Neste fim de semana (18 e 19 de abril de 2026), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpriu agendas oficiais na Espanha e na Alemanha, com o objetivo de firmar parcerias tecnológicas e comerciais, além de debater a governança global. Durante os compromissos em Barcelona e Hannover, o chefe de Estado brasileiro defendeu a integração energética sustentável do Brasil com a Europa, assinou acordos estratégicos e fez duras críticas à atuação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) frente aos atuais conflitos militares internacionais.
Feira de Hannover e reindustrialização
No domingo (19), Lula desembarcou na cidade de Hannover, na Alemanha, onde foi recebido com honras de chefe de Estado pelo chanceler alemão, Friedrich Merz, no Palácio de Herrenhausen. O foco da visita é a abertura da Hannover Messe, a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo, na qual o Brasil figura como país homenageado nesta edição.
A participação nacional conta com um pavilhão de 2.700 metros quadrados e a representação de 440 empresas (140 presenciais). O governo brasileiro tem a expectativa de assinar cerca de dez acordos bilaterais em áreas como defesa, infraestrutura, inteligência artificial, bioeconomia e financiamento climático. A Alemanha é, atualmente, a quarta maior parceira comercial do Brasil, com movimentação de US$ 20,9 bilhões em 2025, e o principal parceiro na Europa em cooperação técnico-financeira.
O presidente também tem participação agendada para segunda-feira (20) na 42ª edição do Encontro Econômico Brasil-Alemanha e na 3ª Reunião de Consultas Intergovernamentais de Alto Nível. Está prevista ainda uma possível visita à sede global da Volkswagen, em Wolfsburg.
Matriz energética e acordo Mercosul-União Europeia
Durante o discurso na feira industrial, Lula destacou o potencial do Brasil para auxiliar a União Europeia na descarbonização, ressaltando que 90% da energia elétrica do país é limpa. Ele informou a redução de 50% do desmatamento na Amazônia e 32% no Cerrado nos últimos três anos, além de reforçar o uso de biocombustíveis, com a atual mistura de 30% de etanol na gasolina e 15% no biodiesel.
O presidente cobrou que o bloco europeu considere os processos produtivos verdes do Brasil. “Para isso, é essencial que as regras do bloco levem em conta a matriz energética limpa utilizada em nossos processos produtivos. Criar barreiras adicionais ao acesso de biocombustíveis é contraproducente”, afirmou Lula.
Ele também comemorou a proximidade da entrada em vigor do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, prevista para ocorrer em menos de duas semanas, criando um mercado integrado de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 22 trilhões. Sobre a exploração de minerais críticos, como nióbio, grafita, terras raras e níquel, Lula declarou que o Brasil busca parcerias que garantam transferência de tecnologia, não apenas a exportação de matéria-prima.
Mercado de trabalho e inteligência artificial
O avanço tecnológico também pautou os discursos presidenciais. Em Hannover, Lula fez um apelo aos empresários sobre os impactos da inteligência artificial (IA). Embora reconheça o aumento de produtividade proporcionado pela tecnologia, o presidente alertou para a necessidade de proteger os trabalhadores e defendeu o fim da escala de trabalho 6×1.
“Se a inteligência artificial causar o bem que nós queremos, é preciso que nos lembremos que, por trás de cada invenção, tem um ser humano. Se ele não tiver mercado de trabalho, o mundo só tende a piorar”, ponderou.
A necessidade de regulamentação digital global já havia sido tratada na sexta-feira (17), na Espanha, ao lado do presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, quando ambos defenderam regras comuns para as redes sociais como forma de proteger a soberania eleitoral contra a desinformação. Na mesma ocasião, no Palácio Real de Pedralbes, os líderes assinaram um Memorando de Entendimento sobre minerais críticos.
Críticas aos conflitos bélicos e apelo por reforma na ONU
Antes de chegar à Alemanha, Lula encerrou, no sábado (18), a Mobilização Progressista Global e participou do Fórum em Defesa da Democracia, em Barcelona. Na ocasião, o presidente apontou a necessidade de reestruturação dos órgãos de governança global, com foco na ONU e em seu Conselho de Segurança, composto por Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido.
O mandatário classificou como “maluquice” o conflito militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, e criticou o volume de gastos militares globais, orçados em US$ 2,7 trilhões, em detrimento do combate à fome, que atinge mais de 760 milhões de pessoas.
Lula argumentou que os conflitos causam inflação mundial, encarecimento do transporte, escassez de fertilizantes e insegurança alimentar, fatores que afetam majoritariamente as nações do Sul Global. “O Trump invade o Irã e aumenta o preço do feijão no Brasil. Aumenta o preço do milho no México. É o pobre que vai pagar a irresponsabilidade de guerras que ninguém quer”, declarou.
Demandando o fim do poder de veto irrestrito que paralisa a intervenção humanitária, o presidente foi taxativo sobre os atuais membros permanentes do conselho: “Hoje as Nações Unidas não representam aquilo para o qual ela foi criada. Os cinco membros do Conselho de Segurança (…) viraram os senhores da guerra”.


















