A advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra foi presa na manhã desta quinta-feira (21), em sua residência localizada em um condomínio de luxo em Barueri, na região metropolitana de São Paulo. A detenção integra a Operação Vérnix, deflagrada em conjunto pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e pela Polícia Civil, cujo objetivo é desarticular um esquema de lavagem de dinheiro associado à cúpula da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
Operação Vérnix e os Investigados
A Operação Vérnix é resultado de anos de investigação e cumpre seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão. A ação conta com o auxílio da Polícia Federal e do Ministério Público para buscas internacionais, com desdobramentos na Itália, Espanha e Bolívia. Deolane Bezerra, que passou as últimas semanas em Roma, na Itália, chegou a figurar na lista da Difusão Vermelha da Interpol, mas retornou ao Brasil na última quarta-feira (20).
Além da influenciadora, a operação tem como alvos diretos a cúpula do PCC e seus familiares. Entre os nomes citados pelas autoridades estão:
- Marcos Willians Herbas Camacho (Marcola): Apontado como chefe da facção, atualmente detido na Penitenciária Federal de Brasília.
- Alejandro Camacho: Irmão de Marcola, também preso em Brasília.
- Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho: Sobrinho de Marcola, apontado como destinatário do dinheiro lavado, que estaria na Bolívia.
- Paloma Sanches Herbas Camacho: Sobrinha de Marcola, localizada em Madri, na Espanha.
- Everton de Souza (vulgo Player): Preso na operação, é indicado como o operador financeiro da organização.
- Ciro Cesar Lemos: Homem de confiança da facção e suposto operador central do esquema. Encontra-se foragido junto com a esposa.
- Giliard Vidal dos Santos: Influenciador digital e filho de criação de Deolane, alvo de mandado de busca e apreensão.
Números e bloqueios financeiros
A Justiça de São Paulo determinou medidas severas de restrição de patrimônio para descapitalizar o grupo criminoso, que apresentava alto nível de sofisticação e risco de ocultação de bens. O detalhamento das apreensões e retenções inclui:
- Bloqueios financeiros gerais: As ordens judiciais ultrapassam a marca de R$ 357,5 milhões em recursos retidos das contas dos investigados.
- Bloqueios contra Deolane Bezerra: Especificamente em nome da influenciadora, a Justiça determinou o confisco de R$ 27 milhões. Segundo os investigadores, esse montante diz respeito a valores cuja origem lícita não foi comprovada, apresentando fortes indicativos de lavagem de dinheiro.
- Apreensão e bloqueio de veículos: A operação resultou na apreensão direta de 17 carros de luxo, além da determinação de bloqueio de outros 39 veículos pertencentes aos suspeitos, frota avaliada em mais de R$ 8 milhões.
- Imóveis: Os agentes também cumpriram a apreensão de quatro imóveis ligados aos alvos da apuração policial.
Histórico da investigação
A apuração que culminou na prisão de Deolane e dos demais alvos começou há sete anos e foi dividida em fases, conforme a identificação de novas camadas da estrutura criminosa. A lavagem de capitais ocorria primordialmente por meio de uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau (SP), controlada pela cúpula da facção.
Cronologia da investigação:
- 2019 (Apreensão Inicial): A Polícia Penal apreendeu bilhetes com dois detentos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. Os manuscritos continham ordens da facção e citavam uma “mulher da transportadora”.
- 2021 (Operação Lado a Lado): A investigação identificou a empresa Lado a Lado Transportes (ou Lopes Lemos Transportes) como uma empresa de fachada utilizada como braço financeiro do grupo. Houve a apreensão do celular de Ciro Cesar Lemos, onde foram encontradas imagens de depósitos favorecendo Everton de Souza e Deolane Bezerra.
- 2026 (Operação Vérnix): Fase atual, que expôs um esquema amplo de utilização de pessoas jurídicas, contas fantasmas e recebimentos sem origem declarada para dar aparente legalidade ao dinheiro oriundo do tráfico e outras atividades ilícitas.
Envolvimento de Deolane Bezerra
De acordo com o cruzamento de provas e relatórios financeiros, o Ministério Público identificou a influenciadora como recebedora direta de recursos provenientes do caixa do PCC.
Entre os anos de 2018 e 2021, Deolane recebeu em sua conta física R$ 1.067.505,00 através de depósitos fracionados, sempre em valores abaixo de R$ 10 mil. A prática, conhecida no meio investigativo como smurfing, tem o objetivo de burlar os sistemas de controle do sistema financeiro. As mensagens interceptadas mostram Everton de Souza (Player) orientando os “fechamentos” mensais e indicando as contas de Deolane para o destino dos valores.
Além da conta física, a investigação rastreou quase 50 depósitos efetuados a duas empresas de Deolane, totalizando R$ 716 mil. O remetente era uma empresa que se apresentava como um banco de crédito, cujo responsável legal é um morador da Bahia com renda mensal de aproximadamente um salário mínimo. As autoridades ressaltam que não foram identificados pagamentos de créditos ou prestações de serviços advocatícios que justificassem as transações milionárias.
Segunda prisão da influenciadora
Esta não é a primeira vez que Deolane Bezerra enfrenta a Justiça por acusações financeiras. Em setembro de 2024, a advogada foi detida no Recife (PE) durante a Operação Integration, conduzida pela Polícia Civil de Pernambuco.
Naquela ocasião, o inquérito apontava para uma organização criminosa suspeita de movimentar cerca de R$ 3 bilhões em um esquema de ocultação de patrimônio ligado a jogos de azar ilegais. Após ser inicialmente levada à Colônia Penal Feminina do Recife, Deolane obteve prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica. No entanto, o benefício foi revogado dias depois por descumprimento de medidas cautelares, resultando em sua transferência para a Colônia Penal Feminina de Buíque, no Agreste pernambucano, antes de responder ao processo em liberdade.


















