O governador Renato Casagrande avaliou que o número de vidas perdidas na megaoperação realizada no Rio de Janeiro, que chegou a 121, “não é normal”. A declaração ocorreu na tarde desta quarta-feira (29), no Palácio Anchieta, durante a cerimônia de entrega do Prêmio Humaniza, onde o governador defendeu uma investigação sobre o ocorrido. Nesta quinta-feira (30), o Governo do Espírito Santo anunciou a ativação de um plano de contingência preventivo para monitorar as atividades de facções criminosas e possíveis fugas para o território capixaba.
Durante seu discurso na quarta-feira, Casagrande expressou preocupação com o resultado da operação contra o Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio. “Não é normal que em uma operação policial mais de 130 pessoas percam a vida”, assinalou, utilizando um número arredondado, e reafirmou: “Não é normal isso”.
O governador capixaba apontou para a necessidade de uma apuração pelos órgãos competentes fluminenses. “Alguma coisa precisa ser apurada, investigada, analisada”, disse. Casagrande mencionou o papel do Ministério Público do Rio de Janeiro como controle externo das forças de segurança. “Trabalho que o MP do Rio vai ter que fazer, de investigação, de apuração, para saber de fato o que aconteceu”.
Embora tenha afirmado que não lhe cabia fazer um julgamento sobre o planejamento da operação, Casagrande destacou a dificuldade em não refletir sobre o resultado. “É muito difícil você não fazer uma análise e uma reflexão com o saldo de tantas pessoas que perderam a vida em uma única operação”, comentou, contrastando com a situação local: “Mas no Espírito Santo a gente tem dado passos”.
ES ativa monitoramento nas divisas
Nesta quinta-feira (30), o Governo do Espírito Santo detalhou o plano de contingência formulado pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) após a “Operação Contenção” no Rio. A apresentação foi feita pelo governador Renato Casagrande e pelo vice-governador Ricardo Ferraço, coordenador do Programa Estado Presente em Defesa da Vida.
O objetivo é estabelecer um fluxo de informações de inteligência entre agências federais e estaduais para identificar eventuais fugas de criminosos do Rio para o Espírito Santo, ou o retorno de indivíduos do estado que estavam escondidos em território fluminense.
“Estamos desde o ocorrido avaliando a repercussão”, pontuou Casagrande. “As nossas agências de inteligência estão integradas, Estamos acompanhando as divisas com a Polícia Rodoviária Federal”. O governador afirmou que a tendência observada é a migração de lideranças capixabas para o Rio, e não o contrário. “E já adianto: se tentarem voltar, serão alcançadas”.
Até o momento, segundo os levantamentos de inteligência, não há indicativo de migração de criminosos para o Espírito Santo após a operação realizada nesta terça-feira (28) no Complexo da Maré. O monitoramento foi reforçado nas estradas que cortam os municípios de Presidente Kennedy, Mimoso do Sul, Apiacá, Bom Jesus do Norte, São José do Calçado e Guaçuí, todos na divisa com o Rio de Janeiro.
O vice-governador Ricardo Ferraço reforçou que a estrutura de segurança está pronta. “Nosso plano de contingência já está em operação, tático e estratégico. Bandidos fogem do Espírito Santo para buscar abrigo em outros estados porque sabem que aqui nossas polícias irão alcançá-los”, disse.
O secretário da Sesp, Leonardo Damasceno, classificou o Espírito Santo como “território hostil” para criminosos. “Temos exemplos recentes de líderes de facções criminosas do Estado que resolveram voltar, por algum motivo, do Rio de Janeiro, e foram capturados. Marujo, irmãos Vera, Boca de Lata”, listou Damasceno, afirmando que, embora não haja indicativo de migração, as forças estarão “preparados”.
Operação no Rio é a mais letal da história
A operação nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, iniciada na terça-feira (28) com um saldo inicial de 64 mortos, atingiu a marca de 121 óbitos até a noite de quarta-feira (29). O número foi atualizado após moradores encontrarem mais corpos na área de mata conhecida como Vacaria, para onde os confrontos se deslocaram.
O total de mortos supera o massacre do Carandiru, em São Paulo, que resultou em 111 detentos mortos, tornando-se a operação mais letal do país, embora em contextos diferentes.
Em entrevista coletiva, o governador do Rio, Cláudio Castro, classificou a operação como um “sucesso” e afirmou que “de vítimas lá só tivemos os policiais”, referindo-se aos quatro agentes mortos.
Ao longo da quarta-feira, dezenas de corpos foram retirados da mata por moradores e levados para a Praça São Lucas, no Complexo da Penha. A cúpula da segurança do Rio informou que a ação foi planejada por dois meses e visou empurrar os traficantes para a área de mata, que servia como rota de fuga, para “preservar vidas inocentes”.
O secretário de Segurança Pública fluminense, Victor Santos, declarou que “a alta letalidade era previsível, mas não desejada” e que, pelo horário e local, “temos base para dizer que os 117 mortos [número citado pelo secretário no momento] são criminosos”.
O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, exibiu vídeos de câmeras corporais e alegou que moradores teriam retirado roupas táticas e camufladas dos corpos, afirmando que essas pessoas serão investigadas por fraude processual. Moradores, por sua vez, alegam que cortaram as roupas para facilitar a identificação e mostrar marcas nos corpos.
Na quarta-feira, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o governador Cláudio Castro preste informações detalhadas sobre a megaoperação, no âmbito da ADPF 635, conhecida como a “ADPF das Favelas”.


















