economia

Crédito dobra entre jovens e acende alerta sobre ciclo do endividamento precoce

04 maio 2026 - 09:45

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo, com informações de O Globo

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Facilidade de abertura de contas e limites desproporcionais à renda transformam a promessa de independência financeira em uma armadilha para milhões de brasileiros com menos de 30 anos
Acesso digital ao crédito dobra e empurra jovens para o ciclo do endividamento precoce. Foto: Gabriel Queiroz /Getty Images Pro

O número de jovens entre 15 e 29 anos com acesso ao crédito no Brasil dobrou nos últimos oito anos, saltando de 13,7 milhões em 2016 para 27,6 milhões em 2024. Impulsionado pela intensa digitalização do sistema financeiro, esse avanço tem gerado um efeito colateral preocupante: a entrada massiva em um ciclo de inadimplência e dependência antes mesmo da consolidação de uma renda estável. De acordo com os dados de um levantamento publicado originalmente pelo jornal O Globo, cerca de 70% desse público ganha no máximo dois salários mínimos, o que evidencia o descompasso entre a oferta de limites por bancos e fintechs e a real capacidade de pagamento dessa geração.

A facilidade tecnológica transformou a relação com o dinheiro. O Banco Central aponta que 96,4% dos adultos no país já possuem conta bancária ou de pagamento, sendo 88% usuários ativos. Com o celular consolidado como o principal canal, o volume de transações financeiras via telefone cresceu seis vezes entre 2020 e 2024. Hoje, o brasileiro mantém, em média, de seis a sete vínculos com instituições financeiras, gerenciando múltiplos cartões e limites que pulverizam o controle do orçamento.

O descompasso entre limite e realidade
Para muitos jovens, a autonomia de não depender dos pais para o consumo esbarra rapidamente em um teto de vidro. É o caso da estudante de Ciências Sociais Danielly, de 28 anos. “Hoje estou no looping do cartão: você paga e fica sem dinheiro; paga e fica sem dinheiro de novo”, resume.

A falta de critério na liberação do crédito é um dos principais combustíveis desse cenário. Nathalia Ruhana, de 23 anos, recebeu um cartão com limite de R$ 2 mil quando sua renda era de apenas R$ 700. O que seria um apoio nas despesas pessoais e familiares tornou-se um problema. “Era um suporte, não só para mim, mas para minha família, e foi se criando uma bolha muito difícil de sair. É muito fácil se endividar”, afirma.

A percepção do gasto também muda com a tecnologia. Everyn, de 25 anos, relata que os aumentos automáticos de limite pelos bancos digitais criam uma falsa sensação de poder de compra. “Os bancos digitais vão dando limite: ‘Te dou R$ 2.500, agora R$ 5 mil’, e você acaba não percebendo quanto tem ao certo. Quando acha que sua fatura está em R$ 300 ou R$ 400, já passou de R$ 1.500”, conta ela, que precisou desativar a função de pagamento por aproximação (NFC) e impor os próprios limites no aplicativo para conter as despesas.

Fatores externos também aceleram o endividamento. Marina Lima, de 26 anos, tinha um cartão com limite de R$ 400 que conseguia quitar. No entanto, durante a pandemia, precisou assumir os custos domésticos e escolheu garantir o básico em detrimento das faturas. “Meu nome foi negativado e ainda está até hoje. É angustiante se ver muito jovem com o nome sujo. Hoje eu não conseguiria financiar uma casa ou um carro”, lamenta.

A “anestesia financeira” dos aplicativos
Especialistas alertam que o design das plataformas bancárias atua diretamente no comportamento do consumidor. Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV EAESP, aponta que o limite de crédito deixou de ser visto como antecipação de renda futura para ser encarado como extensão do poder de compra imediato. “Essa confusão conceitual é o ponto de partida de muitos ciclos de endividamento”, afirma.

Segundo a professora, os aplicativos agem como “máquinas de redução de fricção”, desenvolvidos para decisões rápidas. “A apresentação do valor da parcela, em vez do custo total do crédito, é uma escolha de design. Mostrar ’12x de R$ 89′ em destaque e o valor total em fonte menor não é aleatório”, explica Yoshinaga, lembrando que reguladores internacionais já tentam exigir mais clareza no custo efetivo total.

A psicóloga Denise Milk classifica esse fenômeno como uma redução da “dor do pagamento”. No parcelamento e no pagamento por aproximação, a perda financeira é menos sentida. “Isso produz uma espécie de anestesia financeira. A compra parece menor do que realmente é. Só depois, quando várias parcelas se somam, a realidade aparece, geralmente acompanhada de culpa, ansiedade e sensação de descontrole”, detalha a psicóloga. Para os jovens, que usam o consumo como linguagem de pertencimento e sofrem a pressão das vitrines virtuais nas redes sociais, o risco é dobrado. “O crédito entra como uma ponte perigosa entre a vida possível e a vida desejada”, conclui.

Inadimplência, renegociação e o perfil investidor da Geração Z
Os reflexos dessa dinâmica já estão registrados nos birôs de crédito. Dados da Serasa referentes a março de 2026 mostram o Brasil com 82,8 milhões de inadimplentes. Os jovens de 18 a 25 anos representam 11,2% desse montante, enquanto a faixa de 26 a 40 anos concentra 33,5%. Para mitigar o problema do endividamento, o governo federal detalha atualmente um novo programa de renegociação voltado para débitos com cartão, cheque especial e crédito pessoal não consignado.

Apesar da alta exposição às dívidas, a inclusão financeira proporcionada pelo Pix e pelas fintechs também trouxe avanços. Um estudo da Anbima, em parceria com o Datafolha, aponta que 36% da população brasileira realiza investimentos. A Geração Z lidera esse movimento (37%), superando a Geração X e os Boomers, com uma carteira mais diversificada que inclui títulos privados, fundos, ações e criptomoedas em vez da tradicional poupança.

Contudo, a base financeira desses jovens investidores é frágil: 57% admitem que suas reservas durariam menos de seis meses. A educação sobre o tema ainda caminha a passos lentos, com apenas três em cada dez jovens da Geração Z tendo participado de cursos ou palestras sobre finanças. O levantamento também revela que cerca de um terço da população brasileira gasta mais do que ganha, o que resulta em alto nível de estresse com dinheiro para quase metade do país.

Como define Henrique Castro, professor de finanças da FGV EESP, o cenário atual promove uma “antecipação radical” do crédito na vida do brasileiro. “Antigamente, o jovem entrava no ciclo de crédito quando conseguia o primeiro emprego formal e o gerente liberava um cartão com limite baixo. Hoje, o crédito chega antes da renda”, finaliza.

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Atualizado: 04/05/2026 10:24

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