Não, não é brincadeira. Quando um homem diz que mulher casada não pode sair de casa para encontrar amigos, não, não é brincadeira. Quando ele reclama da saia que está curta demais e que outros homens vão desejá-la por causa disso, isso está bem longe de ser brincadeira.
Não merece risadinha, muito menos reforço. Não é brincadeira quando seu namorado fala depreciativamente do estilo de cabelo que você escolheu para si. Não, não é brincadeira quando ele fala mal de você, na sua frente, para tirar risos dos amigos. Nunca será brincadeira quando ele lhe exige uma tarefa doméstica que ele se recusa a fazer, por se achar inadequado.
Jamais será brincadeira quando soltam uma piada de mulher no trânsito, ou quando ouvem um comentário feminino sobre futebol e riem. Nunca será brincadeira quando, casados, eles veem uma outra mulher bonita na rua e descaradamente se oferecem para ela. Não, não é brincadeira quando buscam se auto afirmar na frente dos amigos falando de uma colega de trabalho ou da vizinha da rua.
Não, mulher, não é brincadeira quando sua sogra reclama exclusivamente com você por não estar cozinhando correto para seu marido, ou que a casa está suja quando ela chega. Não é brincadeira quando o filho pequeno chora e a única coisa que você ouve do outro lado da cama é uma resmungão fingindo que dorme, sem se prontificar a levantar.
Não, nunca será brincadeira quando um homem insinua que a mulher apanha porque ela procurou, pela roupa que usou ou pelo local que andou.
Não é brincadeira quando o estupro é visto, antes de tudo, como culpa da mulher; a violência doméstica é culpa da mulher; o xingamento contra mulher é visto como normal e ela, apenas muito sensível; a discriminação é vista como coisa da sua cabeça, com síndrome de perseguição.
Nunca será brincadeira a mulher ser impedida de sair de casa porque o marido não deixou, não poder ter amigos porque o marido não quer, não poder se vestir como desejar porque o marido não gosta, não escolher o estilo que quiser porque o marido reclama.
Não é brincadeira receber a exigência de um homem para estar sempre magra, receber indiretas – ou até diretas – que está feia, que é burra, que não serve para nada e que não faz nada direito.
Nunca será apenas brincadeira. E se alguma vez você ouvir de um homem publicamente uma atrocidade contra mulher e este homem disser que é apenas brincadeira, saiba que ali não existe um palhaço, mas sim um criminoso.
RACHEL POUBEL
Terapeuta para Mulheres e Organizadora do Movimento Mulher de Identidade.


















