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Taxa de homicídios de jovens no ES supera média nacional e estado atinge 8ª pior marca do Brasil, mostra Atlas da Violência

26 maio 2026 - 15:20

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Apesar de recuo no último ano, estado contabilizou 455 assassinatos na faixa de 15 a 29 anos em 2024. No cenário nacional, disparo na subnotificação de mortes expõe falhas nos dados oficiais e revela que redução real da letalidade beira a estabilidade
ES tem a 8ª pior taxa de assassinato de jovens do país, revela Atlas da Violência. Foto: Getty Images/iStockphoto

O Espírito Santo registrou a oitava maior taxa de letalidade entre pessoas de 15 a 29 anos no Brasil, com 56,4 homicídios para cada 100 mil habitantes nesta faixa etária em 2024. Os dados foram divulgados nesta terça-feira (26) por meio do Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O estudo mostra que, apesar da ocorrência de 455 assassinatos de jovens capixabas no período, houve uma redução de 18,5% no índice em comparação com 2023. O levantamento consolida as estatísticas oficiais do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Ministério da Saúde, detalhando a dinâmica criminal e a qualidade dos dados de segurança no país.

O cenário da violência contra a juventude
A taxa capixaba de 56,4 homicídios por 100 mil jovens encontra-se consideravelmente acima da média nacional, fixada em 42,2. Em todo o território brasileiro, 19.801 jovens foram assassinados em 2024, o equivalente a cerca de 75 mortes por dia. Esse grupo demográfico concentra 46,5% de todas as mortes violentas registradas no país.

A violência letal contra a juventude no Brasil possui um perfil claro: é predominantemente masculina e perpetrada por armas de fogo. Dos 54 jovens mortos diariamente no país, 51 eram homens. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, as armas de fogo foram o instrumento utilizado em 84,1% dos casos. O relatório associa essa realidade a normas sociais de masculinidade e exposição ao risco, demandando políticas públicas de prevenção e resolução não violenta de conflitos.

No detalhamento geográfico nacional, a Bahia liderou em números absolutos, com 3.271 casos de jovens mortos. Proporcionalmente, o Amapá apresentou a maior taxa (114,7 homicídios por 100 mil jovens), seguido por Bahia (101,8) e Pernambuco (84,6). No outro extremo, São Paulo (10,7), Distrito Federal (12,6) e Santa Catarina (12,7) registraram os menores índices.

Homicídios ocultos e a divergência estatística
As estatísticas oficiais apontam que o Brasil registrou 42.590 homicídios no total da população em 2024 (taxa de 20,1 por 100 mil habitantes), uma queda de 7,4% em relação a 2023, sendo o menor patamar da série histórica iniciada em 2014. Contudo, o Atlas da Violência alerta para um aumento crítico de 88,6% nos chamados “homicídios ocultos”, casos classificados originalmente como Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI) devido a falhas do Estado em identificar a causa básica do óbito.

Os casos subnotificados saltaram de 3.755 em 2023 para 7.083 em 2024. Ao somar esses homicídios ocultos aos números oficiais, os pesquisadores estimam que o Brasil sofreu, na realidade, 49.673 assassinatos no ano (taxa de 23,4). Sob esse cálculo estimado, a redução letal no país de 2023 para 2024 foi de apenas 0,4%, e não de 7,4%, configurando um cenário classificado pelo estudo como um “ponto cego estatístico”. Minas Gerais, Ceará e São Paulo lideraram o aumento dessa subnotificação.

Metade dos homicídios estimados concentrou-se em apenas 99 dos 5.570 municípios brasileiros (1,8% do total). Dezessete das vinte cidades mais violentas com mais de 100 mil habitantes ficam no Nordeste, com Maranguape (CE) liderando com taxa estimada de 87,2. Em contrapartida, as vinte cidades menos violentas estão exclusivamente no Sul e Sudeste, lideradas por Jaraguá do Sul (SC), com taxa de 2,0.

A queda geral nos números, segundo os pesquisadores, possui relação direta com a dinâmica do crime organizado. “Em 2018, os homicídios começam a cair e começa também um processo de acomodação. Uma guerra que se prolonga por muito tempo, sem um resultado claro, passa a ter custos econômicos inviáveis”, explicou Daniel Cerqueira, técnico do Ipea e coordenador do Atlas.

Desigualdade racial, de gênero e vulnerabilidades sociais
A letalidade no Brasil continua a atingir de forma desproporcional a população negra. Em 2024, 32.820 pessoas negras foram assassinadas (89,9 por dia), apresentando uma taxa 170,3% superior à de não negros. Um cidadão negro tem 2,7 vezes mais chances de ser morto. A redução histórica de homicídios também foi desigual: em onze anos, a letalidade de não negros caiu 38,9%, contra apenas 21,7% entre negros.

Em relação à violência contra a mulher, houve queda de 27,7% nos homicídios na última década (taxa atual de 3,4). No entanto, o Atlas destaca que essa diminuição ocorreu estritamente nos crimes fora do ambiente doméstico. O índice de mulheres assassinadas dentro de casa manteve-se praticamente estável, variando de 1,25 para 1,18 na década, indicando ausência de redução nos feminicídios. Além disso, a taxa letal contra mulheres negras é 66,7% superior à das não negras. Cerca de 79,9% da violência não letal ocorre nas residências e 66,2% das mulheres relataram múltiplos episódios de violência no ano.

O estudo também mapeou a violência contra outras populações:

  • LGBTQIAPN+: Há uma “invisibilidade institucional” pela falta de registros de motivação. Em 11 anos, as notificações contra homossexuais e bissexuais cresceram 212,7%. Somente em 2024, foram 10.250 registros contra esse grupo (alta de 5,5% ante 2023) e 5.575 contra pessoas trans e travestis (crescimento de 2,5%).
  • Crianças: Notificações de violência sexual contra crianças de 0 a 4 anos cresceram mais de quatro vezes na década (de 1.671 para 7.845 em 2024). Na faixa de 5 a 14 anos, saltaram de 6.594 para 29.135. Dois terços ocorrem na própria casa.
  • Idosos: Registros de violência interpessoal cresceram 226,3% em dez anos, atingindo 30.097 casos em 2024.
  • Indígenas: A taxa de homicídios foi de 24,6 por 100 mil, 22% acima da média nacional. No Amazonas, a letalidade do grupo subiu 123,4% em um ano.
  • Pessoas com Deficiência: Violência sexual é a forma mais crítica de vitimização, respondendo por 44,9% das notificações entre mulheres com deficiência intelectual.

Violência no trânsito e economia de aplicativos
Paralelamente aos homicídios, o Atlas da Violência abordou as mortes no trânsito, registrando 37.150 óbitos viários em 2024. O levantamento aponta as motocicletas como responsáveis por 41,6% dessas mortes. O estudo associa diretamente o salto de 38% nas mortes de motociclistas entre 2019 e 2024 (de 11.182 para 15.459) à expansão da economia de aplicativos, que impõe pressão por produtividade e ausência de proteção social a trabalhadores, consolidando a motocicleta como principal instrumento de sobrevivência em meio a rotinas de alto risco nas vias urbanas do país.

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Atualizado: 26/05/2026 15:22

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