O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o líder chinês, Xi Jinping, defenderam a atuação conjunta para proteger os interesses do Sul Global e o fortalecimento das Nações Unidas (ONU) durante conversa telefônica realizada nesta quinta-feira (22). O diálogo, que durou cerca de 45 minutos, ocorreu em um momento de instabilidade geopolítica marcado pelas recentes ações militares dos Estados Unidos na Venezuela e pelo lançamento de uma estrutura diplomática paralela pelo governo norte-americano.
A conversa foi divulgada inicialmente pela agência estatal chinesa Xinhua na madrugada desta sexta-feira (23) e confirmada posteriormente pelo Palácio do Planalto. Segundo a agência asiática, Xi Jinping afirmou a Lula que Pequim e Brasília devem aprofundar a cooperação estratégica e salvaguardar a equidade internacional diante da “atual situação internacional turbulenta”.
O líder chinês destacou que as duas nações possuem responsabilidades comuns e devem trabalhar para promover uma ordem internacional mais justa, baseada no multilateralismo e no respeito ao desenvolvimento dos países emergentes. “A China está disposta a continuar sendo uma boa amiga e parceira dos países da América Latina e do Caribe”, disse Xi ao presidente brasileiro.
Do lado brasileiro, o Planalto informou que Lula anunciou a concessão de isenção de algumas categorias de vistos de curta duração a cidadãos chineses. A medida funciona como reciprocidade à isenção adotada pela China desde 2025.
Críticas à intervenção na Venezuela
O contato entre os líderes ocorre após críticas públicas de Lula ao ataque dos Estados Unidos à Venezuela e à prisão do presidente Nicolás Maduro, que foi levado para ser julgado em território norte-americano por acusações relacionadas a tráfico de drogas. A ação militar gerou incerteza política em Caracas e preocupação entre países latino-americanos sobre o risco de novas intervenções armadas na região.
Em artigo publicado no jornal New York Times em 18 de janeiro, Lula condenou a ação. “Em mais de 200 anos de história independente, esta é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos, embora as forças americanas já tenham intervindo anteriormente na região”, escreveu o presidente.
No texto, Lula argumentou que o futuro de qualquer país deve permanecer nas mãos do seu povo e alertou as grandes potências. “É fundamental que os líderes das grandes potências compreendam que um mundo de hostilidade permanente não é viável. Por mais fortes que essas potências possam ser, elas não podem depender simplesmente do medo e da coerção.”
As ações dos EUA também provocaram reações da ONU. Em entrevista à BBC Rádio 4, o secretário-geral das Nações Unidas, Antônio Guterres, declarou que os EUA estavam agindo com impunidade e que os princípios fundadores da organização, incluindo a igualdade entre os Estados-membros, estavam sob ameaça.
Tensões e ‘ONU paralela’
O cenário geopolítico abordado na ligação inclui ainda o lançamento oficial, na mesma quinta-feira (22), do “Conselho da Paz” pelo presidente Donald Trump. A estrutura, criada para supervisionar a paz na Faixa de Gaza e reconstruir o território palestino, é vista por parte da comunidade internacional como uma tentativa de esvaziar a ONU.
Durante a cerimônia de lançamento, que contou com a presença de cerca de 30 líderes mundiais, incluindo o presidente argentino, Javier Milei, Trump voltou a criticar as Nações Unidas. “Eu nunca nem falei com a ONU. Eles tinham um potencial tremendo”, afirmou o norte-americano, ressaltando, contudo, que seu novo conselho dialogará “com muitos outros”, inclusive a própria ONU. Lula foi convidado para integrar o órgão, mas ainda não respondeu. Nenhum grande aliado ocidental compareceu ao evento.
Além da invasão à Venezuela e do indiciamento de Maduro, o governo Trump protagoniza outros focos de tensão, como ameaças de ofensivas no Irã e o uso de força para obter a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, o que afetou relações com aliados de segurança no Atlântico.
Parceria estratégica
No contexto econômico, Xi Jinping relembrou a parceria estratégica firmada em 2024, que alinhou a iniciativa do Cinturão e Rota (BRI) da China aos planos brasileiros em agricultura, infraestrutura e transição energética. Segundo o líder chinês, esse alinhamento exemplifica a solidariedade e a cooperação entre os países do Sul Global, desafiando a influência em meio às promessas de novas linhas de crédito e investimentos em infraestrutura da China na região.


















