A Justiça do Espírito Santo aceitou uma representação contra três membros de uma igreja evangélica de Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Estado, acusados de estelionato religioso. O processo investiga a denúncia de um morador local que alega ter sofrido um prejuízo financeiro superior a R$ 46 mil, após ser coagido a realizar pagamentos sob a ameaça de que o “diabo” e forças malignas destruiriam sua vida e a de seus familiares.
A decisão, proferida no último dia 12 pela juíza Elaine Cristine de Carvalho, da 1ª Vara Cível de Cachoeiro de Itapemirim, determinou que os acusados apresentem defesa no prazo de 15 dias, embora tenha negado o pedido liminar para bloqueio de bens dos envolvidos. A ação cita um pastor local, seu filho e um terceiro religioso, identificado como “pastor de fora”.
Coação e constrangimento público
Segundo os autos, a vítima começou a frequentar a igreja durante a pandemia da Covid-19, motivada pelo fechamento temporário dos templos católicos devido às restrições sanitárias. O morador relata que, embora não fosse dizimista fixo, realizava ofertas ocasionais.
O cenário teria mudado em 2025, quando o pastor local passou a exercer forte pressão psicológica. Em duas ocasiões, com o templo lotado, o líder religioso teria ido ao púlpito para insinuar que o fiel estava em “débito” com a instituição há cinco anos. O processo descreve que o pastor chegou a apontar para o homem e descrever suas roupas para que todos o identificassem, ordenando que um obreiro lhe entregasse um envelope de cobrança publicamente.
Apesar do constrangimento, o homem continuou frequentando o local e, posteriormente, depositou uma quantia simbólica e solicitou orações.
A dinâmica do suposto golpe
Após o depósito, o pastor local entrou em contato informando que o pedido de oração havia sido encaminhado a um “pastor de fora”. Este terceiro envolvido telefonou para a vítima, utilizando um número com código de área do Piauí. alegando ter tido uma “visão espiritual” sobre um trabalho de “magia negra” realizado contra o fiel no cemitério do bairro Aeroporto, em Cachoeiro.
O relato assustou a vítima, que marcou um encontro com o pastor da cidade e seu filho em um posto de combustível. Juntos, seguiram para o cemitério indicado. No local, mantendo uma videochamada com o suposto religioso do Piauí, o grupo teria “encontrado” velas, bonecos e fotografias da família da vítima.
De acordo com a denúncia, a cena foi montada para fragilizar emocionalmente o morador e justificar a cobrança de um “voto de confiança com Deus” no valor de R$ 22 mil. A justificativa era que, sem o pagamento, a família do fiel poderia adoecer ou morrer. Diante do terror psicológico, a vítima realizou um Pix imediato de R$ 3 mil e, no dia seguinte, depositou outros R$ 18 mil para a suposta “quebra do trabalho”.
Reincidência e novos rituais
Dois dias após os primeiros pagamentos, o grupo teria investido novamente contra o fiel. O “pastor de fora” alegou ter visualizado um segundo ritual, desta vez em uma propriedade rural. O grupo se reuniu em outro posto de combustível, na região de Vargem Alta, e seguiu para a fazenda indicada.
No local, sob orientação remota, foram encontrados caixões e velas recém-queimadas. Para a vítima, a descoberta forjada serviu para reforçar a manipulação e pressionar por novos repasses financeiros.
Até a publicação desta reportagem, a defesa dos réus não havia sido localizada. O advogado da vítima, procurado na tarde desta quinta-feira (22), optou por não se manifestar sobre o caso.


















