O real brasileiro consolidou-se como a moeda com o melhor desempenho global em 2026, acumulando uma valorização de 12,3% frente ao dólar até a última sexta-feira (8). O movimento, sustentado por juros elevados e pelo forte volume de exportações de petróleo, levou a moeda norte-americana a fechar abaixo de R$ 4,90 pela primeira vez em mais de dois anos.
De acordo com um levantamento da Elos Ayta Consultoria, que analisou 28 divisas, o real encabeça a lista de valorização, superando moedas como o shekel de Israel (+10%) e a coroa da Noruega (+9,67%). No sentido oposto, moedas da Turquia, Índia e Indonésia registraram perda de valor perante o dólar no mesmo período. Na última terça-feira, o dólar encerrou as negociações cotado a R$ 4,912, o menor nível em dois anos e três meses, após uma queda diária de 1,12%.
Diferencial de juros e “carry trade”
Analistas apontam que o cenário econômico brasileiro atrai capital estrangeiro devido à manutenção de taxas de juros atrativas. A Selic, atualmente em 14,5% ao ano, permanece significativamente superior aos juros praticados nos Estados Unidos, que variam entre 3,5% e 3,75%.
Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, esse diferencial favorece operações de “carry trade”, nas quais investidores tomam recursos em países com juros baixos para aplicar em economias com taxas maiores. Filipe Sichel, economista-chefe da Porto Asset, reforça que a percepção de juros elevados por mais tempo no Brasil mantém o “carrego” da moeda atraente. Segundo Sichel, a ata mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom) corroborou essa expectativa do mercado financeiro.
Impacto das commodities e do petróleo
O Brasil também se beneficia de sua posição como exportador de commodities em um contexto de tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. A disparada nos preços do petróleo no mercado internacional ampliou a entrada de dólares no país.
“À medida que o preço do petróleo sobe, sustenta os nossos termos de troca, o que ajuda a apreciar a moeda”, afirmou Sichel. O barril do tipo Brent, referência global, encerrou cotado a US$ 110,10, mantendo-se em patamares elevados apesar de oscilações pontuais. Paula Zogbi destaca que, por não estar diretamente envolvido nos conflitos do Oriente Médio, o Brasil torna-se um destino estratégico para investimentos no setor produtivo.
Desempenho da Bolsa e fluxo estrangeiro
O reflexo do fortalecimento da economia também foi observado na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo. O Ibovespa encerrou o último pregão em alta de 0,69%, impulsionado pelo apetite global por ativos de risco. Entre os destaques corporativos, as ações da Ambev registraram avanço superior a 15%.
Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, ressalta que o ambiente favorável a mercados emergentes e um cenário internacional de dólar “comportado” contribuíram para o resultado, mesmo diante de incertezas externas.
Riscos e perspectivas para os próximos meses
Apesar dos indicadores positivos, especialistas alertam para fatores que podem gerar volatilidade no curto prazo. Paula Zogbi aponta que a proximidade do período eleitoral no Brasil deve trazer à tona discussões sobre gastos públicos, o que tende a impactar o câmbio.
Além disso, a especialista observa que a temporada de balanços das empresas brasileiras tem apresentado resultados abaixo das projeções iniciais. “A expectativa era de um crescimento bastante saudável, mas caso isso não se cumpra, pode diminuir ainda mais o fluxo estrangeiro”, finalizou Zogbi, referindo-se ao investimento de pessoas físicas e jurídicas de fora do país em ativos nacionais.


















