O Brasil alcançou, pela primeira vez na história, o patamar de muito alto desenvolvimento humano em 2024, ao registrar a nota de 0,805 no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). O marco foi revelado nesta terça-feira (26) por meio do relatório Radar IDHM 2024, publicação elaborada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Fundação João Pinheiro. O avanço reflete a evolução nacional nos pilares de acesso à educação, longevidade e geração de renda ao longo de um recorte de 12 anos.
Evolução e recuperação pós-pandemia
A série histórica do levantamento engloba o período de 2012, quando a nota brasileira era de 0,744, a 2024. Após quedas severas em 2020 e 2021, ocasionadas pela pandemia de Covid-19, o país demonstrou forte recuperação nos últimos dois anos. O índice saltou de 0,788 em 2022 para 0,798 em 2023, culminando no rompimento da barreira do desenvolvimento muito alto neste ano.
O IDHM é dividido em três dimensões. A educação foi a área que mais evoluiu, com um crescimento médio anual de 1,35%. A longevidade, por sua vez, recuperou-se da queda de 2021 e atingiu o maior patamar da série histórica em 2024, com nota de 0,86. Já a renda apresentou o menor avanço e a trajetória mais oscilante (de 0,456 em 2012 para 0,508 em 2024), por ter sido impactada tanto pela crise econômica de 2015 quanto pela sanitária.
Redução das desigualdades raciais e de gênero
O levantamento detalha a movimentação demográfica nos últimos 13 anos. O desenvolvimento da população negra obteve um ritmo de crescimento de 10,3% (passando de 0,694 para 0,774), valor quase duas vezes maior que os 5,5% registrados pela população branca (que foi de 0,804 para 0,851). Com isso, a distância entre os dois grupos caiu de 14% para 9%.
Apesar do avanço, a diferença ainda é marcante. Ao se aplicar os recortes de raça e gênero, negras e mulheres saem do topo da lista e figuram na faixa de “alto” desenvolvimento humano (um degrau abaixo do “muito alto”). No recorte específico ajustado à renda do trabalho, o grupo feminino se mantém em desvantagem durante toda a série: os homens evoluíram para 0,802, e as mulheres, para 0,798.
O impacto de políticas públicas
Os resultados sociais são diretamente associados a programas de transferência de renda estruturantes. A coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Pnud Brasil, Betina Barbosa, apontou que políticas iniciadas há cerca de 10 anos apresentam resultados agora, ao completarem ciclos de escolarização.
“É o programa Bolsa Família que retira quantidade enorme de crianças do trabalho e dá a elas a condição da escola e a obrigatoriedade, também, de estar na escola. Então, aqui vejo diretamente o efeito de uma política pública brasileira”, afirmou.
Sobre a área econômica, a especialista aponta que este é o principal desafio do país, pois, ao contrário da educação e da saúde, a renda sofre interferência direta do mercado. “O Brasil precisa amadurecer num pacto que coloque na mesa de negociação o setor público, o setor privado e a sociedade civil, e seja capaz de levar o país a um novo patamar de renda”, ressaltou.
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, utilizou o perfil oficial na rede social X para comentar o índice. “Um resultado que não é coincidência, mas reflexo de escolhas políticas consistentes e coordenadas, com impacto direto nos indicadores de educação, longevidade e renda mapeados pelo IDHM”, afirmou o presidente, completando que as desigualdades regionais e demográficas mostram que o país ainda tem um longo caminho, mas segue na “direção certa”.
Desempenho regional
Todas as unidades da Federação apresentaram crescimento entre 2012 e 2024, com dez estados alcançando a faixa de muito alto desenvolvimento. Os maiores avanços proporcionais do período se concentraram no Nordeste: Alagoas, Piauí e Rio Grande do Norte lideraram o crescimento nacional.
No ranking atual de 2024, o Distrito Federal registra a liderança, com IDHM de 0,866. O top 5 é complementado por São Paulo (0,838), Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Na base da tabela estão Maranhão (0,745) e Alagoas (0,746). O Espírito Santo aparece na décima colocação, com 0,804.
Entre as 21 regiões metropolitanas e integradas avaliadas, todas cresceram, e 17 atingiram o nível “muito alto”. Florianópolis (0,874) e Curitiba (0,856) registraram os melhores números, enquanto Macapá (0,762) e Maceió (0,776) os menores.
A desigualdade oculta nos números
Apesar da comemoração da média recorde de 0,805, o relatório aplica também o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal Ajustado à Desigualdade (IDHMAD). O indicador filtra os dados considerando a concentração interna existente nos quesitos de renda, educação e longevidade.
Sob esta ótica ajustada, a classificação do país cai severamente. Ao invés do status de “muito alto”, o Brasil é reposicionado para a faixa de “médio” desenvolvimento humano em 2024, evidenciando, segundo o próprio Pnud, o quanto o desenvolvimento permanece distante de uma parte significativa da população, não refletida pela média simples do IDHM.


















