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Trabalhadores vão às ruas no Espírito Santo pelo fim da escala 6×1 neste 1º de Maio

30 abr 2026 - 16:45

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Atos unificam pautas políticas e atividades culturais para cobrar a redução da jornada laboral sem corte salarial. Tema, amparado por dados de adoecimento físico e mental, avança no Congresso
Fim da escala 6x1 pauta mobilizações do Dia do Trabalhador em Vitória e na Serra. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

As centrais sindicais e movimentos sociais mobilizam os trabalhadores do Espírito Santo neste 1º de maio, Dia do Trabalhador, para manifestações em Vitória e na Serra, tendo como reivindicação central o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho. Os atos, articulados para unir pressão política e programação cultural, visam influenciar o debate que atualmente tramita no Congresso Nacional e alertar para o adoecimento psicológico da classe trabalhadora decorrente de jornadas exaustivas.

A construção coletiva dos protestos é organizada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Nova Central e Força Sindical. Na capital capixaba, a concentração ocorre na Praça Getúlio Vargas, no Centro, das 8h às 14h. Antes, os trabalhadores da construção civil realizam uma assembleia na Praça Oito para o fechamento da campanha salarial, seguida de caminhada até o local principal. Na Serra, o ato político está convocado para as 8h, na Praça Encontro das Águas, em Jacaraípe.

A programação em Vitória foi desenhada para acolher as famílias, contando com atividades voltadas para o público infantil. O formato cultural inclui apresentações de mulheres sambistas e encerramento com o bloco Regional da Nair. Segundo a presidente da CUT-ES, Clemilde Cortes, a formatação do evento busca unir reivindicação e convivência: “É um dia de luta, mas é também de confraternização. Temos pouca oportunidade para isso”.

Adesão popular e impacto na saúde mental
O debate sobre a redução da jornada ganhou projeção nacional por meio do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que defende o fim do modelo de seis dias de trabalho para um de descanso. O estudo “Atlas da Escala 6×1 no Brasil”, realizado em 2025 com mais de 3,7 mil trabalhadores de 394 municípios, fundamenta a principal pauta das manifestações. A pesquisa revela que 70% dos trabalhadores enfrentam estresse ocupacional, e 27% apresentaram atestados médicos no mês anterior ao levantamento. Fadiga crônica, irritabilidade e prejuízos à convivência familiar estão entre os fatores de adoecimento relatados.

No Espírito Santo, os dados apontam a extensão do impacto. O estudo contabiliza mais de 600 mil vínculos empregatícios com carga superior a 40 horas semanais. Desses, 235,2 mil estão no setor de serviços. As funções mais afetadas incluem vendedores do comércio varejista (35,4 mil), faxineiros (19,3 mil), operadores de caixa (15,3 mil) e motoristas de caminhão (12,1 mil). A pesquisa também ressalta que a escala 6×1 afeta desproporcionalmente jovens, mulheres e trabalhadores negros.

A presidente da CUT-ES, Clemilde Cortes, reforça o alerta para o esgotamento. Segundo ela, há aumento nos casos de adoecimento motivados por “doença psicológica, com exigência de metas, sobrecarga de trabalho e assédio”. A dirigente cita o apelo social da pauta: “74% da população defende o fim da escala 6 por 1. Isso não é pouca coisa”.

O coordenador estadual do VAT no Espírito Santo, Vinícius Machado, indica que a mobilização visa pressionar votações ainda no primeiro semestre de 2026. “O grito de um trabalhador esgotado se tornou a maior luta do Espírito Santo e do Brasil na atualidade, e vamos continuar nessa luta até que o trabalhador tenha de fato dignidade e vida além do trabalho”, pontua Machado.

Propostas divergem no Congresso Nacional
A pressão das ruas encontra eco e resistência no Congresso Nacional, onde diferentes propostas disputam a regulamentação do tema. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), prioriza a tramitação via Proposta de Emenda à Constituição (PEC). Duas delas já avançaram na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e seguem para comissão especial:

  • PEC 8/2025: De autoria da deputada Erika Hilton (Psol-SP), propõe jornada de 36 horas em escala 4×3.
  • PEC 221/2019: Do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), estabelece redução gradual de 44 para 36 horas semanais ao longo de dez anos.

As duas PECs podem ser apensadas. Para aprovação, exigem 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos. Paralelamente, tramita o PL 1838/2026, enviado em 14 de abril pelo presidente Lula com regime de urgência. O texto propõe 40 horas semanais com dois dias de descanso e precisa ser votado em 45 dias, exigindo maioria simples (257 votos na Câmara e presença de 42 senadores no Senado).

A mobilização teve início com o ativista Rick Azevedo, eleito vereador no Rio de Janeiro após viralizar no TikTok em 2024 abordando a rotina de balconista de farmácia. “Hoje, essa pauta virou debate nacional. Chegou onde sempre deveria ter estado: no centro da política. Mas ninguém se engane. Nada foi dado. Tudo foi arrancado com pressão”, declarou Azevedo, alertando sobre a resistência parlamentar. O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder da maior bancada da Câmara, já adiantou que seu grupo deve votar contra as mudanças.

Perspectivas políticas e o cenário da CLT no Espírito Santo
A discussão local reflete a polarização nacional. A deputada estadual Camila Valadão (Psol) manifesta apoio à redução: “A escala 6×1 impõe uma rotina extremamente desgastante. Reduzir a jornada é uma medida que melhora a saúde, a qualidade de vida e, inclusive, pode gerar mais empregos”.

Em contrapartida, o deputado estadual Callegari (DC) critica uma imposição generalizada, alertando para potenciais impactos na economia e na indústria. “A flexibilização da jornada de trabalho deveria ser feita por meio de contratos individuais respaldados por convenções coletivas em cada profissão”, avalia, acrescentando que o Brasil precisa focar no aumento da produtividade.

Do ponto de vista jurídico, a advogada trabalhista Edlamara Rangel analisa que a busca pelo equilíbrio exige diálogo constante. Ela destaca o papel da fiscalização, lembrando que os direitos previstos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), criada em 1943 e atualizada pela Reforma de 2017, perdem força sem aplicação efetiva. “O que precisamos é de uma fiscalização efetiva para que o direito garantido em lei realmente aconteça”, afirma Rangel, pontuando preocupações com a “pejotização” irregular.

O índice de informalidade, que atingiu 38,1% em 2025 segundo o IBGE, é outro obstáculo central. As autoridades convergem na necessidade de regulamentação de novas atividades, como o trabalho por aplicativo, ainda que divirjam nos métodos.

Reivindicações ampliadas e histórico de lutas
Além do fim da escala 6×1, os atos do 1º de maio incorporam pautas debatidas na Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat) e na Marcha da Classe Trabalhadora, realizadas em meados de abril em Brasília. O documento base das centrais inclui o combate ao feminicídio, o enfrentamento à precarização, a regulamentação do trabalho por aplicativos, o fortalecimento das negociações coletivas e o direito de negociação para servidores públicos.

As lideranças sindicais lembram que a data resgata a memória da Revolta de Haymarket, ocorrida em 1886 em Chicago, que marcou a transição das jornadas de 16 para 8 horas diárias. No Brasil, Clemilde Cortes compara a atual disputa às conquistas históricas do passado: “Quando foram instituir o 13º, falavam que quebraria o país. Não quebrou. Com férias, a mesma coisa. A última redução de jornada foi na Constituição de 1988, quando passou de 48 para 44 horas. Agora a gente quer avançar de novo, e só o povo na rua garante conquistas”.

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Atualizado: 30/04/2026 16:55

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