O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou nesta segunda-feira (6), em tom de brincadeira, que só se preocupará com a adulteração de bebidas “no dia que começarem a falsificar Coca-Cola”. A declaração ocorreu durante uma coletiva de imprensa após uma reunião com representantes da indústria de bebidas para discutir a crise de intoxicação por metanol, que já causou mortes e levou o estado a concentrar mais de 82% dos casos investigados no país.
A reunião no Palácio dos Bandeirantes buscou alinhar ações entre o poder público e a iniciativa privada para combater as fraudes e restabelecer a segurança do consumidor. Segundo o governador, os fabricantes das principais marcas alvo de falsificação, como Jack Daniels e Johnny Walker, demonstraram grande interesse em colaborar com as investigações conduzidas pela Polícia Civil.
“Nós ouvimos uma vontade enorme de colaborar. Quem estava aqui eram os fabricantes, os maiores fabricantes, os maiores players do Brasil estavam na mesa”, disse Tarcísio, que completou em seguida: “No dia em que começarem a falsificar Coca-Cola, eu vou me preocupar… Ainda bem que ainda não chegaram nesse ponto. Coca-Cola, até aqui, não. E a minha é normal [com açúcar na fórmula]”.
O governador destacou que as empresas são vítimas da situação, enfrentando uma “crise de confiança” por parte dos consumidores. “As pessoas estão com medo. E precisamos restabelecer a confiança com ações integradas entre estado e iniciativa privada”, completou.
Números da crise
São Paulo é o epicentro da crise de saúde pública. De acordo com dados do Ministério da Saúde, o estado registra 15 casos confirmados de intoxicação por metanol e outros 164 permanecem sob análise, totalizando 179 notificações. Esse volume representa mais de 82% dos 217 casos notificados em todo o Brasil.
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Nacionalmente, há 12 mortes registradas associadas ao consumo de bebidas contaminadas. Duas delas foram confirmadas em São Paulo, e outras dez seguem em investigação, distribuídas entre São Paulo (6), Pernambuco (3), Mato Grosso do Sul (1), Paraíba (1) e Ceará (1). A morte mais recente em São Paulo, de uma mulher de 30 anos em São Bernardo do Campo, ainda não foi contabilizada no último balanço oficial. No total, 14 estados brasileiros possuem casos em investigação.
Linhas de investigação
A Polícia Civil de São Paulo trabalha com duas hipóteses principais para a contaminação das bebidas. A primeira, segundo o governador, é que o metanol tenha sido utilizado na higienização de garrafas de vidro reaproveitadas que não seguiram para o processo correto de reciclagem. A segunda possibilidade é o uso deliberado da substância para aumentar o volume de bebidas falsificadas, sendo que o fraudador poderia ter a intenção de usar etanol, mas adquiriu um produto contaminado com metanol sem saber.
A Superintendência de Polícia Técnico-Científica já confirmou, por meio de perícia, a presença de metanol em bebidas apreendidas em duas distribuidoras no estado. Em ações de fiscalização realizadas apenas na última semana, mais de 7 mil garrafas suspeitas foram recolhidas. Tarcísio de Freitas informou que solicitará à Justiça a autorização para destruir todo o material apreendido, incluindo garrafas, rótulos, lacres e selos.
Tanto o governador quanto o secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite, descartaram, por ora, a participação de facções criminosas como o PCC no esquema, argumentando que a atividade é considerada pouco lucrativa em comparação com outros crimes, como o tráfico de drogas.
O perigo do metanol e recomendações
O metanol é um tipo de álcool de uso industrial, presente em solventes e produtos químicos, e é altamente tóxico para o consumo humano. Sua ingestão ataca o fígado, que o metaboliza em substâncias que afetam a medula, o cérebro e o nervo óptico, podendo levar à cegueira, coma e morte. A substância também pode causar insuficiência renal e pulmonar.
Especialistas o definem como uma “substância traiçoeira”, pois não é possível identificá-lo na bebida pelo cheiro, cor ou sabor. A detecção só é possível através de testes laboratoriais. Os casos identificados até o momento envolvem principalmente bebidas destiladas, como vodca e gin. Bebidas como cerveja e vinho são consideradas de menor risco devido ao seu processo de produção e envase, sendo a cerveja em lata a opção mais segura contra adulterações.
As autoridades de saúde e segurança orientam a população a adotar as seguintes precauções:
. Desconfiar de preços muito abaixo do mercado;
. Comprar bebidas alcoólicas apenas em estabelecimentos comerciais conhecidos e de confiança;
. Verificar a integridade das embalagens, observando se há sinais de violação nos lacres, tampas tortas ou rótulos mal impressos e se a garrafa possui o selo fiscal;
. Sempre exigir a nota fiscal da compra.
Em caso de suspeita de intoxicação ou apresentação de sintomas após o consumo de bebidas, a recomendação é procurar imediatamente uma unidade de saúde e, se possível, informar a origem do produto para auxiliar nas investigações. A associação de bares e restaurantes (Abrasel) também orienta que os estabelecimentos inutilizem as garrafas vazias para impedir sua reutilização por falsificadores.


















