Quase uma década após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), a Samarco planeja anunciar a retomada de 100% de sua capacidade produtiva e um investimento superior a R$ 3 bilhões em seu complexo industrial em Anchieta, no Sul do Espírito Santo.
Segundo informações de Abdo Filho, de A Gazeta, o anúncio oficial está agendado para o dia 4 de dezembro. A decisão final será formalizada em uma reunião do conselho de administração da mineradora no início de novembro. O investimento bilionário será destinado à reforma completa das duas usinas de pelotização mais antigas da companhia. A meta é que a planta industrial esteja operando em sua plena capacidade, de 27 milhões de toneladas anuais, até 2028. Segundo um alto funcionário da Samarco que falou em condição de anonimato, a decisão está “99% certa, falta apenas formalizar”.
A retomada das operações da Samarco, uma joint venture entre a brasileira Vale e a australiana BHP, ocorre de forma gradual. A empresa não opera com sua capacidade máxima desde o desastre ambiental de novembro de 2015. O processo de religamento começou em dezembro de 2020, com a reativação da quarta usina de pelotização, a mais nova do complexo. Em 2024, a terceira usina foi acionada, elevando a capacidade para 60% do total.
Uma década do desastre ambiental
O anúncio do novo ciclo de investimentos acontece em um momento que marca os dez anos da maior tragédia ambiental da história do Brasil. Em 5 de novembro de 2015, o colapso da barragem de Fundão liberou mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério, causando 19 mortes e contaminando a bacia do Rio Doce desde Minas Gerais até sua foz, no Espírito Santo.
Pesquisas científicas recentes continuam a documentar os danos. Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicado na revista Anthropocene no inicio deste ano, comprovou uma redução de até 50% no número de tipos de árvores adultas e de 60% para mudas nas áreas de mata ciliar do Rio Doce atingidas pelo rejeito.
Geraldo Fernandes, pesquisador responsável pelo estudo, explica o impacto duradouro. “Não apenas diminui o número de espécies mas também diminui a capacidade dessa área em resistir às mudanças climáticas e a espécies invasoras. Esse é um problema enorme em todo o funcionamento do bioma, porque muda a estrutura da vegetação”, afirmou. Segundo a pesquisa, o leito do rio tornou-se mais raso, fazendo com que, a cada enchente, os rejeitos depositados se espalhem novamente, “amplificando o impacto”.
A situação é confirmada por moradores das áreas afetadas. “A cada enchente que vem, o rejeito de minério volta e a gente perde toda a recuperação de solo que fizemos”, lamentou o produtor rural Miguelito Teixeira de Sousa, de Conselheiro Pena (MG).
Batalhas judiciais e reparação
Paralelamente à retomada operacional, as empresas responsáveis pela barragem enfrentam processos judiciais no Brasil e no exterior. Em Londres, a BHP é alvo de uma ação movida por cerca de 620 mil demandantes, que buscam uma indenização de 36 bilhões de libras (aproximadamente R$ 267 bilhões).
O líder indígena Marcelo Krenak, que esteve em uma audiência do caso na capital britânica, denuncia a contaminação persistente. “As plantas medicinais que só existiam no rio estão contaminadas, o solo está contaminado, então você não pode plantar, não pode usar a água do rio para os animais ou para as plantas”, declarou.
A BHP, por sua vez, reconhece a “tragédia terrível” e afirma que a recuperação do Rio Doce continua sendo uma prioridade, defendendo que a solução passa por um acordo de reparação firmado no Brasil em outubro de 2024, no valor de R$ 170 bilhões.
Contudo, muitos atingidos consideram o valor insuficiente. O prefeito de Mariana, Juliano Duarte, que também esteve em Londres, expressou sua esperança na Justiça britânica. “A nossa esperança é que aqui em Londres o município seja ouvido porque no Brasil nós não fomos ouvidos”, disse à época, acrescentando que não aceitará “migalhas como foi oferecido no Brasil”.


















