A escalada da guerra no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã fizeram os preços do petróleo atingirem, nesta segunda-feira (9), o maior valor desde 2022, com o barril operando na casa dos US$ 120 durante o pregão. Diante da forte instabilidade internacional e da restrição de oferta provocada por cortes de países da Opep, a Petrobras anunciou que utilizará sua atual margem de manobra comercial para tentar evitar o repasse imediato da alta aos combustíveis no Brasil, enquanto potências do G7 decidiram, por ora, reter suas reservas estratégicas de emergência.
O salto nos preços e o bloqueio no Oriente Médio
Os desdobramentos do conflito, intensificados desde que os Estados Unidos e Israel bombardearam o Irã no final de fevereiro, causaram um choque no mercado de energia. Durante a sessão de segunda-feira, os preços chegaram a subir 29%. O barril tipo Brent bateu US$ 119,50, e o West Texas Intermediate (WTI) atingiu US$ 119,48, os maiores valores intradiários desde junho de 2022. Ao fim do dia, os contratos fecharam com alta de cerca de 7%, cotados a US$ 98,96 (Brent) e US$ 94,77 (WTI), recuando após declarações americanas, mas mantendo-se bem acima da média de US$ 70 anterior ao conflito.
A crise foi agravada pelo fechamento quase total do Estreito de Ormuz, rota por onde trafegam cerca de 25% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo. Em resposta à expansão da guerra, a Saudi Aramco, gigante saudita, iniciou o corte de produção em dois campos petrolíferos, acompanhada por reduções de Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuweit e Catar, que enfrentam falta de armazenamento devido ao bloqueio logístico. A empresa de análise Kpler estima que, mesmo com uma reabertura imediata do estreito, as exportações do Golfo levariam de seis a sete semanas para normalizar.
“Além dos desafios da travessia do Estreito de Ormuz, uma parcela substancial da produção de petróleo foi reduzida. Isso está criando riscos significativos e crescentes para o mercado”, alertou Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE).
A estratégia da Petrobras no mercado interno
No Brasil, a Petrobras emitiu um comunicado informando que pode reduzir os efeitos da inflação global gerada pelo petróleo, preservando sua rentabilidade. Segundo a estatal, a estratégia comercial atual leva em conta as melhores condições de refino e logística.
“Em um cenário em que guerras e tensões geopolíticas ampliam a volatilidade do mercado internacional de energia, a Petrobras reafirma seu compromisso com a mitigação desses efeitos sobre o Brasil”, afirmou a companhia em nota. “O que nos permite promover períodos de estabilidade nos preços ao mesmo tempo que resguarda a nossa rentabilidade de maneira sustentável. Essa abordagem reduz a transmissão imediata das variações internacionais para o mercado brasileiro”.
A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo (Ineep), Ticiana Álvares, explica que essa contenção é viável porque a empresa abandonou, em 2023, a Política de Paridade de Importação (PPI). “A política da Petrobras acompanhava 100% a trajetória dos preços internacionais. Essa política modificou e agora leva em consideração fatores internos, que é essa margem de manobra que a Petrobras tem”, disse a especialista.
Contudo, Álvares adverte que o efeito protetor é temporário e limitado, já que o Brasil importa derivados como gasolina e diesel e possui unidades privadas. “A refinaria da Bahia, a Rlam, foi privatizada. Logo, você tem menos mecanismos de segurar o preço dessas refinarias que foram privatizadas do que, por exemplo, a Petrobras tem”, concluiu.
Reação das potências globais e G7
O cenário mobilizou os ministros das finanças do G7 (EUA, Alemanha, França, Itália, Japão, Canadá e Reino Unido), que se reuniram na segunda-feira para debater a crise. O grupo avaliou a utilização de cerca de 1,8 bilhão de barris de reservas estratégicas e governamentais, mas decidiu aguardar.
“Ainda não chegamos lá [na liberação das reservas]. O que acordamos foi usar todas as ferramentas necessárias, se preciso for, para estabilizar o mercado, incluindo a possível liberação dos estoques necessários”, declarou o ministro da Economia francês, Rolando Lescure.
Na Europa, governos preparam medidas de contenção. O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou o envio de uma dúzia de navios de guerra e um porta-aviões ao Mar Vermelho em uma operação “puramente defensiva” para garantir “a livre navegação e segurança marítima”. Simultaneamente, o chanceler alemão, Friedrich Merz, demonstrou preocupação com o custo da energia e o governo de Berlim estuda impor limites rigorosos aos reajustes de preços aplicados pelas petroleiras no país.
Troca de acusações e riscos macroeconômicos
A tensão geopolítica segue sem perspectiva de fim imediato. No Irã, a ascensão do novo líder supremo, aiatolá Mojtaba Khamenei, foi marcada por demonstrações de força nas ruas. O presidente do Legislativo iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, responsabilizou Washington e Tel Aviv pela crise econômica.
“O impacto econômico dessa guerra, que se alastra para a infraestrutura em toda a região e no mundo, será vasto e duradouro. O preço do petróleo pode permanecer acima de US$ 100 por algum tempo. A política de Donald Trump pode levar à ruína não só a América, mas o mundo inteiro”, afirmou Ghalibaf.
Em contrapartida, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, justificou a alta dos preços como um custo “muito pequeno” a ser pago “pela segurança e paz dos EUA e do mundo”, acrescentando que “só os tolos pensariam diferente”. Trump ameaçou o Irã com ataques “vinte vezes mais forte”, capazes de tornar “praticamente impossível a reconstrução do Irã como nação” caso o bloqueio em Ormuz continue, mas previu que as cotações do petróleo cairão assim que a “ameaça” iraniana for eliminada.
Apesar da turbulência, a mudança na geografia do fornecimento global de petróleo pode abrir espaço para o Brasil atuar como fornecedor alternativo, avalia Ticiana Álvares, do Ineep. A Ásia, destino de 80% do petróleo que transitou por Ormuz em 2025, será a região mais afetada inicialmente. No entanto, se a guerra se prolongar, o risco de uma inflação global ou recessão econômica severa atingirá também a economia brasileira.


















