Na próxima terça-feira (30), o Governo do Espírito Santo e a fabricante de automóveis Great Wall Motors (GWM) anunciam oficialmente a instalação da segunda fábrica da montadora no Brasil. O evento de lançamento do projeto ocorrerá das 10h às 12h30, em um terreno na rodovia ES 257, KM 33, no bairro Barra do Riacho, em Aracruz, onde o governador Ricardo Ferraço entregará aos executivos da empresa, liderados pelo CPO Global da GWM, Mr. Meng, a autorização para o início do empreendimento voltado à produção de veículos eletrificados.
Detalhes do projeto e capacidade de produção
A nova unidade fabril será construída de maneira faseada em uma área de 1,74 milhão de metros quadrados, desapropriada e doada pelo governo estadual por meio do Decreto nº 125-S, de 26 de janeiro de 2026. O local foi declarado de utilidade pública para a implantação de um projeto industrial estratégico integrado à estrutura logística do ParklogBR/ES. A supressão da vegetação já foi iniciada e, por se tratar de um terreno situado em um polo industrial consolidado (próximo à Suzano, à Seatrium e de portos), a expectativa é de que as licenças ambientais sejam liberadas nos próximos meses.
O investimento total na planta capixaba é estimado na casa dos R$ 5 bilhões, embora o valor exato ainda esteja em fase de definição. Segundo o chefe de operações (COO) da GWM Brasil, Diego Fernandes, os recursos configurarão um novo aporte que se somará aos R$ 10 bilhões do plano de investimentos inicial da montadora (2022 a 2032). Deste montante, R$ 4 bilhões já foram aplicados na primeira fábrica da companhia no país, localizada em Iracemápolis (SP) e inaugurada em 2025.
A expectativa da GWM é que os primeiros carros saiam da linha de montagem de Aracruz em 2029. Quando atingir a capacidade máxima, a fábrica deverá produzir 200 mil veículos por ano para abastecer o mercado brasileiro, a América Latina e, possivelmente, a União Europeia. A produção será focada em uma nova geração de produtos, consolidando a estratégia multienergia da marca (híbridos, híbridos plug-in e elétricos puros). A base de fabricação atenderá a família Ora 5 e um inédito SUV 100% elétrico para o mercado nacional construído sob a plataforma Guiyuan (GWM One). O ORA 5 atuará como peça central da estratégia, posicionado como um crossover compacto elétrico acima do ORA 03. Rumores sobre a fabricação do modelo antigo H4 foram descartados pela empresa.
A intenção do governo estadual é que a GWM atue como empresa âncora de um futuro complexo industrial que abrigará também fornecedores no entorno. O terreno fica às margens da ES 010 e em frente à futura retroárea do Porto da Imetame.
Nacionalização de peças e operação no Brasil
A GWM adota no Brasil o método de montagem conhecido como “peça por peça”, importando componentes isolados da China em vez de utilizar o sistema de kits semimontados (CKD). A tática tem o objetivo de facilitar a nacionalização da produção. A empresa possui 150 fornecedores locais cadastrados, com 20 já em operação. Os veículos feitos em São Paulo possuem 15% de peças nacionais, incluindo pneus, vidros, protetores de caçamba, espumas de bancos, fluidos e todo o processo de pintura.
O plano da montadora é atingir 35% de conteúdo local em dois anos e chegar a 60% posteriormente, patamar que permitirá o início das exportações. “Nossos planos não se limitam ao mercado brasileiro”, afirma Diego Fernandes.
A decisão recente do governo federal de prorrogar o prazo de cotas de importação de carros semimontados isentos de imposto foi vista com cautela pela direção da empresa. “Embora isso represente mais benefícios, para nós, o importante é ter previsibilidade. É muito complicado quando as regras mudam quando estamos preparados para o cenário anterior”, destaca o COO.
Na fábrica de Iracemápolis, que opera em três turnos desde abril e tem capacidade para 50 mil veículos anuais, são produzidos os modelos híbridos da linha Haval, o H9 e a picape a diesel Poer. A partir de agosto, todas as picapes vendidas no país sairão desta planta, com importações complementando a demanda de outros modelos. A meta da empresa é vender 80 mil unidades no Brasil até o final de 2026.
Atualmente, a participação da GWM no mercado de carros e comerciais leves no Brasil é de 2,7%. No segmento de veículos acima de R$ 200 mil, a fatia atinge 18%. “Queremos ser uma fabricante completa. Nosso objetivo, com a nova fábrica, é que a GWM se torne relevante no Brasil. O consumidor brasileiro é aberto à inovação. Por isso, nos últimos meses crescemos o dobro e até o triplo do que esperávamos”, relata Fernandes. Ele acrescenta que a empresa foi inicialmente mais conservadora em seus planos e não previa uma expansão tão acelerada.
Histórico de negociações e impacto econômico
Diferente de grande parte das montadoras de seu país de origem, a GWM é uma empresa privada com ações negociadas na Bolsa de Hong Kong. Com o empreendimento em Aracruz, a operação brasileira (atualmente a segunda maior fora da China, atrás apenas da Rússia e à frente da Tailândia) passará a ocupar a primeira posição no mercado externo da marca.
A escolha pelo Espírito Santo ocorreu após diversas visitas de executivos da companhia ao Paraná, Rio Grande do Sul e Bahia. A localização capixaba prevaleceu pelas condições logísticas oferecidas, sobretudo a proximidade com o porto, o que viabiliza tanto a importação de componentes na fase atual quanto a futura exportação de veículos.
As tratativas começaram em 2023, envolvendo missões internacionais, visitas técnicas ao estado e discussões com órgãos como Iema, Sefaz, ES Gás e EDP, além da assinatura de acordos de confidencialidade. Em janeiro de 2026, uma comitiva estadual viajou à China para formalizar o Termo de Compromisso de Investimento. A missão contou com o vice-governador Ricardo Ferraço, o secretário de Desenvolvimento, Rogério Salume, o diretor de Negócios da Nova ES, Danilo Pescuma, e o presidente da GWM, Jack Wey.
A fase de construção em Aracruz demandará a compra de 200 mil a 350 mil toneladas de concreto e de 40 mil a 70 mil toneladas de aço. Durante a fase operacional, a aquisição de matérias-primas e componentes no mercado interno deverá estimular fornecedores locais e promover o crescimento do setor terciário, gerando impacto econômico e social direto na região de Barra do Riacho. O projeto atende a garantias estruturais negociadas com o Estado, contemplando incentivos, infraestrutura de gás, água, energia, logística e qualificação de mão de obra.


















