O Banco Central (BC) decretou, nesta quarta-feira (21), a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, conhecida comercialmente como Will Bank. A instituição, que foi fundada no Espírito Santo em 2017 sob o nome “Meu Pag!” por empreendedores locais, teve suas operações encerradas pela autoridade monetária devido ao comprometimento de sua situação econômico-financeira e insolvência.
A decisão do BC ocorre após a constatação, no dia 19 de janeiro, de que a financeira descumpriu a grade de pagamentos com a operadora de cartões Mastercard, resultando no bloqueio de sua participação no arranjo de pagamentos. O Will Bank era controlado pelo Banco Master, que já havia sofrido intervenção em novembro de 2025.
Com a decretação da liquidação, a instituição deixa de operar imediatamente, os bens dos controladores e ex-administradores ficam indisponíveis e as aplicações financeiras são congeladas até a apuração do liquidante nomeado pelo BC.
Origem capixaba e impacto no mercado
Embora atualmente sediada em São Paulo, a instituição tem raízes no mercado capixaba. O banco digital foi criado em 2017 por empreendedores do Espírito Santo ligados ao setor financeiro. A medida afeta milhares de clientes em todo o país. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) informou que deve gastar cerca de R$ 6,3 bilhões para restituir clientes e investidores, com base em dados de novembro de 2025.
Faturas e dívidas devem ser pagas
Especialistas alertam que a liquidação da instituição não isenta os clientes de suas obrigações financeiras. Quem possui cartão de crédito ou empréstimos com o Will Bank deve continuar realizando os pagamentos normalmente.
O especialista em mercado financeiro André Franco explica que as obrigações contratuais persistem. “A fatura do cartão de crédito não é perdoada, tá registrado no sistema financeiro nacional. Então, o não pagamento vai causar inadimplência e você ter ali a sua conta colocada no Serasa e no SPC”, esclarece.
O liquidante nomeado fará o levantamento dos valores que o banco tem a receber para honrar os compromissos com os credores.
Como receber o dinheiro de volta
Para quem tinha dinheiro depositado na conta ou em investimentos, o ressarcimento será feito via FGC, que garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. A garantia cobre conta-corrente, poupança e CDBs.
“O dinheiro em conta de investimento entra na garantia do FGC até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. Então, essa garantia se estende à conta-corrente que você também tem lá dentro”, afirma André Franco. Produtos como letras financeiras não possuem essa cobertura.
Há, no entanto, uma regra específica para quem já era cliente de outras empresas do mesmo grupo econômico. O FGC alerta que os valores serão consolidados por CPF. “Caso o credor já tenha recebido o valor limite da garantia de R$ 250 mil na liquidação das instituições Banco Master, Banco Master de Investimento ou Letsbank, não haverá valores adicionais a receber do FGC, uma vez que todas as instituições pertencem ao mesmo conglomerado financeiro”, informou o Fundo. Isso se aplica a produtos adquiridos após 21 de agosto de 2024, data da aquisição do Will Bank pelo Master.
Passo a passo para solicitar a garantia
O pagamento não é automático e depende da consolidação da lista de credores pelo liquidante. Não há um prazo legal fixo, mas em liquidações recentes o processo levou entre 30 e 60 dias. O procedimento será totalmente digital:
- Aguarde a liberação: O liquidante deve enviar a lista de credores ao FGC.
- Baixe o App: O pedido para pessoas físicas deve ser feito pelo aplicativo do FGC (disponível para Android e iOS).
- Cadastro: Preencha os dados (nome, CPF, data de nascimento) e realize a validação biométrica.
- Solicitação: Quando o sistema estiver liberado, o cliente visualiza o valor a receber e assina digitalmente o termo. É necessário informar uma conta bancária de mesma titularidade para o depósito.
- Pagamento: Após a assinatura e validação, o dinheiro é transferido em até 48 horas úteis.
- Pessoas jurídicas devem utilizar o “Portal do Investidor” no site do FGC.
O colapso do Banco Master
A queda do Will Bank é um desdobramento da crise no Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro. Investigações da Polícia Federal e relatórios do BC apontam para um esquema de desvio de cerca de R$ 11,5 bilhões entre 2023 e 2024.
Segundo as apurações, o banco inflava seu balanço artificialmente e assumia riscos excessivos oferecendo CDBs com rentabilidade muito acima da média. O esquema envolvia triangulações com a gestora Reag Investimentos e empresas supostamente de fachada, que compravam ativos de baixo valor (como papéis do extinto banco Besc) a preços superfaturados.
O Banco Central justificou a liquidação afirmando que a tentativa de preservar o funcionamento da Will Financeira sob administração temporária não se mostrou viável diante da “situação econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo de interesse evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master”.


















