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Emendas bancam 99% das obras do Ifes e batem recorde de R$ 61 bilhões para as eleições

12 jan 2026 - 14:20

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo, com informações de Folha de S. Paulo

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Instituto Federal do Espírito Santo lidera ranking nacional de dependência de recursos parlamentares. STF amplia cerco sobre transparência enquanto Congresso se prepara para ano eleitoral com maior controle do Orçamento da história
Emendas bancam 99% das obras do Ifes e batem recorde de R$ 61 bilhões para as eleições. Foto: Reprodução

As emendas parlamentares, que em 2025 financiaram 99,5% de todos os investimentos do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), entram em 2026 como o principal trunfo eleitoral do Congresso Nacional, com uma previsão orçamentária superior a R$ 61 bilhões, segundo informações divulgadas nesta segunda-feira (12) pela Folha de S. Paulo. Enquanto instituições de ensino e prefeituras dependem cada vez mais dessas indicações para obras e compras de equipamentos, o Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Flávio Dino, intensifica as ações que questionam a transparência e a obrigatoriedade desses repasses.

O Orçamento de 2026, aprovado pelo Legislativo em 19 de dezembro, aguarda sanção ou veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Caso confirmado, o valor destinado às emendas superará os mais de R$ 50 bilhões empenhados em 2025. Pela primeira vez, parte desses pagamentos será obrigatória antes do período eleitoral, consolidando o poder de deputados e senadores sobre a verba pública.

Dependência capixaba
O cenário nacional reflete-se com intensidade no Espírito Santo. Dados da execução orçamentária de 2025 apontam que o Ifes foi a instituição federal com maior dependência de emendas para realizar investimentos, categoria de despesa que engloba obras, construção de laboratórios e aquisição de maquinário.

Dos cerca de R$ 118 milhões empenhados pelo instituto no ano passado para investimentos, 99,5% foram obtidos via indicações parlamentares. Os recursos foram utilizados para a compra de itens como microscópios e painéis solares. Em nota, o Ifes declarou que essa dependência é um fato para todas as autarquias, “visto que o orçamento de investimento das instituições federais diminuiu sucessivamente ao longo dos últimos anos”. “Dessa forma, o relacionamento com as bancadas passa a ser uma ação importante e necessária para a constante melhoria das entregas da instituição”, completou o instituto.

A distribuição desses recursos é desigual pelo país. Estados como Espírito Santo, Rio de Janeiro e Distrito Federal receberam volumes superiores em 2025, em detrimento de instituições do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

O “sequestro” do Orçamento
A participação das emendas no total de investimentos do Executivo saltou de 8% em 2015 para cerca de 25% em 2025. Quando se observa a verba discricionária (recursos livres para custeio e investimento) dos ministérios, o controle parlamentar é ainda mais agudo. No ano passado, as emendas drenaram 21,9% de todo o orçamento discricionário do Executivo, o maior percentual já registrado.

Ministérios comandados pelo centrão foram os mais afetados:

  • Turismo: Registrou o maior percentual de verba comprometida por emendas.
  • Esporte: 65,2% da verba discricionária foi definida por parlamentares.
  • Saúde: Executou o maior volume financeiro, ultrapassando R$ 25,7 bilhões em emendas.

O presidente Lula criticou a fatia controlada pelo Legislativo no início de dezembro. “Eu acho que o fato de o Congresso Nacional sequestrar 50% do Orçamento da União é um grave erro histórico”, declarou o mandatário. Apesar das críticas, o governo mantém canais de escoamento de verbas, como a Codevasf, sob comando de aliados do centrão.

Educação: Sobremesa versus Feijão com Arroz
Embora as emendas garantam obras e equipamentos, elas não resolvem o problema do custeio diário das universidades e institutos, que sofreram cortes drásticos na última década. As dotações discricionárias das federais caíram de R$ 17,19 bilhões em 2014 para cerca de R$ 7,32 bilhões em 2025 (valores corrigidos).

Para 2026, houve um novo corte de R$ 488 milhões no orçamento de manutenção das federais durante a tramitação da Lei Orçamentária Anual.

A reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, ilustrou a situação: “As emendas não são uma política pública. Elas são uma sobremesa. E ninguém vive de sobremesa, todos precisamos do feijão com arroz”. Segundo a gestora, o dinheiro carimbado das emendas constrói prédios, mas não paga contas de água, luz ou alimentação estudantil.

Alessandra Cardoso, assessora política do Inesc, alerta que o modelo subverte o planejamento público. “O parlamentar manda o recurso naquele tipo de aplicação que é mais fácil de viabilizar (…) e envia esse recurso de forma que ele possa ter uma visibilidade pessoal associada”, afirma.

Tensão entre Poderes
A execução desses recursos em 2026 ocorrerá sob forte escrutínio jurídico. O ministro Flávio Dino, do STF, relatou ações que questionam a “impositividade” das emendas e determinou mudanças nas regras de transparência. Dino afirmou que o tema é um “debate essencial e de índole constitucional” sobre a separação de Poderes.

O ministro tem autorizado operações da Polícia Federal, como a realizada em 12 de dezembro contra uma assessora ligada ao ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e outra em julho que investigou desvios em eventos de esportes digitais. Além disso, há preocupações com as “emendas Pix”, que transferiram R$ 5,9 bilhões diretamente aos cofres de estados e municípios com baixa rastreabilidade.

Do lado do Legislativo, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), defendeu a atuação dos deputados, embora tenha admitido a necessidade de “estabelecer uma linha” contra exageros. “Nós não temos compromisso com quem não trabalha correto com emenda”, disse Motta.

Enquanto o impasse jurídico não se resolve, o governo federal trata nos bastidores uma fatia de mais de R$ 7,65 bilhões no Ministério da Saúde como “emendas informais”, e o Congresso segue ampliando seu protagonismo na definição de onde o dinheiro público será gasto.

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Atualizado: 12/01/2026 15:44

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