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Manoel Carlos, criador das icônicas ‘Helenas’ e cronista do Leblon, morre aos 92 anos no Rio

10 jan 2026 - 21:15

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Autor enfrentava a Doença de Parkinson e estava internado em Copacabana. Responsável por sucessos como ‘Laços de Família’ e ‘Por Amor’, dramaturgo deixa um legado de realismo cotidiano e comoção nacional
Manoel Carlos, criador das icônicas ‘Helenas’ e cronista do Leblon, morre aos 92 anos no Rio. Foto: Estavam Avella / Globo

Um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira, o autor e escritor Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, conhecido popularmente como Maneco, morreu neste sábado (10), aos 92 anos, no Rio de Janeiro. O dramaturgo estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, onde realizava tratamento contra a Doença de Parkinson, condição diagnosticada há cerca de seis anos e que, no último ano, afetou seu desenvolvimento motor e cognitivo.

A morte foi confirmada pela família, mas a causa específica não foi divulgada. Em nota oficial, os familiares agradeceram o apoio recebido: “A família agradece as manifestações de carinho e solicita respeito e privacidade neste momento delicado”. O velório será fechado, restrito apenas a familiares e amigos íntimos.

Manoel Carlos deixa a esposa, Elisabety Gonçalves de Almeida, com quem era casado desde 1981, e duas filhas: a atriz Júlia Almeida e a roteirista Maria Carolina. O autor estava aposentado da televisão desde 2014, quando escreveu sua última novela, “Em Família”, e vivia recluso na Zona Sul do Rio.

O cronista do cotidiano
Nascido em São Paulo em 14 de março de 1933, mas autodeclarado “carioca de coração”, Manoel Carlos construiu uma carreira marcada pela observação minuciosa do comportamento humano. Suas tramas eram frequentemente ambientadas no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, cenário que, sob sua pena, tornou-se quase um personagem mitológico.

Maneco iniciou a vida profissional aos 14 anos como auxiliar de escritório, mas logo ingressou no meio artístico. Aos 17 anos, estreou como ator no “Grande Teatro Tupi” e participou do grupo “Adoradores de Minerva”, que se reunia na Biblioteca Municipal de São Paulo para discutir arte, ao lado de nomes como Fernanda Montenegro e Fernando Torres.

Sua trajetória na TV Globo começou em 1972, como diretor-geral do “Fantástico”. No entanto, foi como autor de novelas que ele marcou a cultura nacional, consolidando um estilo que mesclava o folhetim clássico com uma abordagem de crônica realista.

“Dizem que eu faço uma dramaturgia realista, naturalista, mas eu não acho nada disso. Procuro apenas fazer uma coisa verossímil. O amor se parece em todas as línguas (…) E eu retrato só essas coisas”, explicou o autor em entrevista à GloboNews em 2016.

As eternas Helenas
A marca registrada de sua obra foi a figura da “Helena”. Iniciada em 1981 com Lilian Lemmertz na novela “Baila Comigo”, a tradição seguiu até 2014, encerrando-se com Júlia Lemmertz (filha de Lilian) em “Em Família”.

As Helenas de Maneco eram descritas como heroínas, mães abnegadas, mas humanas, falhas e dispostas a tudo por amor. Entre as atrizes que deram vida à personagem estão Maitê Proença (Felicidade), Regina Duarte (História de Amor, Por Amor e Páginas da Vida), Vera Fischer (Laços de Família), Christiane Torloni (Mulheres Apaixonadas) e Taís Araújo (Viver a Vida), a primeira Helena negra do autor.

“Elas são mentirosas, elas escamoteiam a verdade em benefício de um filho, por exemplo. Elas defendem um filho até a injustiça”, definiu o próprio autor ao Fantástico, em 2014, sobre a complexidade de suas protagonistas.

Impacto social e cenas memoráveis
As obras de Manoel Carlos ficaram conhecidas pelo forte apelo de “merchandising social”, abordando temas delicados que pautaram discussões no país.

Laços de Família (2000): A cena em que a personagem Camila (Carolina Dieckmann) raspa a cabeça devido à leucemia tornou-se icônica e impulsionou as doações de medula óssea no Brasil. Na trama, a Helena vivida por Vera Fischer engravida para salvar a filha.

Mulheres Apaixonadas (2003): Abordou a violência urbana, com a morte da personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli) em um tiroteio no Leblon, e os maus-tratos contra idosos, através da vilã Dóris (Regiane Alves), o que ajudou a acelerar a aprovação do Estatuto do Idoso.

Por Amor (1997): Trouxe o dilema ético da troca de bebês, onde a mãe (Regina Duarte) entrega seu filho vivo para a filha (Gabriela Duarte) que havia perdido o dela no parto.

Repercussão e despedida
A morte de Manoel Carlos gerou comoção na classe artística. Colegas e atores que interpretaram seus personagens prestaram homenagens.

O autor Aguinaldo Silva declarou: “Manoel Carlos partiu rumo ao céu dos novelistas. Mas a longa e balzaquiana crônica que ele escreveu sobre a classe média urbana brasileira ficará aqui, viva”.

A atriz Vera Fischer relembrou a importância de seu papel: “Era uma mulher generosa, corajosa, com um amor pelos filhos desmesurado, assim como tenho pelos meus”. Já Mateus Solano, que trabalhou com o autor em Viver a Vida e Maysa, destacou a poesia do texto de Maneco: “É um autor que se demora nas humanidades que nos atropelam no dia a dia”.

Além do legado profissional, Manoel Carlos enfrentou tragédias pessoais com a perda de três filhos: o dramaturgo Ricardo de Almeida (1988), o diretor Manoel Carlos Júnior (2012) e o estudante Pedro Almeida (2014). Maneco deixa uma obra vasta, composta por mais de 15 novelas e minisséries, incluindo sucessos como Presença de Anita e Maysa: Quando Fala o Coração, perpetuando-se como um dos cronistas mais sensíveis da televisão brasileira.

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Atualizado: 12/01/2026 08:58

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