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Delegada que teve filhos assassinados pelo ex-marido analisa crime em Goiás e alerta para violência vicária

19 fev 2026 - 14:15

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo, com informações de BBC News

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Vítima de tragédia semelhante em 2023, Amanda Souza relata o choque ao ver a culpabilização da mãe no caso de Itumbiara (GO) e aponta caminhos para identificar relacionamentos abusivos
Delegada que teve filhos assassinados pelo ex-marido analisa crime em Goiás e alerta para violência vicária. Foto: Reprodução

A delegada da Polícia Civil do Pará, Amanda Souza, reviveu a tragédia do assassinato de seus próprios filhos ao acompanhar as notícias de um duplo homicídio ocorrido na última quarta-feira (11), em Itumbiara (GO). Em ambos os episódios, os ex-companheiros tiraram a vida das crianças e cometeram suicídio logo em seguida, em uma prática definida por especialistas como “violência vicária”, que é quando o agressor ataca os filhos para impor sofrimento emocional e permanente à mãe.

Em relato concedido à jornalista Thais Carrança, da BBC News Brasil, a policial de 43 anos detalhou o histórico de controle em seu antigo casamento, repudiou os julgamentos sociais contra as mães vítimas de luto e apontou medidas práticas para o rompimento de ciclos abusivos.

A tragédia em Goiás e a reação da sociedade
Na quarta-feira (11), o secretário de Governo da prefeitura de Itumbiara, Thales Machado, atirou contra os dois filhos na residência em que morava e tirou a própria vida na sequência. A criança mais velha, de 12 anos, morreu no local. O irmão mais novo, de 8 anos, foi encaminhado ao hospital em estado gravíssimo, mas faleceu horas depois. A mãe das vítimas é Sarah Araújo.

Ao tomar conhecimento do fato pelas redes sociais, a delegada Amanda Souza afirmou ter se projetado na dor de Sarah. O que mais causou impacto na policial, no entanto, foi a reação de parte do público online. Segundo ela, diversos comentários culpabilizavam a mãe pelo assassinato brutal cometido pelo pai, utilizando alegações de uma suposta traição para justificar o ato.

“Era muita crueldade com aquela mãe. Diante de tudo o que tinha acontecido, a sociedade ainda insistia em culpar uma pessoa que tinha perdido toda a sua família”, declarou a delegada à BBC News Brasil. Ela classificou a atitude como uma falta de humanidade e uma prova da sociedade machista, ressaltando o choque ao constatar que muitos desses julgamentos partiam de outras mulheres. “As mulheres são as primeiras a apontar o dedo e a tentar diminuir a culpa do homem, colocando a culpa na mãe vítima.”

Os dados de violência de gênero no país, contextualizados na reportagem original, reforçam o cenário de vulnerabilidade: o Brasil registrou um número recorde de feminicídios em 2025, com 1.518 casos (ante 1.458 em 2024), o que representa uma média de quatro mulheres assassinadas por dia.

O histórico de abuso e o crime de 2023
A compreensão de Amanda Souza sobre o caso goiano decorre de sua própria vivência. Natural de Teófilo Otoni (MG), ela manteve um relacionamento de 20 anos que, segundo sua própria avaliação atual, era pautado por um controle dissimulado. A dinâmica mudou quando ela se mudou de Belo Horizonte para Belém (PA) para o curso de formação de delegada. Fora da zona de domínio direto do parceiro, o comportamento dele tornou-se explicitamente controlador, exigindo localizações constantes e contatos das pessoas ao redor.

Em dezembro de 2022, devido ao ciúme descrito por ela como “doentio”, Amanda encerrou o relacionamento. Meses depois, em 10 de julho de 2023, a tragédia ocorreu. Pela manhã, o ex-marido enviou uma mensagem afirmando que o futuro dela “seria de tristeza e solidão”. Às 16h daquele mesmo dia, enquanto Amanda trabalhava na Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) em Cametá (PA), ele ligou: “Parabéns, você conseguiu o que você queria: eu matei os seus dois filhos”.

Amanda dirigiu até sua casa e foi a primeira a encontrar os corpos dos filhos, Marcelo, de 12 anos, e Letícia, de 9, além do corpo do ex-marido. Para ela, tanto o crime contra sua família quanto o recente caso de Itumbiara seguem um padrão narcisista. “Ele quer que essa mulher sofra em vida. Que ela se sinta culpada por aquilo que aconteceu. Esse é o conceito de violência vicária”, explicou à reportagem da BBC.

A lacuna de dados sobre violência vicária no Brasil
A reportagem original destaca que não existem, no Brasil, dados consolidados específicos sobre a violência vicária, o que prejudica a elaboração de políticas públicas. As estatísticas disponíveis sobre o tema estão no Mapa Nacional da Violência de Gênero, que, a partir de 2024, começou a registrar casos contra brasileiras no exterior. O levantamento contabilizou 904 casos em 2023 e 794 em 2024, a maioria localizada na Europa e atrelada a disputas de guarda.

Transformando a dor em alerta preventivo
Atualmente lotada na Unidade de Recuperação de Dispositivos Móveis em Belém, Amanda Souza relata ter utilizado a frase do ex-marido, dita com o intuito de destruí-la, como combustível para seguir em frente. “Eu não podia dar a ele a vitória que ele queria. Eu não podia admitir que um homem entrasse na minha vida e ditasse o meu destino”, afirmou.

Com o objetivo de identificar o padrão de conduta de abusadores e evitar que outras mulheres passem pela mesma situação, a delegada planeja estudar a violência vicária em um curso de mestrado. Para as mulheres que suspeitam estar em uma relação abusiva, ela orienta duas frentes de ação imediata:

  • Autoconhecimento: Identificar a dependência emocional que impede a vítima de reconhecer e sair do ciclo de violência.
  • Independência financeira: Buscar estratégias econômicas próprias, visto que a dependência financeira é um dos principais obstáculos para o rompimento de relações abusivas.
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Atualizado: 19/02/2026 14:17

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