Em meio à pior crise de imagem de sua história recente e com uma cadeira vaga há sete meses, o Supremo Tribunal Federal (STF) tornou-se alvo de demandas demográficas e políticas por parte da população brasileira. Uma pesquisa do Instituto Datafolha, realizada nos dias 12 e 13 de maio em 139 municípios do país, revelou que a maioria dos cidadãos considera prioritária a indicação de mulheres, negros e de pessoas com lealdade ao presidente da República para compor a corte.
Paralelamente, o levantamento demonstrou que a inédita derrota do governo Lula (PT) com a rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, pelo Senado Federal, passou completamente despercebida por quase seis em cada dez brasileiros.
Os dados, registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-00290/2026, possuem margem de erro de dois pontos percentuais e expõem um retrato paradoxal das expectativas nacionais em relação à mais alta instância do Judiciário brasileiro.
O perfil desejado
Atualmente operando com dez magistrados desde a aposentadoria antecipada de Luís Roberto Barroso em outubro de 2025, o STF conta com apenas uma mulher (Cármen Lúcia) e dois ministros que se declaram pardos (Kassio Nunes Marques e Flávio Dino) em sua composição. Diante desse cenário, a população demonstrou forte preferência por maior diversidade:
- Mulheres: 51% consideram “muito importante” a escolha de uma mulher, e 18%, “um pouco importante”. Outros 27% afirmam não ser nada importante.
- Pessoas negras: 46% avaliam como “muito importante” e 16% como “um pouco importante” a indicação de uma pessoa negra. Para 34%, a condição não tem relevância.
- Religiosidade: 46% dos brasileiros julgam “muito importante” que a pessoa escolhida seja religiosa (característica associada a Jorge Messias, que é evangélico).
A pesquisa também revelou contradições nas expectativas sobre o comportamento dos futuros ministros. Embora a Constituição exija “notável saber jurídico”, critério classificado como muito importante por 85% dos entrevistados, a visão política sobre a corte é ambígua. Enquanto 64% dizem esperar que os ministros sejam independentes de políticos e partidos, 51% consideram muito importante que o indicado tenha “lealdade total” ao presidente da República que o nomeou. Além disso, 47% veem como muito importante a afinidade política do magistrado com deputados e senadores.
A lealdade ao Executivo divide opiniões de acordo com a preferência eleitoral: o critério é visto como muito importante por 63% dos eleitores de Lula, contrastando com 45% entre os que preferem o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Desconhecimento sobre a derrota histórica no Senado
A vaga deixada por Barroso segue aberta após um evento que não ocorria desde 1894, no governo de Floriano Peixoto: a rejeição de um indicado ao STF. No dia 29 de abril, Jorge Messias obteve apenas 34 votos favoráveis, sendo barrado por 42 senadores (eram necessários 41 para a aprovação).
Apesar do peso institucional, o Datafolha aponta que 59% da população não ficou sabendo do episódio. O desconhecimento atinge 61% entre os eleitores de Lula, 50% entre os de Flávio Bolsonaro e 72% entre aqueles que pretendem anular ou votar em branco.
Entre os 41% que tomaram conhecimento do fato:
- 53% afirmam que a rejeição deixou o governo mais fraco.
- 36% consideram que não houve interferência na força da gestão.
- 7% dizem que o governo ficou mais forte.
A derrota foi patrocinada, em grande parte, pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que tinha o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) como favorito, aliado à influência de alas ligadas ao bolsonarismo e parte do próprio STF. Durante a sabatina, o senador Sergio Moro (PL-PR) defendeu que a vaga fosse preenchida apenas pelo vencedor das eleições presidenciais deste ano, discurso rebatido pelo senador Rogério Carvalho (PT-SE) como uma tentativa de esvaziamento dos poderes presidenciais.
Mesmo com a barreira regimental do Senado, que impede uma nova indicação do mesmo nome no mesmo ano sob risco de deixar a corte desfalcada até 2027, o presidente Lula sinalizou a aliados a intenção de reenviar o nome de Messias.
Crise de aprovação e racha interno
A disputa pela 11ª cadeira ocorre enquanto o Supremo Tribunal Federal atinge seu pior nível de aprovação, equiparando-se aos índices de dezembro de 2019 e dezembro de 2023. Segundo o Datafolha, 40% dos brasileiros avaliam o trabalho dos ministros como ruim ou péssimo, 34% como regular e apenas 22% o consideram ótimo ou bom.
A reprovação é acentuada nos recortes demográficos de maior renda (63% de rejeição entre os que ganham mais de dez salários mínimos), maior escolaridade (48% entre os que possuem ensino superior) e entre homens (45%, contra 36% das mulheres).
O desgaste atual é impulsionado pelo chamado “caso Master”, que expôs revelações envolvendo os ministros Dias Toffoli, que deixou a relatoria de um inquérito após a Polícia Federal apontar negócios entre fundos ligados ao Banco Master e uma empresa de sua família, e Alexandre de Moraes, após o vazamento de mensagens com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e contratos milionários envolvendo o escritório de sua esposa.
A situação agravou uma divisão interna na corte. De um lado, alinham-se Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin; do outro, o presidente do STF, Edson Fachin, e Cármen Lúcia. O grupo liderado por Moraes cobra de Fachin uma defesa institucional mais forte e pautas de repercussão, enquanto o presidente defende a criação de um código de conduta para mitigar a crise de imagem.
Politicamente, a avaliação do tribunal segue polarizada. A corte, que condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, possui 50% de avaliação positiva entre os que aprovam a gestão Lula, contra 64% de avaliação negativa entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, que tem como promessa de campanha a ampliação da bancada no Senado visando o impeachment de ministros.


















