A Secretaria de Saúde do Espírito Santo (Sesa) dá início à campanha “Fevereiro Laranja”, uma iniciativa voltada para o fortalecimento do combate à leucemia, câncer que atinge o sistema sanguíneo de crianças e adultos. Durante todo o mês, o foco das ações é a conscientização sobre a necessidade do diagnóstico precoce e o incentivo à doação de medula óssea, fatores determinantes para aumentar as chances de cura e salvar vidas.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), a leucemia é o 10º tipo de câncer mais frequente na população brasileira, excluindo o câncer de pele não melanoma. As estimativas para o triênio 2023-2025 apontam mais de 11.500 novos casos anuais no Brasil. No Espírito Santo, a projeção é de 240 novos diagnósticos por ano, divididos igualmente entre homens e mulheres (120 casos para cada grupo), com taxas brutas de 5,91 e 5,74 por 100 mil habitantes, respectivamente.
Cinthia Guerra, responsável técnica do Núcleo de Vigilância Epidemiológica do Câncer da Sesa, enfatiza que a campanha ultrapassa a barreira da informação. “É um chamado à ação para o diagnóstico precoce, que é o divisor de águas entre o sucesso do tratamento e a progressão da doença, tanto em adultos quanto no público infantojuvenil, aumentando significativamente as chances de sucesso no tratamento, especialmente em casos de evolução rápida como as leucemias agudas”, afirma a enfermeira.
O mês também marca o “Dia Mundial do Câncer”, em 4 de fevereiro, data utilizada para disseminar informações sobre controle e prevenção da doença.
Sintomas e diagnóstico
A leucemia caracteriza-se pelo crescimento acelerado e anormal dos leucócitos, as células de defesa do organismo. Especialistas alertam que a identificação rápida dos sintomas é crucial. Os sinais mais frequentes incluem:
- Fraqueza, cansaço e fadiga;
- Sangramentos e hematomas espontâneos;
- Manchas roxas no corpo ou pontos vermelhos sob a pele;
- Febre e infecções recorrentes (devido à baixa imunidade);
- Dores nas pernas;
- Gânglios aumentados;
- Dor e aumento na região esquerda do corpo (baço).
Esses quadros decorrem da falha na produção de glóbulos vermelhos (anemia), glóbulos brancos (infecções) e plaquetas (hemorragias). O diagnóstico inicial é realizado por exames laboratoriais como o hemograma, mas a confirmação exige procedimentos específicos, incluindo bioquímica, coagulação e exames de medula óssea, como mielograma, imunofenotipagem e cariótipo.
Referência no tratamento pediátrico
No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) no Espírito Santo, o Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória (HINSG) é a referência para casos de leucemia pediátrica, doença que representa cerca de 30% dos atendimentos oncológicos na unidade.
Tânia Bitti, chefe do Núcleo de Onco-Hematologia do HINSG, explica que o tratamento adota uma abordagem integral. “Considerando não apenas os aspectos físicos da doença, mas também as dimensões social, emocional e espiritual”, pontua. Segundo a médica, esse suporte é vital para enfrentar longos períodos de internação e isolamento.
A estrutura de apoio inclui suporte pedagógico da Secretaria da Educação (Sedu) para continuidade escolar e acolhimento pela Associação Capixaba Contra o Câncer Infantil (ACACCI). O hospital também realiza o matriciamento com a Atenção Primária à Saúde, integrando o cuidado dentro e fora do ambiente hospitalar.
O HINSG tem incorporado terapias inovadoras, como o CAR-T Cell, voltada para casos refratários aos tratamentos convencionais. Tânia Bitti cita o caso de uma criança submetida a essa terapia há um ano e meio que permanece livre da doença. “Esse exemplo simboliza o avanço da ciência aliado ao cuidado humanizado”, destaca.
Protocolos para crianças e adolescentes
A oncologista pediatra Camila Barros Braga Miranda, do Núcleo de Tratamento de Onco-Hematologia (NTOH/HINSG), detalha que o tratamento depende do tipo de leucemia e da classificação de risco. As modalidades incluem quimioterapia sistêmica e intratecal, terapias-alvo, imunoterapias e, em casos específicos de alto risco ou recidiva, o transplante de medula óssea.
“A duração do tratamento para a leucemia linfoide é de cerca de dois anos e meio a três anos. Já a mieloide, cerca de seis meses até um ano”, explica a especialista. Embora a maioria dos casos não tenha causa identificável, alguns podem estar associados a síndromes genéticas ou exposições prévias à radiação e quimioterapia.
O hospital conta ainda com uma equipe de Residência Multiprofissional em Cuidados Paliativos do Instituto Capixaba de Ensino, Pesquisa e Inovação em Saúde (ICEPi). O psicólogo Saulo Miguel, integrante da equipe, ressalta que o trabalho visa aliviar o sofrimento e promover bem-estar. “Tentamos entender quem de fato é aquele paciente e seus familiares, identificando sua rede de apoio, questões físicas, psicológicas, espirituais e sociais”, afirma.
O desafio da compatibilidade e a doação de medula
Um dos pilares do “Fevereiro Laranja” é a mobilização para o cadastro de doadores de medula óssea. A chance de encontrar um doador compatível fora da família é de apenas 1 para cada 100 mil pessoas, o que torna imprescindível um banco de dados robusto.
Soraya Almeida, diretora-técnica do Centro de Hemoterapia e Hematologia do Espírito Santo (Hemoes), informa que o banco capixaba possui 5,9 milhões de voluntários cadastrados, com 3.718 novos registros realizados em 2025.
Para se cadastrar no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome), é necessário:
- Ter entre 18 e 35 anos e 6 meses de idade;
- Estar em bom estado de saúde;
- Apresentar documento oficial com foto.
O cadastro pode ser feito no Hemoes em Vitória, nos hemocentros regionais de Linhares, Colatina e São Mateus, ou nas unidades móveis de coleta. Não é necessário agendamento ou jejum. No local, é coletada uma amostra de sangue (5ml) para teste de compatibilidade. Caso haja compatibilidade futura com algum paciente cadastrado no Registro Nacional de Receptores (Rereme), o voluntário pode ser convocado para realizar a doação até os 60 anos de idade.


















