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Negros são 61% da população do ES, mas ganham menos e são minoria na política

20 nov 2025 - 10:45

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Levantamento do Instituto Jones revela abismo salarial e falta de representatividade nos cargos de poder no estado. TJES faz mutirão para julgar 326 processos de racismo e injúria racial
Negros representam 61,9% da população do ES, mas ocupam minoria dos cargos de poder e têm menor renda. Foto: pocstock

Embora representem a maioria da população do Espírito Santo, somando 61,9% dos habitantes, pretos e pardos ainda enfrentam um cenário de severa disparidade em relação à renda, ocupação de espaços políticos e acesso à justiça. Dados divulgados nesta terça-feira (18) pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), no especial Dia da Consciência Negra, cruzados com estatísticas eleitorais e do mercado de trabalho, revelam que a desigualdade racial persiste como um desafio estrutural no estado.

O material produzido pela Coordenação de Estudos Sociais do IJSN, em consonância com o feriado nacional da Consciência Negra celebrado em 20 de novembro, aponta que, apesar de avanços pontuais, a população negra continua sendo a principal vítima da letalidade e da pobreza no território capixaba.

Abismo salarial e informalidade
A desigualdade econômica é um dos pontos mais críticos levantados pelos dados. Mesmo quando possuem ensino superior completo, negros ganham, em média, de 26% a 30% menos que não negros no Brasil. No Espírito Santo, o recorte de rendimento médio revela uma distância significativa, especialmente quando se observa a questão de gênero.

Enquanto um homem não negro no estado tem um rendimento médio de R$ 4.320, uma mulher negra recebe apenas R$ 2.185, menos da metade.

Comparativo de rendimento médio no Espírito Santo:

Grupo Rendimento Médio (R$) Diferença em relação a Homens Não Negros
Homens Não Negros R$ 4.320
Homens Negros R$ 3.142 -27%
Mulheres Não Negras R$ 2.577 -40%
Mulheres Negras R$ 2.185 -49%

Além dos salários mais baixos, a informalidade atinge de forma mais aguda esse grupo. Na região Sudeste, 38% das mulheres negras e 40% dos homens negros trabalham sem carteira assinada ou contribuição previdenciária, ficando desprotegidos de direitos trabalhistas básicos.

Segundo o IJSN, as taxas de pobreza e extrema pobreza são consistentemente maiores entre pessoas negras. O Espírito Santo, contudo, apresenta índices melhores que a média nacional: enquanto 29,3% dos negros no Brasil estão na pobreza, no estado esse índice é de 22,9%. Na extrema pobreza, o estado registra 2,01%, contra 4,45% da média nacional.

Representatividade política quase nula
Apesar de formarem a maioria demográfica, com 1,9 milhão de pardos e 430 mil pretos, segundo o Censo 2022, a presença negra nos espaços de decisão política do Espírito Santo é mínima.

Nas eleições municipais de 2024, dos 78 prefeitos eleitos no estado, apenas um se autodeclarou preto: João Trancoso, em Vila Pavão. Outros 23 prefeitos eleitos se autodeclararam pardos.

No Executivo Estadual, o cenário é similar. Entre os 26 secretários de Estado, apenas quatro são negros ou pardos:
. Jocarly Aguiar Junior (Casa Militar);
. Jacqueline Moraes (Políticas para as Mulheres);
. Carlos Nunes (Esportes);
. Leonardo Damasceno (Segurança).

No Legislativo, a Assembleia Legislativa conta com Camila Valadão como a única deputada estadual autodeclarada preta na atual legislatura, ao lado de nove deputados pardos.

Judiciário: Avanços lentos e mutirão de processos
O Poder Judiciário capixaba reflete a mesma lentidão na inclusão. O primeiro desembargador negro, Willian Silva, foi eleito para a magistratura apenas em 2011. Atualmente, compõem o pleno do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) os desembargadores negros ou pardos Jorge Henrique Valle dos Santos, Eder Pontes da Silva e Fábio Brasil Nery.

No Ministério Público do Espírito Santo (MPES), o perfil étnico-racial aponta para a inexistência de membros negros, enquanto no Ministério Público de Contas, Luis Henrique Anastácio da Silva é o único procurador negro entre três.

Por outro lado, a Ordem dos Advogados do Brasil no Espírito Santo (OAB-ES) elegeu em 2024 uma mulher preta como presidente, Erica Neves, que venceu a disputa contra três candidatos homens brancos.

Mutirão contra o racismo
Neste mês de novembro, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) orientou prioridade absoluta no julgamento de casos ligados a crimes raciais. No Espírito Santo, há 326 processos de racismo e injúria racial pendentes. A meta é movimentar ou julgar pelo menos 20% dessas ações.

Um mapeamento do CNJ indica que as mulheres são as principais vítimas, figurando em 56,4% das ações. Confira:

Afonso Cláudio – 4
Água Doce do Norte – 1
Águia Branca – 1
Alegre – 4
Alto Rio Novo – 2
Anchieta – 6
Aracruz – 10
Baixo Guandu – 2
Barra de São Francisco – 3
Cachoeiro de Itapemirim – 31
Cariacica – 22
Castelo – 6
Colatina – 9
Conceição do Castelo – 4
Domingos Martins – 5
Fundão – 1
Guaçuí – 7
Guarapari – 16
Ibatiba – 4
Itaguaçu – 1
Itapemirim – 2
Itarana – 2
Iúna – 1
Jaguaré – 3
João Neiva – 1
Linhares – 14
Mantenópolis – 4
Marataízes – 5
Mimoso do Sul – 5
Montanha – 3
Mucurici – 1
Muniz Freire – 4
Muqui – 2
Nova Venécia – 6
Pancas – 2
Pinheiros – 1
Piúma – 5
Presidente Kennedy – 1
Rio Novo do Sul – 1
Santa Maria de Jetibá – 5
Santa Teresa – 1
São Gabriel da Palha – 7
São José do Calçado – 2
São Mateus – 19
Serra – 20
Vargem Alta – 3
Venda Nova do Imigrante – 7
Viana – 4
Vila Velha – 21
Vitória – 35

Educação e condições de vida
O estudo do IJSN também destaca que o acesso a direitos básicos permanece desigual. Proporcionalmente, mais pessoas negras vivem sem água canalizada, coleta de lixo regular e esgoto no estado.

Na educação, a taxa de analfabetismo é mais alta entre pretos e pardos, e o acesso ao ensino superior, embora tenha crescido, ainda é inferior ao da população branca. A publicação ressalta que a população negra continua sendo a principal vítima de violência letal no estado.

O “IJSN Especial Dia da Consciência Negra” traz ainda homenagens a personalidades que marcaram a história, como Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo e Cleber Maciel. O instituto disponibilizou também o Boletim da Consciência Negra 2025, que sintetiza esses indicadores para apoiar a formulação de políticas públicas.

As publicações completas podem ser acessadas diretamente no site do IJSN:

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Atualizado: 21/11/2025 22:27

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