O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta quarta-feira (3), que o Brasil não aceitará o tratamento recebido pelo governo dos Estados Unidos e manterá a defesa de sua soberania frente à ameaça de novas retaliações comerciais. Durante a segunda reunião ministerial de 2026, realizada no Palácio do Planalto, em Brasília, o chefe do Executivo reagiu à recomendação norte-americana de aplicar tarifas de 25% sobre parte das exportações brasileiras. A crise, motivada por uma investigação que acusa o sistema Pix de prejudicar empresas estrangeiras, levou o governo federal a reforçar a busca por novos mercados e a confirmar a presença do presidente na próxima cúpula do G7 para defender o multilateralismo.
Surpresa nas negociações bilaterais
A recomendação de taxação foi sugerida na última segunda-feira (1º) pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). A medida surpreendeu o governo brasileiro, uma vez que, no início de maio, Lula havia se reunido com o presidente estadunidense, Donald Trump, na Casa Branca. Naquela ocasião, os líderes haviam acordado um prazo de 30 dias para que os ministros de ambos os países chegassem a um consenso sobre tarifas remanescentes, impostas inicialmente em julho de 2025.
“Eu propus ao Trump, já que não tem acordo entre os dois ministros, de darmos 30 dias para que os dois se entendam”, relatou Lula aos seus ministros, classificando a atitude norte-americana como insensata. O presidente explicou que saiu de Washington convencido de que uma nova lógica diplomática, democrática e civilizada, estava sendo estabelecida. “Confesso a vocês que fui pego de surpresa ontem com a decisão deles”, completou.
O presidente ressaltou que o Brasil tem buscado o diálogo por meio da construção de uma narrativa técnica e sem bravatas. Durante o encontro nos Estados Unidos, o governo brasileiro apresentou documentos mostrando que a relação comercial é amplamente favorável aos norte-americanos, que registraram um superávit de US$ 415 bilhões nos últimos 15 anos. “Esse país não adotará mais a política de vira-lata diante das grandes potências”, declarou Lula, frisando que o Brasil não aceitará ser tratado como uma “republiqueta insignificante”.
Impacto econômico e a questão do Pix
A investigação do governo de Donald Trump, iniciada há um ano, aponta supostas “práticas desleais” do Brasil no comércio bilateral. Para justificar a retaliação, a instituição estadunidense acusa especificamente o sistema de pagamentos Pix de prejudicar de forma injusta empresas norte-americanas que atuam no setor financeiro e de cartões de crédito, citando nominalmente marcas como MasterCard, Visa e o WhatsApp Pay.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a implementação da tarifa de 25% ameaça diretamente 21% do total das exportações brasileiras enviadas ao mercado dos Estados Unidos. O governo e as empresas afetadas têm até o dia 15 de julho para se manifestarem sobre o relatório final da USTR, data a partir da qual os Estados Unidos poderão aplicar as medidas corretivas contra o Brasil.
A reação oficial brasileira teve início na terça-feira (2), com a divulgação de uma nota à imprensa demonstrando indignação e listando argumentos que desabonam a recomendação dos Estados Unidos. No mesmo dia, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, acompanhado do ministro do MDIC, Márcio Elias Rosa, e do ministro da Fazenda, Dario Durigan, concedeu uma entrevista coletiva para reforçar a defesa econômica do país.
Diante do impasse, Lula orientou a equipe ministerial a focar na diversificação das relações comerciais. “Nós vamos procurar outros parceiros. Se ele não quer comprar, a gente vai vender para quem quiser comprar”, afirmou o presidente, destacando que o Brasil buscará novos investidores caso necessário, exigindo respeito nas relações internacionais.
Mudança de agenda e participação no G7
Como desdobramento da crise comercial, o presidente brasileiro alterou sua agenda diplomática. Lula revelou que não planejava comparecer à reunião de líderes do G7, marcada para o dia 15 de junho, na França. Contudo, decidiu viajar como convidado do presidente francês, Emmanuel Macron, para participar do evento que reúne as lideranças de Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido.
“Eu nem ia ao G7. Agora eu vou”, confirmou o chefe do Executivo. O objetivo da viagem é atuar contra o desmonte do multilateralismo, da democracia e a desvalorização das instituições globais. O presidente reafirmou a necessidade de fortalecer a Organização das Nações Unidas (ONU) e cobrou a reformulação de seu Conselho de Segurança, argumentando que a reconstrução dos órgãos internacionais é o caminho correto para consertar e equilibrar o cenário mundial.


















