Pessoas LGBTQIAPN+ apresentam índices de bem-estar inferiores à média da população brasileira em áreas como apoio social, liberdade de escolha e satisfação profissional. A constatação integra a pesquisa “O Mapa da Felicidade Real no Brasil 2026”, elaborada pela pesquisadora Renata Rivetti em parceria com o Instituto Ideia, que entrevistou 1.500 pessoas em todas as regiões do país no início deste ano. O levantamento identifica que a exclusão social e a falta de segurança psicológica nos ambientes de trabalho figuram como os principais fatores que influenciam a percepção de qualidade de vida e a felicidade desse público no país.
O peso do ambiente de trabalho
O levantamento destaca a relação direta entre a identidade sexual e a satisfação no ambiente profissional, apontado como um termômetro de inclusão. Segundo os dados, 79% dos heterossexuais declaram que o trabalho contribui para a sua felicidade. Esse percentual apresenta queda acentuada entre os grupos da diversidade, registrando 76% entre homossexuais e 66% entre bissexuais, configurando uma das maiores variações de todo o estudo.
A pesquisadora Renata Rivetti explica que a atividade profissional ocupa uma parte significativa da vida adulta e influencia diretamente a percepção de cidadania dos indivíduos. “Quando existe pertencimento, respeito e segurança psicológica, o impacto vai além da carreira e alcança a saúde emocional, os relacionamentos e a qualidade de vida de forma geral”, afirma.
Para a especialista, as estatísticas impõem uma responsabilidade concreta às lideranças corporativas. “Não estamos falando apenas de benefícios ou satisfação profissional. Estamos falando da possibilidade de pertencer, de ser respeitado e de poder expressar quem se é sem receio. Ambientes psicologicamente seguros favorecem não apenas o bem-estar das pessoas, mas também inovação, engajamento e desempenho”, ressalta Rivetti.
Apoio social e impacto das redes sociais
A pesquisa também mede a percepção de apoio social, evidenciando o impacto da exclusão e da solidão no bem-estar. Enquanto 88% dos heterossexuais afirmam ter familiares ou amigos com quem contar em momentos de dificuldade, a taxa recua para 84,1% entre homossexuais e 82,4% entre bissexuais. O mesmo padrão de queda ocorre na avaliação sobre a liberdade para tomar decisões importantes na vida: 90,5% para heterossexuais, 86,4% para homossexuais e 84,9% para bissexuais.
“Um dos principais pilares do bem-estar humano são as relações, o senso de comunidade e a sensação de pertencimento. O que encontramos é que pessoas de grupos historicamente minorizados apresentam maiores níveis de solidão”, relata a pesquisadora. Ela complementa que a resolução dessa questão ultrapassa a esfera individual: “Felicidade, saúde mental e bem-estar não podem ser compreendidos apenas como responsabilidades individuais. Nossa responsabilidade, como sociedade, é reduzir o sofrimento de quem se sente marginalizado ou excluído”.
No ambiente digital, o estudo investigou os efeitos do consumo de conteúdo. A comparação da própria vida com a de terceiros nas redes sociais é mais frequente entre a população LGBTQIAPN+, sendo relatada por 64% dos bissexuais e 61% dos homossexuais, contra 55% dos heterossexuais. Já a sensação de tristeza após o uso das redes se mostrou um desafio transversal e coletivo, afetando cerca de 50% dos entrevistados em todos os grupos analisados.
Indicadores de resiliência e esperança
Apesar dos desafios relacionados ao isolamento e ao mercado de trabalho, a população LGBTQIAPN+ apresenta resultados superiores em recortes específicos do levantamento, o que adiciona complexidade aos dados. A avaliação da própria saúde física de forma positiva atinge 70% entre homossexuais e bissexuais, número superior aos 59% registrados no grupo de heterossexuais.
A expectativa em relação ao futuro também difere positivamente: 77% dos homossexuais afirmam acreditar fortemente em um futuro melhor, enquanto entre os heterossexuais esse índice é de 66%.
“O estudo mostra que felicidade não pode ser analisada de forma simplista. Existem desafios importantes relacionados ao apoio social e ao ambiente de trabalho, mas também encontramos sinais de resiliência, esperança e capacidade de construção de bem-estar”, conclui Rivetti. “O que os dados reforçam é a importância de criar ambientes onde as pessoas possam ser autênticas, respeitadas e acolhidas.”
Metodologia da pesquisa
O estudo “O Mapa da Felicidade Real no Brasil 2026” avalia a felicidade dos brasileiros a partir de múltiplos fatores, incluindo a experiência emocional, vínculos sociais, saúde percebida e liberdade de escolha. A coleta de dados ocorreu entre os dias 20 de fevereiro e 1º de março de 2026, por meio de 1.500 entrevistas distribuídas por todas as regiões do Brasil. A pesquisa possui margem de erro de 2,5 pontos percentuais e nível de confiança estatística de 95%.


















