O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu por unanimidade nesta quarta-feira (17) a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 0,25 ponto percentual, passando de 14,50% para 14,25% ao ano. A decisão confirma as estimativas majoritárias do mercado financeiro e estabelece a terceira queda consecutiva da taxa desde o início do ciclo de flexibilização em março, quando os juros estavam em 15% ao ano. Apesar do corte, o colegiado reforçou a postura de cautela e incluiu os impactos dos estímulos fiscais domésticos ao consumo no balanço de riscos para o aumento da inflação.
A votação do colegiado do Banco Central contou com os votos do presidente da autarquia, Gabriel Galípolo, e de mais seis diretores. Atualmente, o comitê opera com dois desfalques em sua composição original, totalizando quatro das oito reuniões do ano realizadas com quórum reduzido. Para este encontro de quarta-feira, a agência Bloomberg consultou 34 instituições financeiras: a estimativa majoritária previa o recuo para 14,25% ao ano, enquanto apenas três apostavam na manutenção dos juros em 14,50%.
Alerta sobre a política fiscal e estímulos ao consumo
Uma das novidades trazidas no comunicado desta reunião foi a inclusão explícita do risco fiscal entre os fatores que podem pressionar os preços para cima. O comitê alertou que novos estímulos fiscais têm potencial para atrapalhar o processo de queda da Selic.
De acordo com o texto divulgado, o Copom apontou que os riscos para a inflação permanecem mais elevados que o usual, citando “estímulos à demanda agregada, in particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária”. O grupo destacou que “O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza.”
Recentemente, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou um conjunto de medidas fiscais e parafiscais com potencial de impulsionar o consumo das famílias. O pacote inclui a nova versão do programa Desenrola para renegociação de dívidas e a ampliação de linhas de crédito para pessoas físicas, abrangendo caminhoneiros, taxistas e motoristas de aplicativos, além de empresas de setores como habitação e agronegócio. Conforme economistas, a forte expansão fiscal explica a reaceleração da demanda e atua na contramão dos esforços do Banco Central para controlar os índices de preços.
Impactos do cenário internacional e divergência de juros
A expectativa por um novo corte consolidou-se após o anúncio, na noite de domingo (14), de um acordo preliminar de paz entre os Estados Unidos e o Irã para a reabertura do estreito de Hormuz. O movimento diminuiu as tensões no Oriente Médio e gerou uma queda no preço do petróleo no início da semana, aliviando a pressão sobre o preço dos combustíveis e a inflação.
Contudo, o Copom reforçou que o ambiente externo ainda exige cautela. “O ambiente externo permanece incerto em função da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio e as consequências dos efeitos já materializados desses conflitos até o momento, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities”, destacou a nota da instituição. O presidente americano Donald Trump declarou que os bombardeios na região podem ser retomados, mantendo o cenário de instabilidade.
Entre os destaques dos riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, o BC citou “uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada”.
Em paralelo, o banco central americano, o Federal Reserve (Fed), decidiu manter a taxa de juros dos Estados Unidos na faixa entre 3,5% e 3,75% ao ano. A reunião foi a primeira sob a liderança de Kevin Warsh e ocorreu sob pressão de Trump por uma redução drástica. Com isso, os juros básicos da economia brasileira superam os juros americanos em 10,5 pontos percentuais.
Atividade econômica e dinâmica da inflação nacional
No panorama doméstico, os indicadores apontam que a economia apresentou aceleração no primeiro trimestre deste ano, mostrando recuperação na comparação com o quarto trimestre de 2025. O Copom indicou que esses dados se mantêm “consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026, enquanto o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho”.
O Comitê relembrou que a manutenção dos juros elevados por um período prolongado colaborou para esfriar a atividade econômica, mas pontuou a resiliência atual do mercado de trabalho. “Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores mostra aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre do ano, com setores mais cíclicos voltando a desempenhar papel significativo, e mercado de trabalho ainda com sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta para a inflação, superando seu limite superior na última leitura”, afirmou o Copom.
No acumulado de 12 meses até maio, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo IBGE, acelerou para 4,72%, superando o teto da meta estabelecida pela primeira vez desde outubro do ano passado. Em maio, o índice registrou alta de 0,58%, o que significou uma desaceleração comparado aos 0,67% computados em abril, resultado visto como positivo por analistas. Outro fator de atenção mencionado no balanço de riscos foi o impacto do fenômeno climático El Niño sobre os custos de energia e a produtividade agrícola.
Projeções futuras e o sistema de metas contínuas
O Banco Central atua sob o sistema de metas contínuas, implementado no início de 2025. O objetivo central de inflação está fixado em 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos, estabelecendo um piso de 1,5% e um teto de 4,5%. O descumprimento é configurado quando a inflação acumulada fica fora deste intervalo por seis meses seguidos. Como a taxa básica é o principal instrumento para conter pressões inflacionárias, afetando principalmente a população mais pobre, o BC calibra a Selic visando a convergência futura para o centro da meta.
No modelo de referência do Copom, a projeção interna de inflação para 2026 subiu de 4,6% para 5,2%. Para o ano de 2027, a estimativa avançou de 3,5% para 3,7%. Já os dados coletados pelo boletim Focus apontam que o mercado financeiro prevê um IPCA de 5,3% para este ano, 4,10% para 2027 e 3,68% para 2028.
Condução suave e os próximos passos da taxa Selic
Como as modificações na Selic levam de seis a 18 meses para gerar impacto total na economia, as decisões olham para as projeções futuras. Diante disso, o comitê alterou sua estratégia habitual: em vez de mirar o encerramento de 2027, optou por uma trajetória alternativa de condução mais suave dos juros, focando na convergência da inflação para a meta no primeiro trimestre de 2028. De acordo com o colegiado, se os juros fossem mantidos no nível necessário para atingir o alvo estrito no fim de 2027, a inflação cairia abaixo do centro da meta no início do ano seguinte.
O primeiro trimestre de 2028 passará a ser o horizonte oficial de avaliação a partir da próxima reunião do Copom, agendada para os dias 4 e 5 de agosto, mantendo em aberto a possibilidade de um novo corte. O comitê ressaltou que as projeções dos modelos estão sujeitas a incertezas superiores às usuais, somadas a choques de oferta. No comunicado, o comitê manteve a indefinição sobre os próximos passos ao afirmar que a magnitude total do ciclo de queda de juros “será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta.”
Na ata do encontro anterior, realizado no fim de abril, o Banco Central havia indicado que a elevação das expectativas de inflação não impediu os cortes recentes porque o período em que a Selic ficou mantida em 15% ao ano, o patamar mais alto em 20 anos, criou as condições necessárias para a desaceleração econômica.
O comitê concluiu reforçando a flexibilidade dos próximos passos: “Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”. A nota anterior informava que,
“Mantido o compromisso fundamental de garantia da convergência da inflação à meta dentro do horizonte relevante para a política monetária, o Comitê estabeleceu que a magnitude e a duração do ciclo de calibração serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às suas análises”.


















