Saúde

Abril Verde: ES registra mais de 14 mil acidentes de trabalho e alerta para doenças sem cura

31 mar 2026 - 14:00

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Dados apontam que homens são as principais vítimas fatais no Estado. Campanha estadual foca na prevenção da pneumoconiose, agravo sem cura que atinge trabalhadores do setor de rochas ornamentais
Com mais de 14 mil acidentes em um ano, Espírito Santo volta campanha 'Abril Verde' para doenças pulmonares. Foto: Reprodução

No Espírito Santo, 14.434 acidentes de trabalho foram notificados ao longo de 2025, resultando em 116 óbitos e 15 casos de incapacidade total permanente. Os números, extraídos do sistema e-SUS Vigilância em Saúde (e-SUS/VS), pautam as ações estaduais da campanha “Abril Verde” neste ano de 2026, que concentra suas ações na prevenção de acidentes e tem como tema central a pneumoconiose, uma doença pulmonar crônica ligada à inalação de poeiras no ambiente laboral.

Dos acidentes registrados no último ano no Estado, 42% causaram incapacidade temporária para o trabalhador, enquanto 32% evoluíram para cura. O número de mortes (116) manteve-se próximo ao registrado em 2024, quando 113 trabalhadores perderam a vida.

O chefe do Núcleo Especial de Vigilância em Saúde do Trabalhador (NEVISAT), Frederico de Freitas, detalha que as estatísticas evidenciam o perfil das vítimas. “Homens representam 73% dos trabalhadores acidentados. Entre os óbitos, essa proporção é ainda maior, chegando a 90%. A faixa etária mais atingida pelos acidentes é de 18 a 29 anos, enquanto as mortes se concentram entre trabalhadores de 40 a 49 anos”, afirmou.

As principais causas dos acidentes em geral envolvem contato com objetos cortantes, impactos por objetos, quedas e ocorrências de transporte, especialmente com motociclistas. As profissões com mais notificações incluem trabalhadores da agricultura, pedreiros, técnicos de enfermagem, faxineiros e soldadores. Já os casos fatais estão concentrados em acidentes de trânsito (atingindo motociclistas e motoristas de caminhão), quedas e impactos por objetos, afetando principalmente motoristas de caminhão, trabalhadores rurais, motociclistas e profissionais da construção civil.

Apesar do volume de notificações, os órgãos de saúde apontam para a subnotificação. “Parte dos acidentes e doenças relacionados ao trabalho não é registrada nos sistemas de informação, reforçando a necessidade de ampliar a identificação desses agravos nos serviços de saúde”, alertou Freitas.

O chefe do NEVISAT ressalta que as ocorrências estão atreladas às condições laborais. “A prevenção passa, sobretudo, pela garantia de ambientes seguros, pela organização adequada do trabalho e pela eliminação de riscos nos processos produtivos, e não apenas pelo uso de equipamentos de proteção”, declarou.

Foco na pneumoconiose e o setor de rochas
O “Abril Verde” ocorre no mês que abriga o Dia Mundial da Saúde (7 de abril) e o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes de Trabalho (28 de abril). Anualmente, o NEVISAT define um tema com base na epidemiologia local. Em 2026, a escolha recaiu sobre as pneumoconioses ocupacionais.

Tratam-se de doenças pulmonares crônicas e irreversíveis, sem cura, provocadas pela inalação de poeiras orgânicas ou inorgânicas, como sílica, carvão e amianto. O tratamento disponível atua apenas no alívio dos sintomas.

O tema possui relação direta com a economia capixaba. O Espírito Santo é o estado brasileiro com maior exploração, beneficiamento e exportação de rochas ornamentais. Entre 2021 e 2025, foram notificados 98 casos de pneumoconioses no Estado. A maior concentração das ocorrências está na Região Norte: Barra de São Francisco lidera com 70 casos, seguida por São Mateus, com 19. Como a doença possui progressão lenta, muitos diagnósticos ocorrem apenas após a aposentadoria do profissional, o que dificulta o estabelecimento do nexo causal com o trabalho exercido.

Simpósio em São Mateus e canais de denúncia
Para abordar a doença e discutir mudanças no ambiente produtivo, o NEVISAT e o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) da Região Norte promovem o IV Simpósio Capixaba de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora. O evento acontece no dia 29 de abril, a partir das 9 horas, no auditório da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em São Mateus.

O encontro, voltado para convidados da área e com transmissão pelo canal da Secretaria da Saúde (Sesa) no YouTube, terá a participação de representantes de empresas e trabalhadores do setor de rochas ornamentais, profissionais de saúde da região e de um pneumologista especializado na epidemiologia da exposição à sílica. O objetivo é mobilizar o setor produtivo para a identificação precoce da doença e eliminação dos riscos.

A coordenação das ações de monitoramento de saúde do trabalhador no Estado é feita pela Sesa, via NEVISAT, em integração com os CERESTs, Superintendências Regionais e prefeituras. O trabalho inclui inspeções sanitárias, qualificação de profissionais da rede de saúde e formulação de materiais técnicos.

Trabalhadores e a população em geral podem relatar situações de risco, adoecimento ou condições inadequadas de trabalho. As notificações podem ser registradas na Ouvidoria Geral do Estado e por meio do formulário online Vigi Trabalhador.

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