
Projeto “A Hora Azul” reúne técnica de sobreposição e depoimentos em vídeo para promover a inclusão e expor as barreiras de acessibilidade enfrentadas pela comunidade surda capixaba
A produtora cultural Bella Nogueira, a fotógrafa Milena Fratelli e a Associação dos Surdos de Linhares (ASSURLIN) inauguram a exposição fotográfica “A Hora Azul: Retratos & Relatos Surdos” nesta sexta-feira (24), no hall de recepção da Universidade Aberta do Brasil (UAB), em Linhares. O evento, que possui entrada gratuita e fica em cartaz até 24 de maio, celebra o Dia Nacional da Libras, data instituída pela sanção da Lei nº 10.436 de 2002. O objetivo principal da exposição é registrar modelos surdos sinalizando elementos culturais em sua língua natural e fomentar o debate sobre a falta de acessibilidade no setor cultural.

Arte, movimento e fotografia
Para a realização do projeto, modelos surdos foram registrados sinalizando, em sua língua natural, correspondências para variadas artes e elementos culturais. Com o objetivo de retratar o movimento em imagens estáticas, a fotógrafa Milena Fratelli empregou a técnica de sobreposição, reunindo em uma única fotografia os múltiplos quadros da execução de cada sinal.
Além do aspecto visual, o público poderá acessar depoimentos em vídeo por meio de QR Codes impressos junto às telas. Os relatos, gravados integralmente em Libras, contam com legendas em português traduzidas pela intérprete Janice Barbosa Mota, que atuou como ponte comunicacional entre a equipe e o elenco.
A produtora cultural e idealizadora da exposição, Bella Nogueira, relatou a experiência de desenvolvimento do trabalho em equipe. “Ouvir a tradução simultânea da Janice enquanto admirávamos cada expressão, cada sinal, foi surreal. Fiquei profundamente tocada com o que cada um deles se dispôs a relatar. Muitos se sentiriam vulneráveis naquela posição, mas eles foram corajosos e destemidos”, afirmou Nogueira.
“A Milena trouxe uma outra experiência com seus conhecimentos aplicados no projeto e eu realmente nunca vi nada parecido nessa temática.”

Desafios de acessibilidade e a “Hora Azul”
O conteúdo dos depoimentos explora a relação dos retratados com a arte e as dificuldades que encontram no consumo de espetáculos, eventos e obras audiovisuais. No Espírito Santo, cartilhas divulgadas em 2023 pelo Governo do Estado apontam que 11,4% da população capixaba apresenta surdez ou deficiência auditiva. Em âmbito nacional, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contabilizou, em 2022, mais de 10 milhões de pessoas nestas condições. Para a parcela da comunidade alfabetizada exclusivamente em sua língua natural, o uso isolado de legendas é insuficiente para a plena compreensão.
Aline Bustamante, presidente da ASSURLIN, destacou que a adequação dos formatos deve ir além do texto escrito. “A exposição mostra que o corpo e a forma de expressão da pessoa surda são muito importantes. Ela também deixa claro que apenas colocar legenda em português não é suficiente para garantir acessibilidade”, explicou.
“O público ouvinte precisa entender que a pessoa surda não tem uma ‘falta’, mas sim uma cultura diferente. A inclusão de verdade acontece quando a comunicação visual é garantida e a pessoa surda tem espaço de protagonismo.”
A nomenclatura da exposição faz referência a um duplo significado, cruzando a identidade da comunidade com os processos artísticos de captura. Segundo Bella Nogueira, a ideia central era homenagear a cor-símbolo dos surdos e integrá-la à fotografia.
“Existe um conceito chamado ‘Hora Azul’, que são aqueles dois momentos do dia pouco antes e pouco depois do nascer e do pôr do sol, quando as tonalidades azuis e frias ditam a temperatura do que vemos e registramos. Pensando nesses dois conceitos, o nome me pareceu inevitável”, detalhou a produtora.
Um dos relatos que mais marcou a produção foi o do modelo Uilliam. “Ele escolheu falar do circo e das suas experiências de invisibilidade naquele espaço que deveria acolhê-lo. Lembro de chorar ali mesmo, no set”, relatou Nogueira.
“Acredito que relatos como o dele podem ilustrar de um jeito muito humano o quanto ainda precisamos nos esforçar para incluir e garantir acesso àqueles que precisam.”
Fomento estrutural e expansão do projeto
A exposição é viabilizada com apoio da Prefeitura Municipal de Linhares, Lei Aldir Blanc (PNAB), Ministério da Cultura e Governo Federal, integrando um circuito de ações da ASSURLIN para a mobilização social.
Avaliando o impacto estrutural no município, Bustamante ressaltou o papel pedagógico da mostra para as instituições públicas e privadas. “Eventos importantes em Linhares ajudam a conscientizar as pessoas. O público ouvinte começa a entender que a comunidade surda tem uma cultura própria e merece respeito”, afirmou a presidente da associação.
“Esses eventos também mostram que os espaços culturais e públicos precisam se adaptar, oferecendo intérprete de Libras, informações visuais e acessibilidade de verdade.”
A longo prazo, a Nogueira Produções tem o objetivo de expandir o alcance da exposição para outros equipamentos culturais. “Estou trabalhando para que museus, galerias, centros culturais e sedes de outras associações dos surdos do estado possam nos receber em breve em seus espaços”, declarou Bella Nogueira, que convocou a população ouvinte a integrar as demandas por um cenário mais acessível.
“Se diante da lei todos somos iguais, então todos devemos ter a comunicação e o acesso de direito. E essa batalha os surdos não precisam enfrentar sozinhos.”

Serviço – Estreia da exposição “A Hora Azul: Retratos & Relatos Surdos”
Onde: Hall de recepção da UAB (ao lado da FACELI), em Linhares
Quando: 24 de abril, às 19 horas
Período de visitação: De 24/04 a 24/05
Entrada: Gratuita
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