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Fake news sobre o Pix ajudou facções criminosas a lavar R$ 26 bilhões em fintechs, revela operação

29 maio 2026 - 09:20

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Ação conjunta do Ministério Público e da Receita Federal mira seis fintechs usadas como braços financeiros do crime organizado. Secretário destaca que campanha de desinformação impediu fiscalização e protegeu esquema ilícito
Operação aponta que fake news sobre o Pix favoreceram lavagem de R$ 26 bilhões pelo PCC. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Nesta quinta-feira (28), o Ministério Público de São Paulo (MPSP), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), e a Receita Federal deflagraram a Operação Fluxo Oculto para desarticular seis fintechs apontadas como braços financeiros do Primeiro Comando da Capital (PCC). A ação cumpriu 59 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul. Segundo as investigações, o esquema movimentou cerca de R$ 26 bilhões, e a manutenção dessa estrutura de lavagem de dinheiro foi diretamente beneficiada por uma onda de notícias falsas que impediu o fechamento de brechas regulatórias no sistema financeiro.

As diligências atingiram inclusive instituições financeiras sediadas na Avenida Faria Lima, o principal centro financeiro do país, localizado na capital paulista. A Operação Fluxo Oculto é um desdobramento da Operação Carbono Oculto, realizada no ano passado, que já havia bloqueado as atividades de empresas responsáveis por esquemas semelhantes.

A arquitetura financeira do crime
A investigação revelou uma complexa engenharia financeira utilizada pelo PCC para ocultar os reais beneficiários dos recursos. O método envolvia o uso de cadeias de fundos de investimento e das chamadas “contas-bolsões”, sistema que consistia no depósito de recursos de múltiplos correntistas em uma única conta para compensação no Sistema Financeiro Nacional (SFN).

De acordo com os dados apresentados, as seis fintechs investigadas movimentaram cerca de R$ 26 bilhões entre os anos de 2022 e 2025. Desse montante, a apuração identificou R$ 365 milhões transacionados em criptoativos. Uma única fintech do grupo movimentou mais de R$ 1 bilhão em espécie, prática que não deveria ser permitida para esse perfil de instituição. Durante o cumprimento dos mandados nesta quinta-feira, os agentes localizaram mais R$ 1 milhão depositado em dinheiro vivo em uma das empresas.

Segundo a Receita Federal, três das fintechs alvos não prestaram contas sobre os investimentos ao órgão. Outras três declararam ter movimentado cerca de R$ 8 bilhões entre janeiro e dezembro de 2025. O secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, classificou a Fluxo Oculto como a maior operação já realizada contra organizações criminosas no país, destacando a abordagem de atacar o pilar financeiro do crime.

Desinformação como escudo para a lavagem de dinheiro
Durante entrevista coletiva, o secretário Robinson Barreirinhas afirmou que a propagação de desinformação na internet sobre o Pix desempenhou um papel central na proteção do esquema criminoso. A polêmica teve início quando a Receita Federal publicou uma norma que estendia às fintechs e aos bancos digitais a mesma obrigação de transparência exigida dos bancos tradicionais desde 2001. A regra determinava o repasse de informações de rotina sobre movimentações mensais acima de R$ 5 mil para pessoas físicas e de R$ 15 mil para pessoas jurídicas.

“Quando a Receita Federal foi fechar essa brecha regulatória no início do ano passado, fomos vítimas da maior onda de fake news da história do órgão. Mentiras dizendo que a Receita Federal iria monitorar e tributar o PIX”, declarou Barreirinhas. “Nós vimos quem eram os interessados disso: as organizações criminosas que se valiam e valem ainda dessas fintechs para a lavagem de dinheiro”.

Um dos responsáveis por essa disseminação ocorreu em janeiro de 2025, quando um vídeo publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) viralizou nas redes sociais. Na gravação, o parlamentar criticava o aumento da fiscalização e, embora não repetisse as afirmações diretas de que o Pix seria taxado, declarou “não duvidar” que isso ocorresse no futuro. Ferreira afirmou que o governo visava apenas arrecadar e classificou a medida como uma “quebra de sigilo mascarada de transparência”.

No vídeo, o deputado argumentou que os mais prejudicados seriam os trabalhadores informais, citando feirantes, motoristas de aplicativo e pedreiros. “Esses trabalhadores que já vivem no aperto agora terão suas movimentações vigiadas como se fossem grandes sonegadores”, disse o parlamentar, que posteriormente comemorou no X (antigo Twitter) a repercussão da postagem, chamando-a de um dos vídeos políticos mais assistidos da história. Vídeos de parlamentares da oposição chegaram a ter um alcance até 20 vezes maior do que as publicações de governistas que tentavam explicar a norma técnica.

Recuo do governo e avanços regulatórios
A pressão gerada pela campanha nas redes sociais levou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e a Receita Federal a revogarem a resolução. Na sequência, o governo editou uma Medida Provisória proibindo qualquer cobrança de imposto sobre transferências via Pix. Paralelamente, a Advocacia-Geral da União (AGU) acionou a Polícia Federal e a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) para investigar a difusão dos boatos, argumentando que a prática feria a ordem econômica e facilitava a aplicação de golpes.

Apesar do revés inicial com a norma da Receita, as investigações do último ano forçaram o Estado a avançar em outras frentes regulatórias. Barreirinhas explicou que as descobertas de hoje foram possíveis graças às informações prestadas pelo sistema E-financeira.

Após a Operação Carbono Oculto, em agosto do ano passado, o Banco Central emitiu uma resolução obrigando as fintechs a detalharem as movimentações de clientes nas “contas-bolsão”, que acabaram sendo proibidas devido à falta de transparência. Além disso, houve a regulação dos fundos de investimento, que passaram a ser obrigados a informar seus beneficiários finais à Receita Federal, e a adequação das declarações de criptoativos ao padrão da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), permitindo a troca de dados com fiscos internacionais.

A Operação Fluxo Oculto integra uma sequência de ações interinstitucionais voltadas a asfixiar as finanças do crime organizado, somando-se a investigações recentes como Spare, Poço de Lobato, Sem Refino e Compliance Zero, estas duas últimas conduzidas pela Polícia Federal.

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