política

Lula prepara nova indicação ao STF sob ameaça de boicote do Senado até as eleições

30 abr 2026 - 10:35

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Derrota histórica de Jorge Messias expõe aliança de bastidores entre Alcolumbre, oposição e Alexandre de Moraes. Planalto avalia demissões e retaliações para conter crise institucional
Lula prepara nova indicação ao STF sob ameaça de boicote do Senado até as eleições. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já traça os próximos passos institucionais e políticos após o Senado Federal rejeitar a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF). O revés histórico, consolidado na noite de quarta-feira (29) por 42 votos contrários e 34 favoráveis, expôs graves falhas na articulação governista e revelou uma complexa aliança de bastidores que uniu o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), a oposição bolsonarista e ministros da própria Corte. Agora, o Planalto divide-se entre a pressa para emplacar um novo nome e o risco de uma segunda derrota em pleno ano eleitoral.

Os bastidores da derrota e a frente contra Messias
A articulação que culminou na primeira rejeição de um indicado ao STF desde 1894 foi construída em múltiplas frentes. Segundo apuração da jornalista Andréia Sadi, da GloboNews, aliados de Lula atribuem o resultado a traições de última hora e ao controle político exercido diretamente por Davi Alcolumbre. Nos bastidores, senadores relataram que gostariam de votar a favor de Messias, mas não foram liberados pelo presidente do Senado.

A ofensiva de Alcolumbre tem raízes na própria escolha do presidente da República. Reportagem da Folha de S. Paulo destaca que a relação entre os dois azedou desde novembro, quando Lula preteriu o nome do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), o favorito de Alcolumbre para a vaga, em favor de Messias. Apesar de prometer neutralidade, Alcolumbre pediu votos contra o indicado do governo.

A essa insatisfação somou-se a articulação da oposição. O grupo liderado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, transformou a votação em um símbolo de enfrentamento ao governo e ao próprio STF, estratégia que se provou bem-sucedida a poucos meses das eleições presidenciais.

O peso do STF e o caso Banco Master
A rejeição no Legislativo contou ainda com a interferência direta do Judiciário. De acordo com os jornalistas Malu Gaspar e Rafael Moraes Moura, d’O Globo, o ministro Alexandre de Moraes operou nos bastidores pela derrota de Messias. Moraes acionou emissários para enviar recados a senadores com processos no STF, formando uma aliança inusitada com a tropa de choque bolsonarista.

A motivação de Moraes, segundo a apuração, envolve a correlação de forças interna do Supremo. Messias contava com o apoio ostensivo do ministro André Mendonça, de quem é próximo pela afinidade religiosa (ambos são evangélicos). Moraes via a nomeação de Messias como um fortalecimento de Mendonça, que é o relator do caso Banco Master, investigação que envolve uma delação premiada com potenciais implicações para a esposa de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes. Após o resultado, Mendonça lamentou publicamente: “O Brasil perde a oportunidade de ter um grande ministro do Supremo”.

Reação do Planalto e mapeamento de traições
Após a sessão, Lula reuniu ministros no Palácio da Alvorada para avaliar o estrago. Segundo as jornalistas Catia Seabra e Mariana Brasil, da Folha de S. Paulo, o governo identificou dissidências graves no MDB e no PSD. Suspeitas recaem sobre o senador Renan Calheiros e o ministro Renan Filho, que teriam votado contra Messias em solidariedade a Bruno Dantas, ministro do TCU que também cobiçava a vaga.

A jornalista Ana Flor, da GloboNews, relatou que aliados admitiram falhas na articulação política comandada por ministros como Jaques Wagner e José Guimarães, que não conseguiram antecipar o placar desfavorável.

O clima agora é de retaliação. A colunista Mônica Bergamo, da Folha, informa que o governo considera a relação com Davi Alcolumbre rompida de forma definitiva. Integrantes do Planalto pressionam Lula para demitir todos os indicados de Alcolumbre na Esplanada, como os ministros Waldez Góes e Frederico Siqueira, e para atuar contra os aliados do senador nas eleições do Amapá.

O impasse da nova indicação
A prerrogativa de indicar um novo nome ao STF tornou-se o centro de um novo cabo de guerra. Segundo o jornalista Valdo Cruz, do g1, senadores da oposição afirmam que Alcolumbre assumiu o compromisso de não pautar nenhuma nova sabatina antes das eleições de outubro. A tática, endossada por Flávio Bolsonaro, visa transferir a escolha para o vencedor do próximo pleito presidencial.

Lula, no entanto, sinalizou a aliados que não abrirá mão de sua prerrogativa e pretende enviar uma nova indicação nas próximas semanas, conforme apurado por Ana Flor. O cenário, porém, divide a base. A coluna Painel, da Folha, revela que uma ala governista teme uma nova humilhação e sugere deixar a cadeira vaga temporariamente. Outro grupo defende o envio de um nome “irrecusável”, ventilando a possibilidade de indicar uma mulher negra, ideia que enfrenta resistências internas por soar como uma admissão de erro tardia.

Novo revés à vista no Congresso
A crise política do governo no Legislativo pode ganhar um novo capítulo imediato. A jornalista Sara Curcino destaca que o Congresso Nacional analisa nesta quinta-feira (30) o veto de Lula ao “PL da Dosimetria”. O projeto, aprovado no ano passado, reduz as penas de condenados por crimes contra o Estado Democrático de Direito, beneficiando diretamente os envolvidos nos ataques de 8 de janeiro e o ex-presidente Jair Bolsonaro. A tendência é que a oposição, fortalecida pela vitória no caso STF, consiga os votos necessários (257 deputados e 41 senadores) para derrubar o veto presidencial, impondo mais uma derrota ao Palácio do Planalto.

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Atualizado: 30/04/2026 10:40

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