O advogado-geral da União, Jorge Messias, retorna de férias nesta segunda-feira (4) com agenda pública indefinida, aguardando um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para decidir sua permanência no governo. A volta ocorre na esteira da rejeição de sua indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado, por 42 votos a 34, no último dia 29 de abril.
O cenário atual é marcado pela incerteza quanto ao cargo de Messias e por um clima de “caça às bruxas” no Executivo e no Legislativo para apontar os responsáveis pelo fracasso na aprovação do nome.
De acordo com a CNN Brasil, Messias esteve de licença entre os dias 8 e 30 de abril para se preparar para a sabatina. Logo após a derrota no plenário, o ministro manifestou a Lula a intenção de deixar a Advocacia-Geral da União (AGU). Em reunião no Palácio da Alvorada, o presidente pediu que Messias evitasse decisões precipitadas e tirasse dias de descanso. A expectativa é que um encontro definitivo ocorra ainda nesta semana. Auxiliares do Palácio do Planalto avaliam que ele pode atender a um eventual apelo de Lula para permanecer na AGU, reforçando a confiança política pós-derrota. Outra alternativa estudada pelo governo é a transferência de Messias para o comando do Ministério da Justiça e Segurança Pública, movimento que funcionaria como uma compensação política para reduzir o desgaste do ministro.
No último sábado (2), Messias se manifestou pelas redes sociais. O ministro publicou uma imagem gerada por inteligência artificial (IA), baseada em uma foto de sua sabatina onde segurava a Constituição, acompanhada de uma reflexão sobre o episódio. “Quando a coragem fala mais alto que o aplauso, é aí que começa a verdadeira história. Firme nos princípios, guiado pelo propósito. O que fazemos hoje ecoa no amanhã”, escreveu, completando que “é preciso coragem para defender princípios quando eles não são populares”.
Quando a coragem fala mais alto que o aplauso, é aí que começa a verdadeira história.
Firme nos princípios, guiado pelo propósito.
O que fazemos hoje ecoa no amanhã. pic.twitter.com/gASg0Y8CCY— Jorge Messias (@jorgemessiasagu) May 2, 2026
O peso dos erros estratégicos e a relação com o Senado
Enquanto o futuro na AGU é debatido, a condução da campanha de Messias ao Supremo é alvo de escrutínio. Reportagem do jornal O Globo revela que, embora os governistas atribuam a derrota à forte articulação da oposição liderada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), aliados de Lula reconhecem falhas cometidas pelo próprio indicado durante o processo.
Segundo O Globo, integrantes do governo apontam que Messias errou ao insistir no envio da mensagem presidencial ao Congresso sem a garantia de um cenário favorável. Outro ponto crítico foi a confiança excessiva no apoio da bancada evangélica e na articulação capitaneada pelo ministro do STF André Mendonça.A proximidade de Messias com Mendonça foi classificada como um equívoco estratégico. Mendonça é o relator do caso do Banco Master e de investigações de fraudes no INSS que podem atingir parlamentares, gerando apreensão no Legislativo. Além disso, a aliança poderia desequilibrar as forças dentro do próprio STF, desagradando ministros como Alexandre de Moraes, que, segundo a publicação, teria atuado pela derrota de Messias devido à sua proximidade com Alcolumbre.
Aliados também citaram outras duas falhas: declarações de Messias em apoio ao código de conduta defendido pelo presidente do STF, Edson Fachin (tema que divide a Corte), e a participação do advogado-geral em um jantar na casa do senador Lucas Barreto (PSD-AP). Por Barreto ser adversário político de Alcolumbre no Amapá, o gesto foi interpretado como uma afronta direta ao presidente do Senado.
Fragilidade na articulação governista e busca por culpados
A derrota histórica expôs fraturas na base aliada. De acordo com O Globo, interlocutores do Planalto culpam uma conjunção de fatores: o avanço de investigações no STF, a insatisfação de parlamentares com o governo, a força de Alcolumbre e o avanço da candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência da Casa. Por outro lado, senadores acusam o presidente Lula e a Secretaria de Relações Institucionais (SRI) de omissão no processo de convencimento e na pacificação da relação com o comando do Senado.
Ministros ouvidos por O Globo saíram em defesa de Messias, minimizando seus erros e afirmando que o Executivo o deixou desamparado. Segundo esses relatos, faltou comando unificado, o que obrigou o próprio candidato ao STF a buscar votos individualmente junto aos senadores. “A vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã”, resumiu um político próximo ao advogado-geral, indicando que Messias fez o que estava ao seu alcance dadas as circunstâncias.
A tentativa do governo de responsabilizar partidos como MDB, PSD e PP por supostas traições na votação secreta gerou efeito rebote. Lideranças do centro rejeitaram o papel de “bode expiatório” e passaram a cobrar autocrítica do Planalto. Como resposta às desconfianças, os senadores emedebistas Eduardo Braga (AM) e Renan Calheiros (AL) vieram a público para classificar as acusações de traição de sua bancada como infundadas. O advogado-geral da União, procurado pela reportagem de O Globo para comentar as críticas à sua estratégia, não se manifestou.


















