política

Governo mira ‘coração financeiro’ do crime e detalha nova estratégia

29 ago 2025 - 08:30

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo, com informações de Agência Brasil e Folha de S. Paulo

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Em entrevista, ministro Ricardo Lewandowski explica como operações focaram na descapitalização de facções. Nos bastidores, governos Federal e de São Paulo disputam capital político sobre os resultados
Governo mira 'coração financeiro' do crime e detalha nova estratégia. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Os ministros da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, e da Fazenda, Fernando Haddad, detalharam nesta quinta-feira (28) a nova estratégia do Governo Federal de focar na descapitalização de organizações criminosas como o método mais eficaz de combate ao crime. As declarações foram dadas após a deflagração de três operações simultâneas que investigam um esquema bilionário de lavagem de dinheiro. A divulgação dos resultados, no entanto, foi marcada por uma disputa política entre o governo do presidente Lula (PT) e a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo pelos méritos das ações.

Em entrevista ao programa A Voz do Brasil, Lewandowski explicou que a sofisticação do crime, que migrou da ilegalidade para negócios formais, exigiu uma nova abordagem do Estado. “O crime se sofistica e o Estado tem que sofisticar a sua ação contra o crime”, afirmou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em outra frente, complementando a visão do governo. “Se você prende uma pessoa, mas o dinheiro fica à disposição do crime, essa pessoa presa vai ser substituída por outra”, disse Haddad, ressaltando que a ação foi exemplar por “conseguir chegar no andar de cima do sistema”.

‘Sufocar financeiramente o crime’
Na entrevista, Ricardo Lewandowski detalhou o planejamento que levou às operações. Segundo ele, o governo percebeu que os instrumentos tradicionais de repressão policial já não eram suficientes para enfrentar a complexidade do crime organizado, que hoje envolve análises financeiras, contábeis e fiscais.

Para isso, foi criado em 17 de janeiro um núcleo de combate ao crime organizado no Ministério da Justiça e Segurança Pública. O ministro revelou que uma reunião decisiva ocorreu em 5 de fevereiro de 2025, com a participação de múltiplos órgãos como Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Receita Federal, Coaf e Ministério de Minas e Energia, para focar na infiltração de facções no setor de combustíveis.

“Nós entendemos que a participação, sobretudo da Receita Federal, era importantíssima. Então, nós verificamos que esse dinheiro auferido com atividades ilegais no setor de combustível era lavado, esse dinheiro era lavado por meio das Fintechs e por meio de administradoras de fundos financeiros”, declarou Lewandowski.

O ministro enfatizou que o objetivo principal é a asfixia financeira dos grupos. “Hoje, a grande preocupação que os órgãos de segurança têm é com a descapitalização do crime organizado. O crime organizado precisa ser sufocado financeiramente e este foi um exemplo de uma operação, ou de várias operações, bem-sucedidas nesse sentido.”

Questionado sobre o alcance da ação, Lewandowski afirmou que, até o momento, foram identificados os “supostos responsáveis por essa lavagem de dinheiro”, como gerentes e proprietários de fintechs e administradoras de fundos. “Nós descobrimos a ponta desse iceberg e vamos, agora, descobrir a base, quem está na base. Já conseguimos identificar mais de mil postos de gasolina que estavam envolvidos nesse esquema”, explicou. O material apreendido nos mais de 400 mandados de busca e apreensão será agora analisado para possíveis novos desdobramentos e prisões.

Disputa por capital político
Enquanto os ministros detalhavam a estratégia em Brasília, uma disputa de narrativas ocorria entre o Palácio do Planalto e o governo de São Paulo. A decisão do governo Lula de “turbinar” a divulgação das ações ocorreu após saber que o secretário de Segurança Pública de Tarcísio, Guilherme Derrite (PP), participaria da coletiva de imprensa sobre a principal operação do dia, a Carbono Oculto, em São Paulo.

A presença de Derrite, convidado pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), incomodou o governo federal. Duas entrevistas coletivas foram marcadas para o mesmo horário, às 11h, uma em Brasília e outra na capital paulista, evidenciando a disputa por quem capitalizaria politicamente os resultados.

Fontes do governo federal viram a participação do secretário como uma tentativa de Tarcísio de se aproveitar do tema, enquanto aliados do governador paulista defenderam que a presença de Derrite é rotineira, já que a Polícia Militar cumpre os mandados judiciais, e acusaram o Planalto de tentar se apropriar de um trabalho alheio.

A divisão ficou clara nas redes sociais. O presidente Lula e canais oficiais do governo empacotaram as três operações como uma ação única, com destaque para a Polícia Federal. Tarcísio, por sua vez, divulgou um vídeo enaltecendo o trabalho do Gaeco, do MP-SP.

Procurado, Derrite afirmou em nota que foi convidado pelo MP-SP e que a coletiva visava apresentar os dados do trabalho. A Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência negou que a entrevista em Brasília tenha sido uma reação, afirmando que o foco do governo “é a cooperação federativa”.

Balanço das operações
As ações, batizadas de Quasar, Tank e Carbono Oculto, foram realizadas de forma integrada pelos Ministérios da Justiça e da Fazenda, Receita Federal e outros órgãos. Elas revelaram um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal que utilizava postos de combustíveis, fintechs como bancos paralelos e fundos de investimento fraudulentos para ocultar e movimentar o dinheiro do crime.

Segundo Lewandowski, as operações identificaram R$ 140 bilhões em movimentações ilícitas e conseguiram o bloqueio e sequestro de mais de R$ 3,2 bilhões em bens e valores.

O balanço inclui:
. 14 mandados de prisão cumpridos.
. Sequestro de 192 imóveis, incluindo seis fazendas de R$ 31 milhões e uma casa de R$ 13 milhões.
. Apreensão de 141 veículos e sequestro judicial de outros 1.500.
. Bloqueio de 21 fundos de investimento.
. Apreensão de mais de R$ 300 mil em espécie.

A Receita Federal, em nota, responsabilizou campanhas de desinformação contra o Pix, em janeiro, pelo atraso na implementação de medidas que poderiam ter fechado brechas usadas pelos criminosos.

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Atualizado: 29/08/2025 09:38

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