do trânsito”, observa.

Marçal ressalta que o impacto transcende a segurança, atingindo a saúde pública e a economia. “Muitas vítimas sobrevivem com sequelas graves e passam a depender do sistema de saúde. Em diversos casos, há ainda impactos econômicos, com afastamentos e aposentadorias por invalidez”. Como solução, defende a inclusão da educação para o trânsito nas primeiras séries escolares, conforme prevê a Constituição Federal. “Existe um grupo, liderado pelo governo, voltado à prevenção, mas é preciso avançar com mais rapidez e efetividade”, pontua.

Ações de contenção no Maio Amarelo
Criado em 2011 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e adotado pelo Brasil em 2014, o movimento Maio Amarelo utiliza a cor de advertência da sinalização viária para alertar a sociedade sobre as mortes no trânsito. Com o tema “Enxergar o Outro é Salvar Vidas”, prefeituras da Grande Vitória organizaram cronogramas de intervenção para o mês.

Em Vitória, que reduziu o número de mortes em 30% no ano de 2025, a Secretaria de Transportes, Trânsito e Infraestrutura Urbana (Setran) planejou 5 mil abordagens diretas. Entre 7 e 29 de maio, equipes percorrerão escolas e dez pontos estratégicos da capital para ações de panfletagem com motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. “Segurança no trânsito se constrói com consciência e respeito coletivo. Quando reconhecemos a vulnerabilidade de quem divide a via, mudamos comportamentos”, afirma a prefeita Cris Samorini.

Na Serra, o foco inclui a repressão de infrações e o preparo para resgates. A vice-prefeita e secretária de Defesa Social, Gracimeri Gaviorno, anunciou mais de 50 atividades, com blitze educativas, fiscalização eletrônica de velocidade e operações da Lei Seca. A operação “Coletivo Seguro” também realizará simulações de resgate com múltiplas vítimas para o treinamento das equipes de socorro.

“O Maio Amarelo é um chamado à reflexão coletiva sobre a preservação da vida. Nossa gestão entende que a segurança viária não se limita ao asfalto; por isso, levamos a conscientização também para dentro das escolas e empresas. Queremos formar cidadãos que compreendam o trânsito como um espaço de respeito mútuo, onde a prudência deve ser a regra em todas as esferas da sociedade”, conclui Gaviorno.

0
0
Atualizado: 04/05/2026 10:32

Se você observou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, nos avise. Clique no botão ALGO ERRADO, vamos corrigi-la o mais breve possível. A equipe do EmDiaES agradece sua interação.

Comunicar erro

* Não é necessário adicionar o link da matéria, será enviado automaticamente.

A equipe do site EmDiaES agradece sua interação.