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Estratégias de consumo aumentam volume de endividamento no Brasil

14 maio 2026 - 09:45

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo, com informações de Agência Brasil

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Oferta facilitada de crédito impulsiona a "ansiedade de consumo" e faz com que brasileiros utilizem limites financeiros como extensão da renda mensal, aponta levantamento
Parcelamento de despesas rotineiras agrava endividamento e país atinge 81,7 milhões de inadimplentes. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

O uso recorrente de modalidades de crédito para o parcelamento de despesas básicas do dia a dia está elevando o nível de endividamento das famílias brasileiras, cenário que já contabiliza 81,7 milhões de pessoas em situação de inadimplência no país. Conforme dados e análises de especialistas do setor financeiro repercutidos a partir de Brasília nesta quarta-feira (13), o hábito de transformar limites de cartão de crédito e cheques especiais em complemento de renda desorganiza o orçamento doméstico, empurrando os consumidores, sobretudo os de menor poder aquisitivo, para as taxas de juros mais altas do mercado devido à falta de educação financeira e aos estímulos constantes ao consumo.

O perigo do crédito nas contas do mês
A oferta de pagamentos a prazo, muitas vezes em até três vezes sem juros, tornou-se rotina em supermercados, postos de gasolina e farmácias. No entanto, o que parece vantajoso em um primeiro momento esconde armadilhas estruturais. O crédito, que idealmente deveria ser direcionado à aquisição de bens duráveis e de maior valor, tem sido utilizado para custear a sobrevivência mensal.

A socióloga e diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Adriana Marcolino, observa o crescimento dessa prática. “Estamos vendo muitas pessoas utilizando o crediário para pagar contas do orçamento mensal”, relata. Ela pondera que o financiamento é importante, mas adverte que sua utilização para despesas ordinárias atua na desorganização das contas. O efeito colateral dessa dinâmica, segundo Marcolino, é a transferência direta da renda do trabalhador para o sistema financeiro: “Quanto maiores os juros, maior a parte que vai ficar para o banco”.

Publicidade e “ansiedade de consumo”
O comportamento do consumidor também é influenciado por estímulos externos, independentemente da faixa de renda ou da essencialidade do produto. A economista Katherine Hennings, pesquisadora associada da Fundação Getulio Vargas (FGV) e analista da BRCG Consultoria, diagnostica o quadro como uma “ansiedade de consumo”.

Segundo Hennings, propagandas tradicionais e influenciadores digitais atuam na criação da necessidade, enquanto o acesso facilitado ao crédito viabiliza a compra. “Nós temos um comportamento que é de tentar antecipar ao máximo o que a gente consegue consumir”, explica. A economista ressalta que, apesar do excesso de ofertas na tela do computador e na televisão, falta clareza sobre as consequências financeiras. “Essa parte, menos glamourosa, de fazer as contas não está sendo feita”.

Prestações versus Juros
A negligência na hora de calcular o custo efetivo das dívidas é apontada por Fabio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Ele destaca que o consumidor brasileiro tem o hábito de pesquisar e comparar preços de itens como vestuário e eletrodomésticos, mas falha no momento de assumir o financiamento.

“Na hora de tomar o financiamento, tem o hábito de simplesmente verificar se é possível acomodar a prestação dentro do orçamento”, analisa Bentes. A consequência direta dessa falta de cálculo é o comprometimento excessivo, o que leva o consumidor a recorrer a linhas de crédito mais onerosas, como o parcelamento da operadora, o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito.

Limite bancário não é salário
Outro fator que agrava a crise no orçamento das famílias é a confusão entre o que é ganho real e o que é empréstimo pré-aprovado. A economista Isabela Tavares, responsável pelo acompanhamento de crédito e endividamento da Consultoria Tendências, é enfática ao alertar que limites de crédito não podem ser somados aos vencimentos mensais.

“Precisamos entender que o limite do cartão de crédito não é uma renda extra. Temos que conseguir pagar o cartão de crédito com o salário que recebemos no final do mês. Quem ganha R$ 5 mil e tem um limite também de R$ 5 mil não tem renda de R$ 10 mil”, exemplifica Tavares.

Raio-X da inadimplência
Os indicadores atestam o tamanho do problema. Segundo o Banco Central, apenas no Sistema Financeiro Nacional, a inadimplência das famílias em março chegou a R$ 238,5 bilhões. O montante representa 5,3% do total de R$ 4,5 trilhões em crédito cedido a este grupo, número que não engloba dívidas diretamente com o comércio e prestadores de serviços.

A dimensão se torna mais clara quando observada em número de pessoas físicas. A Serasa Experian aponta a existência de 81,7 milhões de inadimplentes no Brasil. A maior fatia das dívidas atrasadas (47,1%) está concentrada em bancos e financeiras. O perfil do devedor também é delineado pela pesquisa: 78 em cada 100 endividados recebem até dois salários mínimos.

Esses cidadãos são os mais vulneráveis, como explica Isabela Tavares. Por terem pontuações de crédito (score) mais baixas e, muitas vezes, ausência de emprego formal, eles não conseguem acessar opções mais baratas, como o crédito consignado. “Assim, acabam recorrendo a empréstimos não consignados, cheque especial, ou o rotativo do cartão”, detalha.

Educação financeira e modernização do sistema
Para os especialistas ouvidos, a saída passa obrigatoriamente pela educação financeira. O planejador Carlos Castro, criador da plataforma SuperRico e integrante da associação Planejar, desenvolveu cartilhas e calculadoras para orientar o público sobre o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e a adesão a programas de renegociação do governo federal, como o Desenrola 2. Na avaliação de Castro, o programa governamental funciona como “uma medida de curto prazo” e de emergência. A verdadeira solução exige mudanças estruturais para “evitar que o brasileiro volte a se endividar, e continue no mesmo nível de endividamento que temos hoje”.

Agilidade na liquidação de boletos
Em meio aos debates sobre as dívidas das famílias e as operações de crédito, o setor bancário também promove mudanças estruturais em suas ferramentas de cobrança. Como parte de um projeto mandatário de modernização envolvendo 136 bancos implementado desde 15 de março de 2024, a liquidação interbancária de boletos passou a ocorrer no mesmo dia do pagamento. Com a regra, boletos pagos até as 13h30 garantem o recebimento do dinheiro pelo cobrador na mesma data, a depender do contrato com a instituição financeira. Pagamentos efetuados após esse horário são liquidados no dia útil seguinte.

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Atualizado: 14/05/2026 12:12

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