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Países querem tirar COP30 de Belém por preços exorbitantes e falhas na organização

01 ago 2025 - 11:30

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo, com informações de Folha de S. Paulo

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Grupo de 25 negociadores, incluindo nações ricas, formaliza queixas sobre custos e logística a 100 dias da cúpula do clima. Governo brasileiro nega qualquer possibilidade de mudança e corre para finalizar obras de infraestrutura na capital paraense
Países ameaçam tirar parte do evento de Belém por preços de hospedagem. Foto: Donatas Dabravolskas

A menos de cem dias para o início da COP30, a conferência do clima da ONU em Belém (PA), um grupo de 25 negociadores internacionais formalizou em um documento a preocupação com os preços exorbitantes de hospedagem e a logística na cidade. No texto, ao qual a Folha teve acesso, os signatários sugerem que, se os problemas não forem resolvidos, o evento deveria ocorrer, ao menos parcialmente, em outro local, gerando uma crise nos bastidores da organização.

O documento, endereçado tanto à organização do evento quanto à UNFCCC (o braço da ONU para o clima), reconhece o esforço do governo brasileiro para viabilizar a conferência, mas expõe a insatisfação com as opções de hotéis, segurança e transporte. “Se a COP inteira for mesmo acontecer em Belém”, os países pedem que condições mínimas sejam garantidas, como a possibilidade de “ficar em acomodações adequadas e acessíveis, e ir ao pavilhão e voltar de forma segura e eficiente em termos de tempo, inclusive tarde da noite”.

Procurada, a secretaria-extraordinária da COP30 confirmou o recebimento da carta, mas afirmou que “não há a possibilidade da COP30 ou parte da Conferência acontecer fora de Belém”. A UNFCCC não se manifestou.

Impasse e prazos
A insatisfação culminou em uma reunião de emergência da UNFCCC na última terça-feira (29) para tratar dos problemas logísticos. O Brasil tem até o próximo dia 11 de agosto para responder aos receios levantados. “O Brasil tem muitas opções para termos uma COP melhor, uma boa COP. Por isso estamos pressionando para que o Brasil forneça respostas melhores, em vez de nos dizer para limitar nossa delegação”, disse à agência Reuters Richard Muyungi, presidente do Grupo de Negociadores Africanos.

O grupo de signatários inclui coletivos como o Países Menos Desenvolvidos (LDC) e nações desenvolvidas como Áustria, Bélgica, Canadá, Finlândia, Holanda, Noruega, Suécia e Suíça. A pressão é especialmente forte para que a cúpula de chefes de Estado, que ocorre antes da COP, seja transferida.

Nesta quinta-feira (31), o presidente da COP, André Corrêa do Lago, confirmou que alguns países pediram que a conferência não seja realizada na capital paraense. “Acredito que talvez os hotéis não estejam se dando conta da crise que eles estão provocando”, afirmou.

A crise da hospedagem
Desde o anúncio de Belém como sede, os preços de hotéis dispararam, levando a organização a buscar alternativas para um déficit de leitos estimado para as cerca de 50 mil pessoas esperadas. O governo federal apura práticas abusivas do setor hoteleiro e mobiliza opções como Airbnb, escolas, unidades do Minha Casa, Minha Vida e até navios de cruzeiro.

Com atraso, uma plataforma de hospedagem foi lançada para os países participantes. A secretaria da conferência informou que cada delegação dos países menos desenvolvidos e insulares terá direito a 15 quartos por até US$ 200 (R$ 1.114), e as outras nações, 10 quartos por até US$ 600 (R$ 3.342), totalizando 2.500 unidades.

No entanto, a carta dos negociadores pede que o grupo de nações em desenvolvimento possa se acomodar por diárias de até US$ 164 (R$ 918) em locais próximos ao pavilhão de negociações, no Parque da Cidade. Eles afirmam que nunca tantas delegações estiveram sem saber como participariam do evento a 100 dias de seu início. O documento também critica a sugestão de dividir quartos para economizar custos. A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis foi procurada, mas não houve retorno.

Obras em Belém
Enquanto a crise diplomática se desenrola, Belém passa por uma transformação com mais de R$ 5 bilhões em investimentos para as obras da cúpula. O governo do Pará garante que as estruturas sob sua responsabilidade serão entregues até outubro.

“Obras como as de drenagem e saneamento beneficiarão diretamente mais de 600 mil pessoas”, afirmou Valter Correia, secretário extraordinário para a COP, destacando o legado de infraestrutura para a cidade.

Veja o estágio das principais obras:
Parque da Cidade: Com 93% das obras concluídas, o antigo aeroporto de 500 mil m² abrigará as principais zonas de discussão (Blue e Green Zones). O projeto de R$ 980 milhões é financiado pela Vale e já teve áreas de lazer abertas à população.

Hangar Centro de Convenções: Com 81% de avanço, o espaço está sendo readequado para a Blue Zone, com um orçamento de R$ 39 milhões do BNDES.

Hotel Vila Líderes: Projetado para hospedar chefes de delegações, o complexo de 405 suítes está 57% concluído. O investimento é de R$ 194 milhões, com recursos da Itaipu Binacional.

Ver-o-Peso: O cartão-postal de Belém está 77% revitalizado, com reforma de boxes, nova cobertura e saneamento. O custo é de R$ 66 milhões, divididos entre Itaipu e a prefeitura.

Terminal Portuário de Outeiro: Com previsão de entrega em outubro, a reforma de R$ 180 milhões (Itaipu) ampliará o píer para receber navios de cruzeiro que servirão de hospedagem.

Aeroporto Internacional de Belém: A concessionária NOA investe R$ 450 milhões em recursos próprios para ampliar as áreas de embarque, construir um novo pátio de aeronaves e modernizar a infraestrutura, incluindo a climatização.

Pará sob escrutínio ambiental
A escolha de Belém colocou as políticas ambientais do Pará sob os holofotes. Historicamente o estado que mais desmatou na Amazônia, o Pará registrou uma queda de 55% no desmatamento em três anos, segundo dados do Inpe, chegando a 2.260 km² entre agosto de 2023 e julho de 2024.

Especialistas atribuem a redução ao aumento da fiscalização por órgãos como o Ibama e a políticas estaduais, como o programa Selo Verde, que rastreia a cadeia do gado para desvinculá-la de áreas de desmatamento ilegal. O número de autos de infração e embargos cresceu significativamente desde 2021.

Apesar do avanço, o estado ainda concentrou 37% de todo o desmatamento da Amazônia no último ano e continua sendo o maior emissor de gases de efeito estufa do Brasil, segundo o Observatório do Clima. Para Ane Alencar, diretora de ciência do Ipam, entraves como as tentativas no Congresso de enfraquecer a legislação ambiental representam um risco. “As ações de comando e controle vão ter um limite. Nós precisamos mudar a perspectiva de como fazer dinheiro com a floresta – com a floresta em pé”, afirma.

“Semanas do Clima” ganham força para debate
Paralelamente às negociações oficiais da COP, as “Semanas do Clima” (Climate Weeks) se consolidam como espaços de debate para a sociedade civil e o setor privado. Eventos como os de Londres, Nova York e, mais recentemente, São Paulo, funcionam como plataformas para acelerar compromissos locais, discutir financiamento e preparar agendas para a cúpula em Belém.

Michel Porcino, um dos coordenadores da Climate Week São Paulo, destaca o foco em ações concretas. “Nosso propósito foi desde o início deixar de ser só um fórum de discussão e virar um fórum de ação”, diz. Ele cita como exemplo a articulação do fundo Finaclima com o governo paulista.

Esses eventos ganham ainda mais relevância no cenário político global. Sheila Foster, professora da Universidade Columbia, avalia que uma eventual mudança de governo nos EUA poderia fortalecer a Climate Week de Nova York como uma plataforma para que estados e cidades americanas levem suas agendas à COP30, mesmo sem o apoio do governo federal.

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Atualizado: 01/08/2025 11:31

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