O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta quarta-feira (28), na Cidade do Panamá, a integração entre os países da América Latina e do Caribe e criticou o uso da força nas relações internacionais. Durante a abertura do Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe 2026, o chefe do Executivo brasileiro condenou o que classificou como “intervenções militares ilegais” e ações “neocoloniais”, em referência direta às recentes movimentações dos Estados Unidos na região.
O discurso ocorre em um momento de tensão diplomática no continente. Recentemente, forças norte-americanas, sob o comando do presidente Donald Trump, capturaram o ex-ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, levando-o para julgamento em solo americano. Além disso, Washington tem exercido pressão para restringir o acesso da China ao Canal do Panamá, via estratégica para o comércio global.
“A história mostra que o uso da força jamais pavimentará o caminho para superar as mazelas que afligem esse hemisfério que é de todos nós”, declarou Lula. “A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos e retrocessos históricos.”
Críticas a doutrinas e paralisação regional
Sem citar nomes diretamente em alguns trechos, mas fazendo alusões claras ao cenário geopolítico atual, Lula mencionou o surgimento de “corolários e doutrinas”. O contexto envolve a tentativa do governo Trump de emplacar a chamada “Doutrina Donroe”, uma releitura da Doutrina Monroe e do Corolário Roosevelt, que historicamente justificaram a intervenção dos EUA nos países vizinhos.
O presidente brasileiro cobrou uma postura mais ativa dos organismos multilaterais regionais, citando especificamente a inoperância da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). “A Celac não consegue produzir nem mesmo uma única declaração contra intervenções militares ilegais que abalam nossa região”, afirmou.
Lula argumentou que o isolacionismo torna as nações mais vulneráveis. “Não há nenhuma possibilidade de qualquer país da América Latina sozinho achar que vai resolver os problemas”, disse. “Guiados pelo pragmatismo, podemos superar divergências ideológicas e construir parcerias sólidas e positivas dentro e fora da região. Essa é a única doutrina que nos convém. Seguir divididos nos torna todos mais frágeis.”
Contraponto histórico e economia
Apesar das críticas à atual política externa de Washington, Lula utilizou um exemplo histórico dos próprios Estados Unidos para sugerir um caminho alternativo. O presidente relembrou o governo de Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) e sua política de “boa vizinhança”, que priorizava a diplomacia em detrimento da força militar.
Lula citou as “quatro liberdades fundamentais” defendidas por Roosevelt, liberdade de expressão, de culto, contra privações e contra o medo, como pilares para a defesa da democracia. A fala antecede um encontro previsto entre Lula e Donald Trump para o início de março.
No campo econômico, o presidente apresentou dados do Brasil para atrair investidores. Destacou o controle da inflação, o menor índice de desemprego da história e a assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, após 26 anos de negociações. O tratado abrange um mercado de 720 milhões de pessoas. Lula também ressaltou a neutralidade do Canal do Panamá e a necessidade de obras de infraestrutura para a integração sul-americana.
“Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é contra a fome e a desigualdade. E as únicas armas a empregar são as dos investimentos, da transferência de tecnologia e do comércio justo e equilibrado”, completou.
Agenda bilateral
A passagem de Lula pelo Panamá inclui uma série de reuniões com líderes de diferentes espectros políticos, reforçando a tese do “regionalismo possível” e do pragmatismo citados no discurso.
Nesta quarta-feira, o presidente brasileiro já se reuniu com o presidente eleito do Chile, o direitista José Antonio Kast. A agenda prevê ainda encontros com o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, opositor de movimentos de esquerda no país andino, e com o anfitrião, o presidente do Panamá, José Raúl Mulino.
Lula retorna ao Brasil ainda hoje, após o encerramento dos compromissos oficiais.


















