O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), e o advogado-geral da União, Jorge Messias, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Supremo Tribunal Federal (STF), protagonizaram um encontro não planejado na última semana em Brasília, cujo vazamento elevou a tensão entre os dois. Às vésperas da sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, marcada para esta quarta-feira (29), Alcolumbre mantém a recusa em declarar apoio público ao nome, motivando o Palácio do Planalto a intensificar suas articulações no Congresso para tentar assegurar os 41 votos mínimos exigidos no plenário.
O encontro casual e a irritação no Senado
A reunião ocorreu na residência do ministro do STF Cristiano Zanin. Conforme revelou a colunista Mônica Bergamo da Folha de S. Paulo, Alcolumbre havia sido chamado para uma agenda informal entre familiares e amigos. Posteriormente, Jorge Messias chegou ao local, que também contava com a presença do ministro Alexandre de Moraes e do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG).
Durante o encontro, Messias abordou o presidente do Senado para pedir apoio à sua aprovação. Alcolumbre, no entanto, ignorou o apelo e limitou-se a garantir que conduzirá o processo com tranquilidade e respeito ao rito constitucional, deixando o local logo em seguida após o clima de desconforto. Oficialmente, a assessoria do senador nega que a reunião tenha acontecido.
Segundo a coluna Painel, também da Folha a publicidade do fato irritou Alcolumbre, que interpretou o vazamento como uma tentativa de constrangê-lo diante da sua recusa prévia em receber o indicado de forma oficial. Interlocutores do parlamentar avaliaram que a divulgação da conversa “não caiu bem”, reduzindo ainda mais as chances de um apoio institucional nas horas finais do processo.
O atrito original entre os dois políticos remonta à escolha do Executivo. Alcolumbre defendia a indicação do senador Rodrigo Pacheco para o STF, um nome endossado por outros senadores e magistrados. O presidente Lula chegou a discutir essa possibilidade, mas optou por Messias e tornou a decisão pública sem aviso prévio ao presidente da Casa, que se sentiu ignorado. Em resposta, Messias classificou o cenário como uma situação de “desencontros” e indicou compreender o descontentamento do parlamentar.
Articulação do governo e readequação de ministérios
O silêncio do presidente do Senado preocupa senadores de centro, que avaliam ser necessária uma sinalização direta de Alcolumbre para influenciar o plenário. Em contrapartida, o governo federal tem atuado para não depender exclusivamente dessa variável. O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), solicitou novamente a Alcolumbre um encontro formal com Messias para destravar resistências.
Para garantir a margem de segurança no plenário, onde o voto é secreto, o Executivo convocou o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias (PT), para reassumir temporariamente seu mandato no Senado. De acordo com a Folha, Dias justificou o retorno pela relação de amizade que mantém com Messias e com a família do indicado, originária do Piauí. Embora a suplente de Dias, Jussara Lima (PSD), já integre a base governista, a presença de ministros no plenário atua como um reforço na articulação. Aliados de Messias contabilizam no momento entre 43 e 45 votos favoráveis.
Apoio evangélico fora do Congresso
Paralelamente às negociações políticas, a indicação de Messias encontra respaldo no setor religioso. Segundo reportagem da Folha, líderes de grandes denominações evangélicas defendem a nomeação, contrastando com a resistência de parlamentares evangélicos no Congresso, a exemplo dos deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Marco Feliciano (PL-SP).
Lideranças sem mandato, como o apóstolo Estevam Hernandes (Igreja Renascer em Cristo), o apóstolo César Augusto (Igreja Fonte da Vida) e o bispo Robson Rodovalho (Sara Nossa Terra), afirmam que é positivo ter um segundo representante do segmento no Supremo, o outro é o ministro André Mendonça. Eles ressaltam a trajetória cristã de Messias, ainda que ponderem as divergências ideológicas.
Até mesmo o pastor Silas Malafaia (ADVEC), alinhado à oposição política, pontuou que não se opõe à indicação de forma institucional. Embora tenha adjetivado o indicado como “esquerdopata gospel”, Malafaia ressaltou à Folha que a nomeação é uma prerrogativa legítima do presidente da República, assim como o ex-presidente Jair Bolsonaro teve o direito de indicar nomes de sua preferência.
Histórico de rejeições na sabatina
A sabatina na CCJ agendada para esta quarta-feira colocará à prova os esforços do Palácio do Planalto. O escrutínio ocorrerá à sombra do histórico recente de aprovações para o Supremo. O atual ministro Flávio Dino lidera o índice de rejeição na comissão nas últimas duas décadas, tendo recebido 10 votos contrários em 2023.
Dino superou a marca de André Mendonça, que teve 9 votos contrários em 2021. Na sequência, aparecem Alexandre de Moraes e Edson Fachin, ambos com 7 votos de resistência. No extremo oposto do histórico, os ministros Luiz Fux e Cármen Lúcia foram aprovados por unanimidade no colegiado (23 votos a zero) nos anos de 2011 e 2006, respectivamente.


















