O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) reuniu-se no final da tarde desta terça-feira (21), em Brasília, com a encarregada de negócios interina da Embaixada dos Estados Unidos, Kimberly Kelly, para pedir esclarecimentos oficiais sobre a ordem de saída do delegado da Polícia Federal (PF) Marcelo Ivo de Carvalho do território norte-americano.
A determinação do governo de Donald Trump, anunciada na segunda-feira (20) e divulgada inicialmente pelo Blog do Caio Junqueira, da CNN Brasil, acusa o policial brasileiro de tentar contornar o sistema de imigração para promover perseguição política durante sua atuação no caso que resultou na detenção de Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), na Flórida.
Reunião diplomática e possibilidade de retaliação
O encontro no Itamaraty durou cerca de uma hora e ocorreu entre Kimberly Kelly e Christiano Figueiroa, atual diretor do Departamento de América do Norte do Ministério das Relações Exteriores. Conforme relatos obtidos pela GloboNews, a reunião serviu para o governo brasileiro cobrar esclarecimentos formais. A embaixada dos Estados Unidos confirmou a presença da encarregada, mas limitou-se a informar que não comenta “conversas diplomáticas privadas”.
Segundo fontes do governo ouvidas pela CNN Brasil, o Itamaraty alertou a representante americana de que a expulsão de agentes dos Estados Unidos que atuam no território brasileiro já está sendo avaliada. A decisão definitiva, no entanto, deve ocorrer apenas na quarta-feira (22), após o retorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de sua viagem à Europa.
O presidente em exercício, Geraldo Alckmin, reforçou a posição do governo, mas pediu cautela. “O Brasil sempre tem a lógica da reciprocidade, mas acho que a gente deve que aguardar”, afirmou a jornalistas. Mais cedo, na Alemanha, o presidente Lula foi categórico: “Se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o dele no Brasil. Não tem conversa”, afirmou o mandatário antes de embarcar para Lisboa.
Caso Ramagem e a justificativa dos Estados Unidos
A crise diplomática teve início após o Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo americano publicar uma mensagem nas redes sociais exigindo a saída do delegado brasileiro. Sem citar nomes no comunicado oficial, o órgão declarou: “Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro em questão deixe o país por tentar fazer isso”.
A medida está ligada à detenção do ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem, pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE) no dia 13 de abril, em Orlando, na Flórida. Ramagem foi preso por questões migratórias e levado a um centro de detenção, sendo solto dois dias depois. Após a liberação, ele publicou um vídeo agradecendo à cúpula do governo Trump e afirmou que sua soltura foi administrativa, sem procedimento judicial ou pagamento de fiança.
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, rechaçou as acusações norte-americanas. “Essa notícia não tem fundamento. Estamos aguardando esclarecimentos das autoridades americanas”, disse o chanceler na Alemanha. Vieira ressaltou que a presença de delegados da PF nos EUA, assim como de agentes americanos no Brasil, é regida por um memorando de entendimento para garantir a cooperação policial e que o trabalho em conjunto era de conhecimento de todos.
Substituição na Polícia Federal já estava em andamento
Marcelo Ivo de Carvalho atuava em Miami em uma missão junto ao ICE desde março de 2023, com foco na identificação e prisão de foragidos da Justiça brasileira. Sua permanência havia sido prorrogada por meio de portaria em março de 2025, com previsão de término para agosto deste ano.
Apesar do incidente, a Polícia Federal já havia nomeado uma substituta para o cargo antes da declaração do governo norte-americano. A nomeação da delegada Tatiana Alves Torres para a função de oficial de ligação junto ao ICE foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) no dia 17 de março.
Delegada desde 2002, Tatiana Alves Torres possui formação em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pós-graduação em Ciências Penais e Segurança Pública. Com experiência nas áreas de crimes ambientais, financeiros, crime organizado e migração, ela ocupava o cargo de delegada de classe especial e coordenadora-geral de Gestão de Processos da PF. Em 2023, foi superintendente da corporação em Minas Gerais e possui formações internacionais pela Interpol, em Lyon (2008), e pela National Defense University, em Washington (2022).


















