economia

EUA analisam zerar tarifa de produtos que não cultivam, como café, manga e cacau

29 jul 2025 - 16:25

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo, com informações de Folha de S. Paulo

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Declaração é do secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick. Apesar do aceno positivo, prazo para sobretaxa geral de 50% a produtos do Brasil se esgota nesta sexta. Governo Lula prepara defesa
Produtos não cultivados nos EUA, como café e manga, poderão ter tarifa zero, diz secretário de Comércio. Foto: Getty Images Signature

Em meio a uma crescente tensão comercial, o governo dos Estados Unidos sinalizou, nesta terça-feira (29), a possibilidade de zerar as tarifas de importação para produtos que o país não cultiva, como café, manga, cacau e abacaxi. A declaração do secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, surge a poucos dias do prazo final para a imposição de uma sobretaxa de 50% sobre diversos produtos brasileiros, prevista para entrar em vigor na próxima sexta-feira (1º). Enquanto a diplomacia brasileira atua para reverter o quadro, o governo prepara uma resposta técnica às acusações americanas e setores produtivos, como o de frutas, alertam para perdas drásticas caso a medida se concretize.

“Os Estados Unidos não produzem esses produtos. Então, poderiam entrar com tarifa zero”, afirmou Lutnick em entrevista à emissora CNBC Internacional. A indicação corrobora informações de analistas do agronegócio de que o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) já teria elaborado uma lista de produtos que o país não consegue produzir localmente e que são relevantes na alimentação americana, incluindo, além dos citados, frutas tropicais, frutos do mar, suco e óleo de palma.

Apesar do aceno positivo para alguns setores, a ameaça geral permanece. Lutnick confirmou que o presidente Donald Trump tomará suas decisões sobre acordos comerciais até o final desta semana. “Para o resto do mundo, teremos tudo pronto até sexta-feira”, disse o secretário, mantendo a pressão sobre o Brasil.

Governo brasileiro contesta acusações
A sobretaxa americana está fundamentada em uma investigação aberta pelo USTR, com base na Lei de Comércio de 1974. O escritório aponta seis áreas de preocupação com o Brasil: comércio digital, tarifas preferenciais, aplicação de leis anticorrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

Em resposta, o governo brasileiro, por meio de órgãos como o Ministério da Justiça (MJ), a Polícia Federal (PF) e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANDP), compilou relatórios detalhados para refutar as alegações. Sobre a acusação de que os esforços anticorrupção no Brasil enfraqueceram, o MJ afirma que “tais apontamentos não correspondem à realidade”. A pasta informa que, desde 2020, tramitaram quase 6.200 pedidos de cooperação jurídica internacional, sendo 430 ligados à lavagem de ativos e 182 a casos de corrupção. Somente em 2024, foram repatriados quase US$ 47 milhões de casos de corrupção, e desde 2020, o bloqueio de ativos relacionados, em sua maioria à lavagem de dinheiro, chegou a quase US$ 150 milhões.

A Polícia Federal, por sua vez, destacou a cooperação ativa com agências americanas como o FBI e a HSI. Para rebater a alegação de que o Brasil facilita a entrada de produtos falsificados, a PF informou que, em 2024, deflagrou 185 operações contra contrabando e descaminho. Em relação a produtos de interesse específico dos EUA, a corporação mencionou que, entre 2023 e 2025, “iniciou mais de mil investigações […] as quais resultaram na apreensão de aproximadamente 30 mil unidades de aparelhos iPhone”.

A PF também citou a apreensão de 108,9 milhões de maços de cigarros ilegais em 2024, em ações de parceria com as gigantes americanas do setor de tabaco, Philip Morris e Altria Group, com um impacto econômico evitado de cerca de R$ 594 milhões.

Risco de perdas na fruticultura
Para o setor produtivo, a indefinição é crítica. Guilherme Coelho, presidente da Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), saudou a possibilidade de isenção, mas alertou para o impacto devastador da sobretaxa de 50%. Segundo ele, o setor de manga conseguiria absorver uma tarifa de até 15%, mas o percentual ameaçado por Trump inviabilizaria as vendas. “Com sobretaxa de 50%, esquece”, afirmou.

O problema é agravado pelo calendário agrícola, já que a safra da manga Tommy, principal variedade exportada para os EUA, começa justamente em agosto. Coelho alerta que, se a tarifa for confirmada, a fruta poderá “apodrecer no pé”, pois não haveria mercado alternativo para escoar a produção. A operação de exportação de manga para os EUA, que envolve cerca de 20 mil trabalhadores, é complexa e leva 22 dias entre a colheita e a chegada ao consumidor americano. Anualmente, o Brasil envia 12 milhões de caixas da fruta para o mercado norte-americano.

As medidas contra o Brasil foram propostas e são defendidas pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Estratégia diplomática e planos de contingência
No campo político, o governo brasileiro adota uma postura de diálogo, mas sem submissão. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva só telefonará para Donald Trump quando houver uma sinalização de abertura para a conversa. “Não é um telemarketing, que você pega o telefone, dá um alô e se colar, colou”, disse.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou esperar um sinal de disposição dos EUA para negociar ainda nesta semana, mas ponderou que o prazo de sexta-feira não deve ser visto como um ponto final. “Pode entrar em vigor e nós nos sentarmos e rapidamente concluirmos uma negociação”, afirmou, revelando que um plano de contingência, com medidas para preservação de empregos, já foi apresentado a Lula.

O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, tem mantido conversas com o secretário de Comércio americano, Howard Lutnick, na tentativa de poupar setores como o de alimentos e também as aeronaves da Embraer, cujo principal mercado é o norte-americano.

Em um tom mais duro, o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, afirmou que o Brasil adotará “medidas de reciprocidade” caso as tarifas sejam implementadas e que os canais de diálogo com a Casa Branca estão “fechados”. “Já que eles não querem ter relação comercial com o Brasil, o Brasil também não precisa continuar comprando deles, pode comprar de outros países”, disse.

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