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Preconceito contra trabalhadores LGBTQIAPN+ custa R$ 94,4 bilhões por ano ao Brasil, mostra estudo

27 maio 2026 - 10:10

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Estudo do Banco Mundial aponta que a taxa de desemprego na comunidade é o dobro da média nacional. Exclusão impulsiona a informalidade e gera impacto negativo de R$ 14,6 bilhões aos cofres públicos anualmente
Preconceito contra trabalhadores LGBTQIAPN+ custa R$ 94,4 bilhões por ano ao Brasil, mostra estudo. Foto: Reprodução

A discriminação e a exclusão social de pessoas LGBT+ no mercado de trabalho brasileiro resultam em uma perda econômica anual de R$ 94,4 bilhões para o país, o equivalente a 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB). É o que revela um estudo desenvolvido pelo Banco Mundial, em parceria com o Instituto Matizes, o Instituto Mais Diversidade e uma rede de organizações, a partir de dados coletados em meados de 2025. A pesquisa demonstra que o preconceito impõe barreiras no acesso e na permanência no ambiente laboral, refletindo em taxas elevadas de desemprego, informalidade e prejuízos bilionários às contas públicas.

O levantamento, intitulado “Custo econômico da exclusão baseada em orientação sexual, identidade e expressão de gênero e características sexuais no mercado de trabalho brasileiro”, ouviu 11.231 pessoas em todas as regiões do Brasil ao longo de três meses. O objetivo foi avaliar como o estigma e a desigualdade afetam o emprego, a renda e a produtividade nacional.

Além do impacto direto no PIB, o cenário gera resultados negativos para as contas públicas. Os prejuízos fiscais atrelados à exclusão são estimados em R$ 14,6 bilhões por ano, consequência da combinação entre uma menor arrecadação de impostos e uma maior pressão sobre os gastos governamentais.

Desemprego e fuga para a informalidade
Os indicadores do estudo detalham a disparidade no acesso ao trabalho. A taxa de desemprego entre profissionais LGBT+ atinge 15,2%, o dobro da média da população geral, que é de 7,7%, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2024. A inatividade também é maior: 37,4% das pessoas LGBT+ estão fora da força de trabalho, ou seja, desistiram ou não estão procurando emprego, contra 33,4% da média nacional.

Diante das barreiras no mercado formal, a economia informal acaba se tornando uma alternativa para a obtenção de autonomia financeira e fuga de ambientes preconceituosos. Enquanto 40% da população geral depende da informalidade, esse índice sobe para 46% entre o público LGBT+. O trabalho autônomo, por sua vez, é a realidade de 30% desses profissionais, ante 25% dos brasileiros em geral.

Para Lucas Bulgarelli, diretor do Instituto Matizes, a análise econômica evidencia que o problema ultrapassa a esfera individual. “A escolha de mensurar o impacto da discriminação a partir de uma perspectiva econômica funciona como uma estratégia a mais, além da discussão dos direitos humanos. O que o argumento do custo econômico adiciona é que a violência sofrida por pessoas LGBTI+ não é prejudicial só para essa população, mas para o país como um todo”, afirma.

Recrutamento e o “ocultamento estratégico”
As dificuldades começam antes mesmo da contratação. A pesquisa aponta que 7 em cada 10 profissionais LGBT+ deixam de se candidatar a vagas ou consideram desistir de oportunidades devido à preocupação com a cultura da empresa e com a segurança psicológica. A discriminação nos processos seletivos está ligada, sobretudo, à expressão de gênero, à cor da pele e ao enquadramento em normas de gênero consideradas “tradicionais”.

A administradora Isabela (nome fictício), de 41 anos, ilustra essa estatística. Desempregada há dois anos, ela possui uma carreira consolidada, incluindo 12 anos de atuação em um grande banco, onde iniciou sua transição de gênero aos 28 anos, permanecendo até 2020. Hoje, ela relata que avança nas etapas virtuais de seleção, mas é desclassificada nas entrevistas presenciais.

“Sempre fui uma profissional de alta performance e, no processo seletivo, não me perguntaram se eu era transgênero. Quando eu fui presencialmente para conversar com a gestora da vaga, eles falaram que eram uma empresa tradicional e que não estavam preparados para receber alguém como eu”, relata a administradora sobre um episódio ocorrido no início deste ano.

Para se proteger, Isabela adota cautela no preenchimento de formulários de emprego. “Quando não há a obrigatoriedade de responder, eu prefiro não responder para [minha identidade] não ser colocada contra mim mesma”, explica, ressaltando que nunca omitiu a verdade quando questionada e nunca tentou se passar por uma mulher cisgênero.

Raça e gênero agravam exclusão
O mapeamento destaca que a exclusão é ainda mais severa para recortes específicos dentro da própria comunidade LGBT+, com o somatório de estigmas tornando as barreiras laborais mais intensas para mulheres e pessoas negras.

A penalidade salarial ilustra essa disparidade:

  • Homens brancos LGBT+: penalidade salarial de -6%.
  • Mulheres pretas LGBT+: penalidade salarial de -13%.
  • Mulheres trans negras: enfrentam taxas de desemprego até três vezes maiores e rendimentos até 40% menores.

Hostilidade no ambiente de trabalho
Para os que conseguem ingressar e permanecer no mercado formal, o cotidiano é frequentemente marcado pela hostilidade. O estudo constatou que 72,7% dos entrevistados já sofreram preconceito no local de trabalho, e 64% relataram eventos repetidos de discriminação. Entre 30% e 65% afirmam ter ouvido ou testemunhado comentários ou condutas discriminatórias, e uma parcela entre 40% e 70% já teve de esconder sua identidade no ambiente corporativo.

As práticas excludentes variam desde demissões injustificadas, assédio e agressão, até condutas sutis, como pressão para adaptação a normas de gênero, questionamento rotineiro da competência de travestis e mulheres trans e a sexualização de interações cotidianas.

Esse cenário gera um quadro persistente de adoecimento. A exposição prolongada a essas dinâmicas e a necessidade constante de provar competência estão associadas a sofrimentos psicossociais severos, como exaustão, ansiedade, trauma e burnout, prejudicando a produtividade e a retenção de talentos.

Perspectivas e avanços
De acordo com o presidente do Instituto Mais Diversidade, Ricardo Sales, os dados revelam que as empresas atuam como extensões da sociedade na reprodução de estigmas. “A pesquisa mostra que esta é uma agenda de desenvolvimento econômico fundamental para o país. Quando o preconceito ganha, toda a sociedade perde. Por isso, um dos maiores méritos do estudo é demonstrar como este é assunto de interesse de todas as pessoas”, analisa.

Apesar do cenário desafiador, Lucas Bulgarelli pontua que há movimentações institucionais recentes buscando reverter as estatísticas.

“A recorrente violência e os preconceitos contra a população LGBT+, à medida que se somam ao longo da trajetória de vida dessa população, criam barreiras para ingresso no mercado de trabalho que são cumulativas e persistentes. Tivemos avanços recentes com a criação de um Plano Nacional do Trabalho Digno LGBT+. Isso significa dizer que não estamos propriamente na fase zero de criação das primeiras políticas e ações, e sim no momento de tornar efetivos os compromissos assumidos”, conclui o diretor do Instituto Matizes.

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Atualizado: 27/05/2026 10:11

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