geral

PF rejeita delação de Daniel Vorcaro, que mantém negociação com a PGR

21 maio 2026 - 07:00

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo, com informações de Folha de S. Paulo e g1

Share
Investigadores consideram insuficientes as informações de Daniel Vorcaro sobre fraudes que causaram rombo de R$ 60 bilhões. Para avançar com a PGR, o agora presidiário precisará apresentar fatos inéditos
Ex-dono do Banco Master teve a proposta barrada pela corporação por omitir provas e tentar justificar crimes. Foto: Reprodução

A Polícia Federal (PF) rejeitou, na noite desta quarta-feira (20), o acordo de delação premiada proposto pelo ex-banqueiro, e agora presidiário, Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, em Brasília. A recusa ocorreu porque os investigadores avaliaram as informações apresentadas como insuficientes, sem fatos inéditos em relação às provas já obtidas e carentes de boa-fé. Com a negativa da corporação, a defesa do empresário, apontado como líder de um esquema de fraudes financeiras, articula agora uma negociação direta com a Procuradoria-Geral da República (PGR) para tentar validar a colaboração.

Os motivos da rejeição e o impasse bilionário
A avaliação técnica da PF concluiu que os relatos do ex-banqueiro não justificavam os benefícios de uma colaboração premiada. Fontes ligadas ao caso apontam que Vorcaro omitiu fatos que já haviam sido descobertos em seus próprios telefones celulares, apreendidos durante as fases da operação Compliance Zero.

Além da omissão, os investigadores identificaram falta de boa-fé, requisito essencial para o acordo. Vorcaro teria tentado justificar os crimes cometidos, em vez de admitir a totalidade dos ilícitos dos quais participou.

Os valores envolvidos no ressarcimento também geraram forte discordância. O ex-banqueiro propôs devolver cerca de R$ 40 bilhões em um prazo de dez anos. A PF e a PGR, no entanto, exigem a devolução de R$ 60 bilhões em um período mais curto. As exigências rígidas baseiam-se na posição de Vorcaro como líder do esquema e no impacto financeiro de suas operações: os custos da quebra do Banco Master já ultrapassam R$ 57 bilhões. Desse montante, estima-se que R$ 51,8 bilhões sairão do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para ressarcir clientes, o maior resgate da história do fundo, superando o caso Bamerindus em 1997.

O futuro da delação e a situação carcerária de Vorcaro
Apesar da recusa da PF, a PGR sinalizou internamente que as tratativas continuarão. O órgão entende que negociações dessa magnitude são lentas e não se encerram na primeira recusa. O avanço, contudo, dependerá de a defesa apresentar novos elementos, indicar o paradeiro dos recursos desviados e listar bens (como imóveis e aeronaves) para abater a dívida. Qualquer acordo final precisará, obrigatoriamente, da homologação do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).

Atualmente, Daniel Vorcaro encontra-se detido na Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal. Preso pela segunda vez em 4 de março de 2026, ele estava alojado na mesma cela que havia sido preparada para o ex-presidente Jair Bolsonaro. Nesta semana, no entanto, a PF transferiu o ex-banqueiro para uma cela comum. Sua primeira prisão ocorreu em novembro de 2025, no aeroporto de Guarulhos (SP), sob a suspeita de tentar fugir do país, tese negada por ele, que alegou viagem para buscar investidores.

Desdobramentos políticos
As investigações da PF seguiram independentes da delação e atingiram o núcleo familiar de Vorcaro e o alto escalão da política. Em 7 de maio, endereços ligados ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil, foram alvos de busca e apreensão.

A suspeita é de que o parlamentar recebia pagamentos mensais (inicialmente de R$ 300 mil, posteriormente elevados a R$ 500 mil) repassados por Felipe Vorcaro, primo de Daniel, que teve prisão temporária decretada. As apurações indicam ainda o custeio de despesas pessoais do senador, como voos em jatinhos.

No dia 14 de maio, a PF prendeu em Belo Horizonte o pai de Daniel, Henrique Vorcaro. Ele é investigado por envolvimento com “A Turma”, organização criminosa supostamente utilizada pelo dono do Master para coagir e ameaçar adversários, além de obter informações sigilosas e invadir dispositivos informáticos.

A crise contamina o BRB e afasta o Governo Federal
O escândalo do Master provocou um efeito cascata que colocou o Banco de Brasília (BRB) em situação crítica. A PF investiga uma fraude de R$ 12 bilhões na venda de carteiras de crédito falsas do Master para o banco estatal candango, negócio que teria sido usado para inflar balanços.

Devido à necessidade de uma auditoria forense sobre essas perdas, o BRB descumpriu o prazo legal (31 de março) para publicar seu balanço financeiro de 2025. A instituição estabeleceu a data de 29 de maio para regularizar a situação e realizar um aporte de capital.

Buscando uma saída, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), tentou articular um socorro do Governo Federal, usando o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), como intermediário. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no entanto, recusou-se a receber a governadora e decidiu negar qualquer resgate com recursos do Tesouro.

A recusa de Lula foi baseada em orientações de conselheiros, que recomendaram distanciamento do caso devido ao envolvimento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Daniel Vorcaro, relação que veio à tona no âmbito da investigação conhecida como caso “Dark Horse”.

Com problemas de liquidez, o BRB aguarda o recebimento de R$ 3 bilhões de um fundo da gestora Quadra Capital (tendo recebido R$ 1,2 bilhão até o momento) e sofreu um revés recente: o Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF) encerrou seu contrato com o banco na última semana, transferindo os depósitos judiciais para a Caixa Econômica Federal.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, confirmou na última quarta-feira (20) a parlamentares que a situação do BRB é monitorada diariamente e que possíveis punições independem do novo prazo estipulado pela instituição financeira.

CPI no Congresso deve ser travada
No âmbito legislativo, a pressão para investigar o caso deve ser neutralizada nesta quinta-feira (21). O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), deve ignorar, mais uma vez, os pedidos para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista sobre o Banco Master, durante sessão do Congresso.

Apesar de base governista e oposição possuírem assinaturas suficientes e prometerem cobrar a abertura da comissão em plenário, os bastidores revelam desinteresse de ambos os lados. O governo teme perder o controle das narrativas, enquanto a oposição bolsonarista recua diante da exposição dos áudios em que Flávio Bolsonaro pede recursos financeiros a Vorcaro. Alcolumbre, padrinho político de um investigado por aportes suspeitos de R$ 400 milhões no Master (Jocildo Silva Lemos), deverá assumir o ônus de não pautar a comissão.

O estopim e a guerra digital
O Banco Master, rebatizado em 2021 após Vorcaro assumir o controle do antigo Banco Máxima, sofreu liquidação pelo Banco Central em novembro de 2025 devido a uma “grave crise de liquidez” e graves violações regulatórias. Como reação às medidas legais, investigadores e o próprio BC vêm sendo alvos de ataques coordenados nas redes sociais. A apuração detectou pelo menos 46 perfis empenhados em disseminar informações enviesadas e criticar a liquidação do banco e o andamento das investigações legais.

0
0
Atualizado: 21/05/2026 09:44

Se você observou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, nos avise. Clique no botão ALGO ERRADO, vamos corrigi-la o mais breve possível. A equipe do EmDiaES agradece sua interação.

Comunicar erro

* Não é necessário adicionar o link da matéria, será enviado automaticamente.

A equipe do site EmDiaES agradece sua interação.