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Petróleo sobe com guerra no Irã e Petrobras tenta segurar preços no Brasil

10 mar 2026 - 14:45

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo, com informações de Agência Brasil e Reuters

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Barril chegou a quase US$ 120 após fechamento do Estreito de Ormuz. Estatal brasileira aposta em nova política comercial para mitigar impactos, mas especialistas alertam para riscos de inflação
Guerra no Irã faz petróleo disparar no mercado global e Petrobras busca conter alta no Brasil. Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil

A escalada da guerra no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã fizeram os preços do petróleo atingirem, nesta segunda-feira (9), o maior valor desde 2022, com o barril operando na casa dos US$ 120 durante o pregão. Diante da forte instabilidade internacional e da restrição de oferta provocada por cortes de países da Opep, a Petrobras anunciou que utilizará sua atual margem de manobra comercial para tentar evitar o repasse imediato da alta aos combustíveis no Brasil, enquanto potências do G7 decidiram, por ora, reter suas reservas estratégicas de emergência.

O salto nos preços e o bloqueio no Oriente Médio
Os desdobramentos do conflito, intensificados desde que os Estados Unidos e Israel bombardearam o Irã no final de fevereiro, causaram um choque no mercado de energia. Durante a sessão de segunda-feira, os preços chegaram a subir 29%. O barril tipo Brent bateu US$ 119,50, e o West Texas Intermediate (WTI) atingiu US$ 119,48, os maiores valores intradiários desde junho de 2022. Ao fim do dia, os contratos fecharam com alta de cerca de 7%, cotados a US$ 98,96 (Brent) e US$ 94,77 (WTI), recuando após declarações americanas, mas mantendo-se bem acima da média de US$ 70 anterior ao conflito.

A crise foi agravada pelo fechamento quase total do Estreito de Ormuz, rota por onde trafegam cerca de 25% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo. Em resposta à expansão da guerra, a Saudi Aramco, gigante saudita, iniciou o corte de produção em dois campos petrolíferos, acompanhada por reduções de Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuweit e Catar, que enfrentam falta de armazenamento devido ao bloqueio logístico. A empresa de análise Kpler estima que, mesmo com uma reabertura imediata do estreito, as exportações do Golfo levariam de seis a sete semanas para normalizar.

“Além dos desafios da travessia do Estreito de Ormuz, uma parcela substancial da produção de petróleo foi reduzida. Isso está criando riscos significativos e crescentes para o mercado”, alertou Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE).

A estratégia da Petrobras no mercado interno
No Brasil, a Petrobras emitiu um comunicado informando que pode reduzir os efeitos da inflação global gerada pelo petróleo, preservando sua rentabilidade. Segundo a estatal, a estratégia comercial atual leva em conta as melhores condições de refino e logística.

“Em um cenário em que guerras e tensões geopolíticas ampliam a volatilidade do mercado internacional de energia, a Petrobras reafirma seu compromisso com a mitigação desses efeitos sobre o Brasil”, afirmou a companhia em nota. “O que nos permite promover períodos de estabilidade nos preços ao mesmo tempo que resguarda a nossa rentabilidade de maneira sustentável. Essa abordagem reduz a transmissão imediata das variações internacionais para o mercado brasileiro”.

A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo (Ineep), Ticiana Álvares, explica que essa contenção é viável porque a empresa abandonou, em 2023, a Política de Paridade de Importação (PPI). “A política da Petrobras acompanhava 100% a trajetória dos preços internacionais. Essa política modificou e agora leva em consideração fatores internos, que é essa margem de manobra que a Petrobras tem”, disse a especialista.

Contudo, Álvares adverte que o efeito protetor é temporário e limitado, já que o Brasil importa derivados como gasolina e diesel e possui unidades privadas. “A refinaria da Bahia, a Rlam, foi privatizada. Logo, você tem menos mecanismos de segurar o preço dessas refinarias que foram privatizadas do que, por exemplo, a Petrobras tem”, concluiu.

Reação das potências globais e G7
O cenário mobilizou os ministros das finanças do G7 (EUA, Alemanha, França, Itália, Japão, Canadá e Reino Unido), que se reuniram na segunda-feira para debater a crise. O grupo avaliou a utilização de cerca de 1,8 bilhão de barris de reservas estratégicas e governamentais, mas decidiu aguardar.

“Ainda não chegamos lá [na liberação das reservas]. O que acordamos foi usar todas as ferramentas necessárias, se preciso for, para estabilizar o mercado, incluindo a possível liberação dos estoques necessários”, declarou o ministro da Economia francês, Rolando Lescure.

Na Europa, governos preparam medidas de contenção. O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou o envio de uma dúzia de navios de guerra e um porta-aviões ao Mar Vermelho em uma operação “puramente defensiva” para garantir “a livre navegação e segurança marítima”. Simultaneamente, o chanceler alemão, Friedrich Merz, demonstrou preocupação com o custo da energia e o governo de Berlim estuda impor limites rigorosos aos reajustes de preços aplicados pelas petroleiras no país.

Troca de acusações e riscos macroeconômicos
A tensão geopolítica segue sem perspectiva de fim imediato. No Irã, a ascensão do novo líder supremo, aiatolá Mojtaba Khamenei, foi marcada por demonstrações de força nas ruas. O presidente do Legislativo iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, responsabilizou Washington e Tel Aviv pela crise econômica.

“O impacto econômico dessa guerra, que se alastra para a infraestrutura em toda a região e no mundo, será vasto e duradouro. O preço do petróleo pode permanecer acima de US$ 100 por algum tempo. A política de Donald Trump pode levar à ruína não só a América, mas o mundo inteiro”, afirmou Ghalibaf.

Em contrapartida, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, justificou a alta dos preços como um custo “muito pequeno” a ser pago “pela segurança e paz dos EUA e do mundo”, acrescentando que “só os tolos pensariam diferente”. Trump ameaçou o Irã com ataques “vinte vezes mais forte”, capazes de tornar “praticamente impossível a reconstrução do Irã como nação” caso o bloqueio em Ormuz continue, mas previu que as cotações do petróleo cairão assim que a “ameaça” iraniana for eliminada.

Apesar da turbulência, a mudança na geografia do fornecimento global de petróleo pode abrir espaço para o Brasil atuar como fornecedor alternativo, avalia Ticiana Álvares, do Ineep. A Ásia, destino de 80% do petróleo que transitou por Ormuz em 2025, será a região mais afetada inicialmente. No entanto, se a guerra se prolongar, o risco de uma inflação global ou recessão econômica severa atingirá também a economia brasileira.

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Atualizado: 10/03/2026 15:26

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