O Banco Central (BC) instaurou uma investigação interna sob sigilo para apurar as circunstâncias e eventuais falhas no processo de fiscalização e liquidação do Banco Master. Em meio ao avanço da sindicância, iniciada por determinação do presidente da autarquia, Gabriel Galípolo, no fim do ano passado, dois altos executivos do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) entregaram seus cargos de confiança. O objetivo da apuração é realizar uma radiografia completa do caso, comparada por servidores a uma análise de “queda de avião”, para entender as causas do colapso da instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro.
A abertura da sindicância ocorre após a liquidação extrajudicial do Master, decretada em 18 de novembro de 2025, e a liquidação da gestora Reag DTVM, ocorrida em 15 de janeiro deste ano. Ambas as instituições são investigadas pela Polícia Federal (PF) por suspeitas de fraudes bilionárias e operações irregulares de crédito.
Mudanças no comando da supervisão
Os servidores que deixaram os postos de comando são Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana. Até o momento, não há acusações formais contra eles.
Paulo Souza, servidor de carreira e ex-diretor de Fiscalização, atuava como chefe-adjunto do Desup. Ele foi o responsável por autorizar a compra do antigo Banco Máxima por Daniel Vorcaro, operação que deu origem ao Master. Sua saída foi oficializada no Diário Oficial da União (DOU) desta quinta-feira (29), após pedido para deixar a função comissionada.
Já Belline Santana, que chefiava o Departamento de Supervisão Bancária, também entregou o cargo. Ele chegou a ser cotado para a diretoria de Fiscalização, atualmente ocupada por Aílton de Aquino Santos, e assinou diversos ofícios enviados ao Ministério Público Federal (MPF) sobre o caso. Em um desses documentos, citado pela defesa de Vorcaro, Belline relatou que uma operação suspeita de compra de carteiras fictícias havia sido desfeita e que não haviam sido identificados indícios de irregularidades em transações de crédito consignado.
Procurado, o Banco Central afirmou que “a alternância de nomes em cargos comissionados é uma prática normal no âmbito da administração pública”.
O esquema e a liquidação
O Banco Master ganhou notoriedade no mercado ao oferecer Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas de retorno muito acima da média, chegando a 140% do CDI, enquanto concorrentes operavam com teto de 98%. O modelo de negócios, insustentável a longo prazo, levou a dificuldades de honrar compromissos a partir de 2024.
As investigações da PF e do BC apontam para um complexo esquema de fraudes. Um dos focos é a relação com o Banco de Brasília (BRB). No dia da liquidação do Master, a PF deflagrou operação para apurar irregularidades na venda de carteiras de crédito no valor de R$ 12,2 bilhões ao banco estatal do Distrito Federal.
Em depoimento à Polícia Federal no dia 30 de dezembro de 2025, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, confirmou que o banco comprou carteiras do Master para evitar a quebra da instituição de Vorcaro. Uma anotação na agenda da ex-diretora de Controle e Riscos do BRB, Luana de Andrade Ribeiro, corroborou a tese de que Costa teria determinado a compra para “salvar” o Master. Aos investigadores, Costa alegou que precisava “ganhar tempo” para substituir ativos podres e zelar pelo BRB.
Conexão com a Reag DTVM
Outra frente de investigação envolve a gestora Reag DTVM. O esquema identificado consistia em empréstimos do Master para empresas que, ato contínuo, repassavam os recursos para inflar fundos da Reag. O dinheiro retornava ao Master via aplicações em CDBs, em operações relâmpago.
Um caso citado no inquérito envolve um empréstimo de R$ 459 milhões à Brain Realty Consultoria. O montante circulou por três fundos em questão de horas e foi utilizado para liquidar a aquisição de papéis do Besc pelo fundo FIDC High Tower. Segundo a apuração, esse fundo reavaliou ativos de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, registrando uma rentabilidade exorbitante de 10.502.205% em 2024.
Repercussão política e gestão anterior
A apuração interna do BC também lança luz sobre a atuação da gestão anterior da autoridade monetária. Em entrevista recente, o ex-presidente do BC, Armínio Fraga, afirmou que a autarquia “demorou a agir” e que os sinais de problemas eram visíveis há tempos.
Reportagens recentes indicam que o ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto, teria priorizado uma “solução de mercado” e evitado a liquidação do Master em duas ocasiões durante 2024. O atual Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou que Gabriel Galípolo “herdou um problema constituído na gestão anterior” e que precisou “descascar o abacaxi”.
Posicionamento das defesas
As defesas do Banco Master e da Reag negam irregularidades. Advogados de Daniel Vorcaro afirmam que as carteiras de crédito negociadas com o BRB foram substituídas por outros ativos regularmente registrados e auditados. O BRB, por sua vez, sustenta que aprovou as aquisições dentro de parâmetros técnicos vigentes à época e que colabora com as autoridades.


















