O governo federal e movimentos sociais intensificaram, na primeira semana de março de 2026, em Brasília, as articulações para aprovar no Congresso Nacional o fim da escala de trabalho 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso). A transição para um modelo 5×2, com a redução da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, é apontada como peça-chave para combater a exaustão da classe trabalhadora e, de forma mais aguda, a dupla jornada feminina.
O tema foi o eixo central do pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em cadeia nacional no último sábado (7), véspera do Dia Internacional da Mulher, ocasião em que também foram anunciadas novas ofensivas governamentais contra a violência de gênero e o mercado de apostas virtuais.
O peso da escala 6×1 e o recorte de gênero
A defesa da alteração constitucional baseia-se no impacto desproporcional do atual regime sobre as mulheres, que frequentemente acumulam o trabalho formal com o trabalho de cuidados não remunerado.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua de 2022, do IBGE, indicam que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas, ante 11,7 horas dos homens. A disparidade de 9,6 horas é ainda maior entre mulheres pretas e pardas, que trabalham 1,6 hora a mais por semana do que mulheres brancas nessas funções.
A secretária Nacional de Articulação do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, afirma que o fim da jornada 6×1 pode induzir uma redivisão das tarefas no lar. “O cuidado tem que ser compartilhado. Isso não é uma questão só cultural. É também de os homens terem mais tempo em casa para compartilharem o cuidado”, declara.
Nas bases operacionais, o cansaço pauta os relatos. A cobradora de ônibus Denise Ulisses, 46, que atua no Distrito Federal há 15 anos no regime 6×1, relata o peso da rotina ao criar os dois filhos. “Quando as crianças eram pequenas, foi bem pesado”, relembra ela, que planeja passar fins de semana inteiros em um sítio caso a lei mude. Tiffane Raany, auxiliar de serviços gerais, trabalha 11 horas diárias (com uma de almoço) e desembolsa R$ 350 mensais para uma cuidadora ficar com o filho de 7 anos. A exaustão a forçou a trancar a faculdade de educação física no quarto semestre.
Na última quinta-feira (5), a Articulação Nacional de 8 de Março, com apoio de mais de 300 organizações, entregou um manifesto ao Ministério das Mulheres classificando a escala 6×1 como um modelo que “rouba o tempo, adoece corpos e aprofunda desigualdades”. O fim da escala também é alvo de uma petição pública do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que já acumula quase 3 milhões de assinaturas desde setembro de 2023.
Embate econômico e tramitação no Legislativo
Enquanto uma pesquisa da Nexus (janeiro e fevereiro de 2026) aponta que 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1 com manutenção salarial, representantes do setor produtivo rejeitam a proposta e projetam impactos negativos na economia.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula aumento de custos de até R$ 267 bilhões por ano, equivalente a um acréscimo de cerca de 7% na folha de pagamentos, com potencial de reduzir a atividade econômica.
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima risco a 631 mil empregos formais, possível alta de até 13% nos preços ao consumidor e elevação de custos de R$ 122,4 bilhões anuais no comércio. As entidades defendem que mudanças na jornada ocorram por meio de negociação coletiva.
Em contraponto, estudo do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), da Unicamp, projeta que 37% dos trabalhadores seriam beneficiados. A economista Marilane Teixeira estima potencial de criação de 4,5 milhões de empregos, além de aumento de produtividade.
No Congresso, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou em fevereiro uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A expectativa é que o texto seja levado ao plenário em maio.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, já sinalizou que o Executivo pode enviar um projeto de lei com urgência caso a tramitação da PEC se prolongue.
Ofensiva política de Lula e o impacto das apostas
O eleitorado feminino, apontado por pesquisas como crucial para a vitória petista em 2022 e que ainda hoje mantém avaliações mais positivas do governo do que os homens (30% de ótimo/bom contra 28%, segundo o Datafolha), foi o público-alvo do pronunciamento de Lula na TV e no rádio.
O presidente adotou o fim da escala 6×1 como uma “pauta da mulher brasileira”, afirmando que a mudança significa “mais tempo para estudar, descansar e viver”. Lula também mirou os cassinos digitais, especificamente o “Jogo do Tigrinho”. Segundo o presidente, embora os homens sejam a maioria dos apostadores, as consequências financeiras recaem sobre as mulheres. “É o dinheiro da comida, do aluguel, da escola das crianças que desaparece na tela do celular”, declarou, prometendo atuação conjunta entre Executivo, Legislativo e Judiciário contra o endividamento familiar causado pelas plataformas.
A tentativa de aproximação ocorre após episódios em que declarações do presidente foram criticadas como machistas ao longo do mandato, a exemplo de quando chamou a presidente do FMI de “mulherzinha” ou quando associou o aumento da violência doméstica a derrotas em partidas de futebol.
Violência contra a mulher e segurança digital
No campo da segurança pública, o cenário nacional segue grave. Dados de 2025 indicam um recorde de quatro mulheres assassinadas por dia no Brasil, uma a cada seis horas. Em resposta, o governo federal detalhou ações do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio.
Entre as medidas operacionais divulgadas estão:
- Realização de um mutirão, em parceria com os estados, para prender mais de 2.000 agressores.
- Implementação de rastreamento eletrônico para agressores de vítimas com medidas protetivas.
- Criação do Centro Integrado da Segurança Pública para unificar dados.
- Expansão das Casas da Mulher Brasileira (com a 12ª unidade inaugurada em Macapá no domingo, dia 8) e das “Cuidotecas” em Institutos Federais.
Para complementar a rede de proteção, Lula anunciou que o Estatuto Digital das Crianças e Adolescentes (ECA Digital) entrará em vigor no dia 17 de março, obrigando as plataformas a coibirem exploração sexual, violência e publicidade predatória. Novas medidas focadas no combate ao assédio online contra mulheres e meninas também estão previstas para serem anunciadas ainda neste mês.


















