A economia do Espírito Santo registrou um crescimento de 2,2% no primeiro trimestre de 2026 em comparação ao mesmo período do ano passado, resultado superior ao avanço de 1,8% da economia nacional. O desempenho foi motivado principalmente pela alta de 11,2% na indústria capixaba, com destaque para a extração de petróleo e gás natural, movimento que ajudou a compensar a queda no setor agropecuário. Os dados do Indicador de Atividade Econômica foram divulgados pelo Observatório Findes nesta quarta-feira (24), durante coletiva de imprensa realizada na sede da Federação das Indústrias do Espírito Santo, em Vitória.
A força da indústria extrativa
O principal motor do resultado econômico do estado foi a expansão de 35% da indústria extrativa. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a produção média de petróleo no Espírito Santo alcançou 219,4 mil barris por dia no trimestre, o que representa uma elevação de 35,9% frente ao mesmo período de 2025. A produção de gás natural também obteve salto expressivo, alcançando 6,2 milhões de metros cúbicos diários, um crescimento de 69,3%.
O presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo, Paulo Baraona, avalia o impacto sistêmico do setor. “O resultado reforça o papel da indústria como uma das principais alavancas do desenvolvimento capixaba. Quando a indústria cresce, ela movimenta toda a economia, fortalece cadeias produtivas, amplia investimentos, gera empregos e cria oportunidades para a população. O Espírito Santo vem demonstrando capacidade de aproveitar seus diferenciais competitivos e transformar potencial em crescimento econômico consistente”, afirma Baraona.
A economista-chefe e gerente executiva do Observatório Findes, Marília Silva, complementa que a alta reflete a ampliação da capacidade de campos já operantes e a recuperação do ritmo produtivo estadual. “Esse movimento tem impacto direto sobre a atividade econômica, tanto pelo peso do setor na estrutura produtiva capixaba quanto pelos efeitos sobre fornecedores, serviços e investimentos”, comenta.
Desempenho da construção, serviços e comércio
Além da extração, outros braços da indústria também registraram índices positivos. A atividade de energia e saneamento cresceu 2%, impulsionada pelo aumento de 3,1% no consumo de energia elétrica, conforme a Empresa de Pesquisa Energética. A construção civil avançou 1,3%, sustentada por investimentos em infraestrutura e pela expansão do mercado imobiliário de alta renda, mapeada pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Espírito Santo. O avanço ocorreu mesmo com a taxa de juros elevada a 14,25% ao ano.
Em contrapartida, a indústria de transformação recuou 1,9%. O setor enfrentou retração na fabricação de produtos alimentícios (-10,2%) e na produção de celulose, papel e produtos de papel (-8,3%). Contudo, áreas como coque e derivados de petróleo (+7,1%), produtos de minerais não metálicos (+2,8%) e metalurgia (+1,3%) apresentaram alta.
O setor de serviços, que engloba comércio e transporte, cresceu 1,2%. O comércio registrou alta de 1,6%, motivado pelas vendas de móveis, eletrodomésticos, produtos farmacêuticos, materiais de construção e alimentos no atacado, segundo a Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE.
A área de transportes acompanhou o aquecimento industrial. “Uma das atividades de destaque foi a de transporte, armazenagem e correio, que registrou crescimento de 2%, refletindo, em alguma medida, o aumento da demanda por transporte de cargas decorrente do avanço da produção industrial no Estado, especialmente da indústria extrativa”, explica a economista-chefe da Findes.
Retração na agropecuária capixaba
O agronegócio capixaba encerrou o primeiro trimestre de 2026 com queda de 11,4%. O número reflete um recuo de 11,6% na agricultura, que foi apenas parcialmente amenizado pelo leve crescimento de 0,7% na pecuária.
“A retração da agricultura foi explicada pela queda na produção de culturas com safras relevantes no primeiro trimestre, como milho, tomate, cana-de-açúcar, arroz, pimenta-do-reino e coco-da-baía”, detalha Marília Silva. A economista ressalta ainda a influência do ciclo do café. “Embora seja a principal cultura agrícola do Estado e represente 62,2% da estrutura agropecuária capixaba, sua colheita se concentra principalmente no segundo trimestre. Por isso, seu impacto sobre o resultado do primeiro trimestre é reduzido”.
Cenário internacional, petróleo e pressões inflacionárias
O balanço econômico também detalha como fatores externos afetam o estado e o país. As tensões geopolíticas no Oriente Médio causaram volatilidade no mercado de energia, levando o barril de petróleo a picos de 119 dólares. “Os avanços recentes em acordos de trégua e cessar-fogo contribuíram para que as cotações do petróleo passassem a oscilar em torno de US$ 90 por barril. Ainda assim, a persistência das incertezas mantém elevados os riscos para a economia mundial”, avalia Marília Silva.
No Brasil, o alto preço do petróleo favorece as exportações, mas encarece combustíveis, fertilizantes e insumos importados. A economista explica que esse cenário pressiona a inflação, cujo índice acumulado em 12 meses bateu 4,72% em maio, rompendo o teto da meta. “Os preços dos combustíveis, alimentos, energia elétrica, transporte aéreo, aluguel residencial, planos de saúde e diversos serviços intensivos em mão de obra estão entre os principais responsáveis por essa alta”, pontua.
Com a inflação acelerada, o ritmo de corte na taxa básica de juros sofreu limitações. O Banco Central reduziu a Selic de 15% para 14,25% entre janeiro e junho. A expectativa atual do mercado é de que a taxa encerre 2026 na casa dos 14% ao ano, contrariando a previsão mais otimista de 12,25% projetada em dezembro do ano passado.


















