Os gastos de brasileiros em viagens e compras no exterior registraram o valor recorde de US$ 6,04 bilhões no primeiro trimestre de 2026, impulsionados pela queda acumulada na cotação do dólar ante o real. Os dados, divulgados pelo Banco Central (BC) na manhã desta sexta-feira (24), representam o maior patamar para os três primeiros meses do ano desde o início da série histórica, em 1995. O cenário reflete a desvalorização da moeda norte-americana e ocorre em paralelo a um avanço na confiança do consumidor no mercado doméstico.
O impacto do câmbio nas viagens
O montante gasto fora do país entre janeiro e março deste ano representa um crescimento de 21,9% na comparação com o mesmo período de 2025, quando as despesas somaram US$ 4,96 bilhões. Apenas no mês de março, o volume totalizou US$ 1,99 bilhão, consolidando um recorde histórico para o mês.
A alta nas despesas ocorre em um momento de recuo do dólar, o que barateia custos cotados em moeda estrangeira, como passagens, hotéis e serviços. No acumulado do ano, a divisa norte-americana registra queda superior a 8,8%. Apesar de ter fechado a última quinta-feira (23) cotada a R$ 5,00, a primeira vez acima desse patamar em duas semanas, a percepção do mercado indica que as tensões no Oriente Médio favorecem o Brasil. A avaliação é de que o país, por ser exportador de petróleo, atrai a entrada de divisas, o que contribui para a valorização do real.
Em meio a esse cenário cambial, o Banco Central informou que não aceitou nenhuma proposta nos dois leilões simultâneos realizados na manhã desta sexta-feira. A instituição havia ofertado US$ 1 bilhão para venda à vista e 20.000 contratos (US$ 1 bilhão) de swap cambial reverso.
Contas externas e investimentos diretos
Além do aumento em viagens, o Banco Central detalhou o desempenho do setor externo. O déficit das contas externas brasileiras recuou 10,76% no primeiro trimestre, registrando um saldo negativo de US$ 20,27 bilhões na conta de transações correntes, ante um rombo de US$ 22,71 bilhões no mesmo período do ano anterior.
Considerando apenas o mês de março, entretanto, o déficit em transações correntes foi de US$ 6,036 bilhões, superando a expectativa de US$ 5,489 bilhões do mercado financeiro. Esse resultado mensal foi composto por um superávit de US$ 5,620 bilhões na balança comercial, um déficit de US$ 4,785 bilhões na conta de serviços e um rombo de US$ 7,384 bilhões na conta de renda primária. No acumulado de 12 meses, o déficit externo totaliza o equivalente a 2,71% do Produto Interno Bruto (PIB).
Os investimentos estrangeiros diretos (IED) registraram uma leve queda no período. O país recebeu US$ 21,03 bilhões no primeiro trimestre de 2026, contra US$ 23,04 bilhões no mesmo intervalo de 2025. Apenas em março, os investimentos somaram US$ 6,037 bilhões, valor abaixo da projeção de US$ 7 bilhões. Segundo o BC, mesmo com a retração, os recursos foram suficientes para financiar o déficit em transações correntes registrado no início do ano.
Confiança do consumidor avança
Internamente, a percepção sobre a economia apresenta sinais de melhora. Dados divulgados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) nesta sexta-feira (24) mostram que o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) avançou 1 ponto em abril, atingindo 89,1 pontos, o nível mais elevado desde dezembro do ano passado.
O Índice de Situação Atual (ISA) subiu 2,1 pontos, chegando a 85,3, puxado pela avaliação da situação financeira atual das famílias, que atingiu o maior patamar desde fevereiro de 2020 (76,0 pontos). O Índice de Expectativas (IE) também registrou alta, com acréscimo de 0,2 ponto, alcançando 92,3 pontos.
“Houve melhora da avaliação sobre a situação financeira das famílias, sobretudo dos consumidores da faixa de renda mais baixa, que recebem até R$ 2.100,00 no mês”, explicou Anna Carolina Gouveia, economista do FGV IBRE.
A especialista pontuou os fatores que justificam o otimismo. “A inflação mais baixa e um mercado de trabalho robusto têm sido fatores primordiais para uma avaliação menos pessimista dos consumidores, mas nos últimos meses a isenção do imposto de renda pode ter representado um alívio pontual para as famílias de menor renda”, concluiu.


















