O Ministério da Fazenda divulgou, nesta quinta-feira (21), na capital federal, o balanço parcial do Novo Desenrola, registrando aproximadamente R$ 12 bilhões em dívidas renegociadas desde o lançamento da iniciativa, no início de maio. O programa do governo federal, criado para frear a alta inadimplência no país, oferece descontos, juros limitados e novos prazos para famílias, estudantes, empresas e produtores rurais, e autorizará a utilização de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para a quitação dos débitos a partir da próxima semana.
O impacto nas famílias
Dividido em quatro frentes principais, o programa tem as famílias brasileiras como um de seus maiores focos. Somando os pagamentos à vista e os financiados, o chamado “Desenrola Famílias” já movimentou cerca de R$ 10 bilhões em dívidas renegociadas.
“O programa já alcançou mais de 1 milhão de CPFs e cerca de 1,1 milhão de operações. O que aumentou nos últimos tempos foi o serviço da dívida das famílias. Instigar esse efeito de redução no serviço da dívida é muito satisfatório para a gente”, afirmou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, durante a coletiva de imprensa.
O Ministério da Fazenda detalhou os números referentes às pessoas físicas:
- Quitações à vista: 449.003 operações registradas. O estoque original somava R$ 1,06 bilhão, valor que caiu para R$ 154,2 milhões após a aplicação de um desconto médio de 85%.
- Dívidas refinanciadas: 685.504 operações com garantia do Fundo Garantidor de Operações (FGO). O montante original de R$ 9 bilhões recuou para R$ 1,36 bilhão, também com desconto na faixa de 85%.
Uso do FGTS e restrição a “bets”
Para ampliar a capacidade de pagamento dos devedores, a equipe econômica liberou o uso do FGTS no abatimento das dívidas. As consultas estarão disponíveis a partir de 25 de maio, e as renegociações com o fundo começam no dia 26.
A regra permite a utilização de até 20% do saldo disponível do FGTS ou até R$ 1.000, prevalecendo sempre o maior valor. A estimativa oficial é injetar até R$ 8,2 bilhões na economia por meio dessa modalidade, além da liberação de R$ 7 bilhões provenientes do saque-aniversário residual.
Como contrapartida comportamental, o governo impôs uma restrição rigorosa: os cidadãos que aderirem ao Novo Desenrola ficarão bloqueados de utilizar plataformas de apostas online por um ano.
“Não pode renegociar a dívida e continuar perdendo dinheiro apostando em bet”, justificou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na ocasião do anúncio do programa.
Fies e Crédito Empresarial
O programa também atualizou os números do Desenrola Fies, voltado aos estudantes com parcelas atrasadas do Fundo de Financiamento Estudantil (contratos firmados até 2017), e apresentou o balanço das linhas de crédito para pequenos negócios, que passaram a ter regras mais flexíveis, prazos mais longos e maior tolerância a atrasos.
Balanço do Desenrola Fies:
- Adesão e valores: Em dez dias de funcionamento, 48.587 pessoas aderiram ao programa, o que resultou na renegociação de R$ 2,8 bilhões em contratos atrasados.
- Retorno imediato: Apenas com o pagamento das parcelas de entrada dos acordos firmados, R$ 148 milhões já retornaram aos cofres públicos.
- Prazos e atendimento: Os estudantes podem parcelar as dívidas em até 150 meses. O prazo final para renegociação é 31 de dezembro de 2026, exclusivamente pelos canais digitais do Banco do Brasil ou da Caixa Econômica Federal.
Descontos oferecidos (Resolução nº 66/2026):
- 12% de desconto para pagamentos à vista de contratos sem atrasos ou com até 90 dias de atraso.
- 12% de desconto (acompanhado de isenção de 100% de juros e multas) para débitos vencidos há mais de 90 dias.
- 77% de desconto sobre o saldo devedor total para contratos vencidos há mais de 360 dias.
- 92% de desconto sobre o saldo devedor total para estudantes inscritos no CadÚnico com dívidas vencidas há mais de 360 dias.
- 99% de desconto sobre o saldo devedor total para estudantes inscritos no CadÚnico com atrasos superiores a cinco anos.
Balanço do crédito empresarial:
- Pronampe (Micro e pequenas empresas): A linha registrou 31.502 operações, totalizando R$ 5,1 bilhões movimentados. Ocorreram, em média, 3,5 mil contratações diárias (um salto de 174% em relação a abril de 2026), com o valor médio diário contratado chegando a R$ 565,5 milhões (alta de 372%).
- Procred (Microempreendedores Individuais – MEI): A modalidade contabilizou 9.703 operações realizadas, o que movimentou R$ 396 milhões em crédito. A média foi de 1.078 contratações diárias (crescimento de 164% em relação a abril de 2026), com valor médio diário de R$ 44,1 milhões (aumento de 254%).
Expectativa popular e cenário econômico
O redesenho do programa ocorre em um cenário de alto endividamento no país. Dados de abril da Serasa revelam que 83,3 milhões de brasileiros estão com o “nome sujo”. O Banco Central aponta que o comprometimento da renda das famílias com dívidas atingiu 49,9% em fevereiro de 2026, o maior nível da série histórica iniciada em 2005.
Apesar dos indicadores econômicos, uma pesquisa do Datafolha, realizada entre 12 e 13 de maio com 2.004 pessoas em 139 municípios (margem de erro de dois pontos percentuais), indica uma recepção favorável à iniciativa governamental:
- 62% dos brasileiros já tomaram conhecimento do programa.
- 68% dos endividados acreditam que serão beneficiados pessoalmente.
- 82% dos inadimplentes veem impacto positivo na economia do país.
O levantamento revela que o otimismo é maior entre os mais jovens (25 a 34 anos), moradores da região Nordeste, eleitores do atual presidente e cidadãos com renda de até dois salários mínimos.
O Ministério da Fazenda estuda agora a ampliação da medida. De acordo com o ministro Dario Durigan, uma nova etapa do projeto, o “Desenrola para adimplentes”, está em fase de elaboração para beneficiar também os consumidores que estão com as contas em dia.


















