As investigações da Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura irregularidades envolvendo o Banco Master, identificaram elementos que apontam para o envolvimento de autoridades com foro privilegiado. Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) analisa o material apreendido para decidir se desmembra o processo, novas revelações surgem de depoimentos sigilosos e de desdobramentos empresariais envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e empresas ligadas a figuras públicas como Roberto Justus.
O inquérito, que teve sigilo de depoimentos levantado recentemente pelo ministro Dias Toffoli a pedido do Banco Central (BC), vive um momento decisivo. A seguir, detalhamos as frentes desta complexa investigação.
Indícios políticos e a “sombra” da Lava Jato
Investigadores confirmaram, sob condição de anonimato, que provas coletadas na primeira fase da operação contêm referências a lideranças partidárias e altas autoridades. O material foi obtido após a quebra de sigilos e apreensão de documentos e dispositivos eletrônicos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, alvo central da apuração.
As menções a políticos não estariam ligadas diretamente ao foco inicial do inquérito, a fabricação de carteiras fraudulentas de crédito consignado e sua venda para o BRB, mas sim a uma rede de relações construída por Vorcaro em Brasília. O banqueiro era conhecido por organizar encontros em uma mansão na capital federal, gerando tensão entre autoridades que temem a exposição de laços pessoais e financeiros.
A amplitude dessas conexões levou a comparações internas com a Operação Lava Jato, dada a possibilidade de a investigação atingir diversos espectros partidários. Inicialmente, o caso subiu ao STF após a defesa de Vorcaro citar uma referência ao deputado João Bacelar (PL-BA). Contudo, a PF agora mira outros nomes, incluindo membros do Congresso Nacional.
O destino do inquérito
Existe uma articulação interna no STF para retirar o caso da corte e enviá-lo à Justiça de primeiro grau, visando reduzir o desgaste institucional e a pressão da opinião pública. O ministro Edson Fachin, presidente do Supremo, chegou a realizar uma “ronda” entre os ministros, sinalizando uma tendência de saída do tribunal.
No entanto, a descoberta de menções a políticos deve forçar um “ajuste de rota”:
- Desmembramento: O inquérito sobre as fraudes no negócio BRB-Master, que está em fase avançada com relatório final iminente da PF, seria remetido à primeira instância.
- Permanência no STF: Uma nova frente de investigação, focada exclusivamente nos políticos com foro, continuaria sob supervisão do Supremo.
A decisão final depende da análise dos celulares apreendidos na segunda fase da operação. Estão sob escrutínio os aparelhos de:
- Daniel Vorcaro: Dono do Master.
- Fabiano Zettel: Cunhado de Vorcaro, com conexões políticas.
- Nelson Tanure: Investidor e consultor.
- Augusto Lima: Advogado ligado à operação de crédito.
O ministro Dias Toffoli, relator do caso, indicou que aguarda o conteúdo dessas mensagens para definir a competência do julgamento.
Divergências sobre fraude de R$ 12,2 Bilhões
Em dezembro, uma acareação realizada no STF colocou frente a frente Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. O ponto central da discussão foi a origem de carteiras de crédito “podres” que causaram prejuízos bilionários ao banco estatal.
- A versão do BRB: Paulo Henrique Costa afirmou que o banco acreditava estar comprando carteiras originadas pelo próprio Banco Master. Segundo ele, apenas entre abril e maio do ano passado, análises técnicas identificaram um padrão documental distinto, revelando que os créditos vinham, na verdade, da consultoria Tirreno. “Identificamos que tinha um padrão documental diferente. E a partir daí é que a gente começou a questionar quem eram os originadores específicos”, disse Costa.
- A versão do Master: Vorcaro contestou, alegando que o BRB foi informado previamente. “Acho que a gente chegou a conversar por algumas vezes que a gente começaria um novo formato de comercialização que seria de terceiros”, defendeu-se o banqueiro.
A investigação aponta que o Master adquiriu carteiras da Tirreno sem pagamento e as revendeu ao BRB. O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, classificou a operação como tecnicamente impossível. Em depoimento, Aquino relatou que representantes da Tirreno alegaram gerar R$ 6,2 bilhões em crédito, embora a empresa fosse pequena e desconhecida. “Isso é impossível do ponto de vista técnico”, afirmou o diretor.
O BC estima que o BRB precise provisionar (reservar) cerca de R$ 5 bilhões para cobrir o rombo. Até o momento, o banco do Distrito Federal já reservou R$ 2,6 bilhões.
Polêmica do celular e vazamentos
Durante a acareação, a defesa de Daniel Vorcaro recusou-se a entregar a senha do celular do banqueiro à delegada Janaína Palazzo. O advogado Roberto Podval justificou a recusa citando a “insegurança jurídica” causada por vazamentos de informações.
Segundo a defesa, perguntas feitas pelo ministro Toffoli em uma audiência anterior foram publicadas pela imprensa apenas 20 minutos após o término do ato judicial sigiloso. Por precaução, Vorcaro compareceu à acareação sem portar o aparelho telefônico.
Além disso, Vorcaro foi evasivo ao ser questionado pela PF sobre bens no exterior, limitando-se a dizer que o banco estava iniciando um processo de internacionalização e que seus bens no Brasil estão declarados.
Roberto Justus e a Steelcorp
As ramificações do caso Master atingiram também o setor empresarial de construção civil. O empresário Roberto Justus, CEO da Steelcorp, revelou ter descoberto apenas recentemente que o Banco Master era seu sócio oculto desde 2023.
A Steelcorp recebeu um aporte de R$ 75 milhões do fundo “SH Fundo de Investimentos”, administrado pela gestora Reag. Justus afirma que, devido às regras da CVM sobre anonimato, não sabia que o cotista único do fundo era o Banco Master. “Eu nunca entendi por que não podia saber quem eram os cotistas”, declarou o empresário.
Após a Operação Carbono Oculto, que investigou a Reag, o fundo entrou em liquidação e a participação na Steelcorp foi transferida. Justus descobriu que os 10% da empresa que pertenciam ao fundo agora estão sob controle do BRB. O empresário aportou R$ 300 milhões para retomar o controle de 90% da companhia e afirmou não querer “sócios tóxicos” em seu negócio, buscando desfazer a ligação com as instituições financeiras investigadas.


















