Neste 4 de março, data em que se marca o Dia Mundial da Obesidade, dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) revelam que 32,8% dos adultos atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Espírito Santo em 2025 apresentavam sobrepeso.
A Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) alerta que a condição não se restringe a uma faixa etária específica e constitui uma doença crônica não transmissível de origem multifatorial. O enfrentamento exige desde mudanças no estilo de vida até políticas públicas intersetoriais, uma vez que a obesidade é fator de risco direto para o desenvolvimento de outras patologias graves.
Definição, diagnóstico e riscos associados
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a obesidade como o excesso de gordura corporal em quantidade que determine prejuízos à saúde. O diagnóstico padrão é feito por meio do Índice de Massa Corporal (IMC), que divide o peso do indivíduo (em quilos) pela sua altura (em metros) elevada ao quadrado. O peso saudável é classificado com um IMC entre 18,5 e 24,9; o sobrepeso entre 25 e 29,9; e a obesidade é caracterizada por índices iguais ou superiores a 30.
“A Obesidade por muitos anos foi vista como apenas estar acima do peso na balança, mas hoje sabemos que é uma doença crônica, que envolve múltiplos fatores, como genética, hormonal, ambiental, e que é recidivante, ou seja, com chance de reganho de peso em períodos da vida. Portanto, deve ser acompanhada e tratada de forma contínua”, explica Alice Bravim, médica endocrinologista do Centro de Referência de Especialidades (CRE) Metropolitano.
A médica detalha que a obesidade agrava e desencadeia enfermidades em diversos sistemas do corpo. Entre os riscos estão o desenvolvimento de diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, complicações ortopédicas e pulmonares (como apneia do sono). Há também o aumento da probabilidade de ocorrência de cânceres, como os de mama, intestino e útero, além de forte correlação com impactos na saúde mental, a exemplo da depressão.
Alerta redobrado na infância e adolescência
Os dados do SISVAN demonstram que a condição atinge expressivamente o público infantil capixaba. Em 2025, entre crianças de 5 a 10 anos atendidas pelo SUS, 16,44% apresentaram sobrepeso e quase 10% (9,52%) foram diagnosticadas com obesidade.
A endocrinologista Alice Bravim alerta que as crianças obesas têm altíssimas chances de se tornarem adultos obesos, sofrendo precocemente com doenças antes restritas aos mais velhos, além de enfrentarem baixa autoestima.
Para combater esse cenário, o Estado atua de forma intersetorial. Raiany Boldrini, referência em Promoção da Saúde e nutricionista da Sesa, destaca o uso do Programa Saúde na Escola (PSE), uma política do Ministério da Saúde e da Educação, para conscientizar os jovens. “Aproveitamos o ambiente escolar para incentivar o desenvolvimento, por parte dos municípios, de ações de prevenção à saúde e também nutricional”, pontua Boldrini, reforçando que a manifestação da obesidade no início da vida aumenta a probabilidade de sua manutenção ao longo dos anos.
Prevenção e a porta de entrada para o tratamento
A prevenção primária envolve mudanças no estilo de vida. A Sesa e a OMS recomendam a melhora nas escolhas alimentares (priorizando alimentos in natura como frutas, verduras e legumes), ingestão adequada de água, manejo do estresse e do sono, além de evitar alimentos ultraprocessados e bebidas alcoólicas ou açucaradas. A prática regular de exercícios também é fundamental, com a indicação de 150 a 300 minutos de atividade aeróbica de intensidade moderada por semana para adultos.
Quando o tratamento médico se faz necessário, a porta de entrada no SUS é a Atenção Primária de Saúde (APS). O cidadão deve procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima para avaliação, exames iniciais e encaminhamento. O tratamento inicia-se com medidas não farmacológicas (orientação nutricional e exercícios). O uso de medicamentos atua como coadjuvante na prevenção secundária, visando impedir a progressão da doença.
Em casos de obesidade grave com falha no tratamento clínico e presença de comorbidades associadas ao IMC, a cirurgia bariátrica é indicada. Em 2025, o SUS realizou 788 procedimentos do tipo no Espírito Santo. Atualmente, a fila de espera conta com 89 pacientes, sendo a ampla maioria formada por mulheres (88%), contra 12% de homens, com uma média de idade de 45 anos.
Monitoramento e as causas sociais da doença
O monitoramento do estado nutricional da população (baixo peso, peso saudável, sobrepeso e obesidade) é feito por meio das medições de peso e altura durante os atendimentos na APS, alimentando o SISVAN. Em vídeo de orientação divulgado pela Sesa, a nutricionista Raiany Boldrini orienta sobre os cuidados contínuos e ressalta que o enfrentamento exige um olhar para além dos consultórios.
“A Obesidade não é somente um problema de saúde. Precisamos pensar no esforço que vá além dos muros da saúde pública, como o trabalho da qualidade de vida, da condição digna de vida, do combate à fome, do acesso à renda, pois muitas vezes a Obesidade é resultado da insegurança alimentar”, adverte a nutricionista. Com esse foco social e multifatorial, o Estado atua na Câmara Técnica de Alimentação e Nutrição do Espírito Santo (CTANES), integrando as áreas de Saúde, Esporte e Educação.
Radiografia do Estado Nutricional no ES (Dados SISVAN – 2025)
Adultos:
- Sobrepeso: 156.076 (32,8%)
- Obesidade Grau I: 107.786 (22,65%)
- Obesidade Grau II: 49.025 (10,3%)
- Obesidade Grau III: 28.560 (6%)
Adolescentes:
- Sobrepeso: 29.598 (19,35%)
- Obesidade: 18.264 (11,94%)
- Obesidade Grave: 5.819 (3,81%)
Crianças (de 5 a 10 anos):
- Sobrepeso: 19.664 (16,44%)
- Obesidade: 11.390 (9,52%)
- Obesidade Grave: 6.907 (5,77%)


















